O ápice do meu carnaval aconteceu quando ainda nem era carnaval. Sexta-feira, véspera de feriado prolongadíssimo, a cidade toda parada. A avenida onde moro é uma das saídas para a Marginal Tietê, que é uma das principais saídas para qualquer canto do País, que é a opção de todo mundo que não quer passar um carnaval cinza em São Paulo. Enfim, deu para imaginar como é que estava o trânsito aqui na porta do prédio na sexta-feira.
Eu saí do trabalho lá pelas 15h e resolvi buscar o carro em casa (eu não vou trabalhar de carro) para apanhar minha família que estava em um bairro vizinho, visitando minha tia. Engatei a primeira, passei o portão da garagem e de lá não saí mais. Só fui sair uns 20 minutos depois, quando o trânsito se mexeu um pouquinho para a esquerda e deu para enfiar meu carro no meio de toda aquela gente desesperada a fim de sair da cidade.
O calor batia uns 40º dentro do carro e eu ainda estava na mesma direção da janela de casa, cerca de 30 minutos depois. Nada de andar, nem para frente, nem para trás, nem para um lado, nem para o outro. Nada de nada. Começou a me dar desespero e juro que cogitei a possibilidade de abandonar meu veículo ali, já que ele não deve valer nem mil reais. Mas como mil reais não se ganha todo mês, resisti, aumentei o som e rezei.
Quarenta e cinco minutos depois eu me vi diante da possibilidade de virar à direita na Avenida Francisco Matarazzo e fugir daquele inferno. Só precisava esperar abrir o farol e eu era logo o primeiro carro da longa fila que se formava atrás. Viva! Viva! Olhei para os pedreiros da construção do shopping ao lado com lágrimas nos olhos e compartilhei minha felicidade. Aí estourou um cano que transportava cimento fresco da construção e voou tudo na lateral do meu carro, de ponta a ponta. Juro!
Na hora eu comecei a dar gargalhadas de nervoso, tipo o Tom Hanks em Um Dia a Casa Cai, porque qual é a chance dessa merda acontecer contigo na véspera de um carnaval? Ou melhor, qual é a chance disso acontecer contigo em algum momento da sua vida?
Pensei “não deve ter feito um estrago tão grande”, mas os mesmos peões que me olhavam sorrindo segundos antes agora colocavam uma das mãos na cabeça e com a outra apontavam para o meu carro. O meu pobre carro que, naquele momento, não devia valer nem 30 reais.
Abri a janela e perguntei para um dos pedreiros:
- Fez um estrago muito grande?
- Peraí que o supervisor está vindo e já te responde essa pergunta!
Putamerda. Então veio o supervisor falando no radinho:
- QAP, QRL, tô com um carro aqui todo destruído de cimento. Vou mandar ele aí para lavar, entendido?
E em seguida se virou para mim e disse:
- Boa tarde, madame! Dá toda a volta, pega esse trânsito de novo, entra no portão G6 que a gente vai lavar o seu carro para você inteiramente grátis!
- Meu senhor, não tem a menor chance de eu pegar esse trânsito de novo. Eu estou atrasada.
- A senhora tem certeza?
- Não?
- Se secar, vai manchar todo o seu carro.
- Quanto tempo demora para secar? – perguntei, tentando localizar na memória qual lava rápido seria mais próximo.
- Olha, madame, já está secando…
Putamerda II. Virei na Francisco Matarazzo pensando onde caraleos seria G6 e, depois de enfrentar todo o trânsito da Turiassu novamente, vi um monte de peão na frente do portão principal da construção acenando para o meu carro.
O portão principal é o mesmo onde eu passava correndo na frente durante os 3 anos que o shopping levou para ser construído, graças ao acúmulo de peões que ficam naquele local tomando um solzinho depois do almoço. E agora era lá que eu tinha que estacionar o meu pobre veículo.
Assim que entrei, as máquinas todas silenciaram e todo mundo parou de trabalhar. Dois pedreiros se aproximaram segurando um esguicho, enquanto cerca de duzentos rodeavam o meu carro e me olhavam como se eu fosse uma ET. Ou melhor, uma ET com 4 peitos de fora. Me senti a Rita Cadillac no Carandiru, sem direito a beijo na bunda (por opção minha, que fique claro).
Então eu resolvi puxar papo:
- E o Timão, hein?
- Deve ser difícil dirigir essa empilhadeira, não?
- Qual argamassa que é melhor? Eu acho que é a Quartzolit.
Enquanto um outro supervisor mandava os dois peões segurando a mangueira “lavarem tudo direitinho!”
- Limpa essas titicas do capô também!
FIM