Me lembro que o meu primeiro beijo foi no ginásio. Claro que eu mentia para todas as minhas amigas e dizia que tinha sido bem antes.
- Muuuuuuuuuuuuuuuuito antes! Tipo assim, amiga… Eu tinha uns 6 anos de idade, saca?!
Nem sei se era mentira, podia até ser que nas brincadeirinhas de médico da infância eu tivesse dado um beijinho ou outro, mas aquele do ginásio é que é considerado o primeiro beijo. Sob pressão, tenso, no limite da idade permitida para ser a sigla que nenhuma menina queria ser no ginásio: BV. Boca-virgem!
O caso é que naquele sábado o Daniel, um gordinho da sala a quem só restava ser simpático e oferecer festinhas no quintal de casa, ia fazer um mega bailinho para comemorar seu aniversário. E a gente sabia o que significava o bailinho do Daniel: era agarrar a oportunidade de deixar de ser BV com unhas e dentes, ou terminar a festa (lá pelas 10 da noite) segurando um cabo de vassoura (e na época ninguém sabia o que fazer com um cabo de vassoura, ao contrário de você, leitor).
Eu me aprontei toda e subi no FIAT 147 do papai, que me deixou na festinha. Recusei o cachorro quente e a porção de salgadinho cheetos para não ficar com os dentes cheio de craca amarela e me entupi de refrigerante. Estava todo mundo lá! Dançamos músicas da Legião Urbana, falamos besteira e lá pelas tantas o estroboscópio começou a girar ao som de Wishing On A Star, aquela canção que ficou famosa por ser o tema da Yasmin (in memorian) e do Guilherme de Pádua.
Foi quando avistei o Renan. Ele não era da minha sala, ele usava o cabelo penteado para o lado e roupas da Fido Dido, além de todas as garotas acharem ele um arraso porque o Renan já era tão crescido que tinha até espinhas na cara. Ele era per-fei-to para o primeiro beijo.
Então eu tomei coragem e o chamei para dançar. E daí para me ver naquela parede da casa do Daniel cheia de heras com o Renan fazendo biquinho na minha frente, foi um pulo, nem me lembro o que aconteceu. Só sei que a teoria do beijo eu já tinha aprendido há séculos na televisão, portanto seria fácil. “Abrir a boca, colocar a língua para fora e girar a cabeça em círculos, que nem o estroboscópio”, pensei.
O curioso foi que na hora em que eu estava ali, beijando o Renan, eu pensei na Bruna, na Talita, na Tatiana, na fulana e na beltrana. Eu precisava contar aquilo para todas porque, na bem da verdade, aquele beijo tinha sido para elas.
O Renan recuperou o fôlego, eu também e entramos de novo na festa, sem dizer uma palavra. Nem um “foi bom pra você?” ou “te vejo na escola”. Aliás, foi assim pelo resto do ginásio. Porque a minha história com o Renan já tinha sido escrita, com começo, meio e fim, embora tenha durado um minuto.
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Recentemente, eu estava no ônibus quando o Renan sentou bem ao meu lado. Ainda tinha espinhas e o cabelo penteado todo para a esquerda. Eu aproveitei que ele falava no celular para puxar um livro da bolsa. Não que ele fosse me reconhecer, mas, por via das dúvidas, não custava afundar a minha cara naquelas páginas. Até porque ninguém usa mais cabelo de lado desde 1990epoucos.
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Na época do beijo, nem pensei em contar para minha mãe. Acho que foi um misto de timidez com o fato de me sentir uma fora da lei, o que tornava tudo mais gostoso. Mas sei que a poupei de envelhecer uns 12 anos (pelo menos de cuca).
Luquinhas chegou para mim no ano passado e disse:
- Eu já beijei de língua!
Na hora eu tomava alguma coisa e escorreu tudo pelo nariz.
- Co-como assim, Lu?
- Eu voltava do recreio e cheguei antes na sala de aula. A Kathilyn (será que é assim que escreve isso?) também. Estávamos sozinhos. Eu olhei para ela, ela olhou para mim e demos um beijo de língua. Mas olha, mãe, isso é um segredo só nosso, hein?!
Nem sei se quando estiver no ginásio, o Luquinhas vai considerar esse o seu primeiro beijo, mas acho que não. Só sei que ele precisa aprender que alguns segredos não são divididos com a mãe. Principalmente se ela tem um blog.