Eneaotil

Sobre cabelos e rabos

17 Março, 2008 · 16 Comentários

Eu sempre tive para mim que cabeleireiro bom é cabeleireiro biba. Não pode ser macho, porque macho é relaxado e coça o saco – e ninguém toca nos meus cabelos sedosos depois de colocar as mãos nas partes. Não pode ser mulher, porque mulher nunca quer ver a outra bonita e penteada, a não ser que ela seja sua amiga ou sua mãe. E não pode ser um homossexual discreto, que vai ficar cheio de pudores para fazer um corte super moderno, com medo de ser descoberto e se ver obrigado a sair do armário.

Cabeleireiro tem que ser biba, bichinha, são paulino, baitola e viado. Tudo isso junto. Porque só ele vai querer te ver *L-I-N-D-A*, *A-R-R-A-S-A-N-D-O*, *B-R-I-L-H-A-N-D-O*. E especialidade de cabeleireiro macho é passar a máquina zero na cabeça de outro macho a R$ 5 no Largo da Batata. Não, obrigada, eu sempre preferi gastar um pouco mais.

Também sempre tive para mim que cabeleireiro não é algo que a gente tem para sempre. O bom é sempre trocar, porque senão você vai ficar com a mesma cara dos 6 aos 90 anos. E é capaz de, aos 35, ter de sentar em cima de um monte de listas telefônicas e ganhar um pirulito no final do corte se tiver um bom comportamento.

Eu, por exemplo, se continuasse a ir no Toninho, ia ter até hoje o cabelo do Xororó. Há bem pouco tempo, ele ainda mantinha na parede de seu salão uma fotografia de uma loira com as madeixas semi-raspadas e um topete enoooooooooorme, cheio de gel e glitter, com uma propaganda do Studio Line (esculpa seus cabelos à sua moda – lembram disso?).

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Quando me mudei das Perdizes para a Pompéia, saí em busca de outro cabeleireiro, mas por ali é bastante raro alguém com todas as especificações necessárias. O Adílson é um senhor distinto, casado, com três filhos. O Ronaldo é um homem que arrota enquanto corta o seu cabelo, come frango com farofa dois minutos antes do seu horário e chega palitando os dentes. E por aí vai.

Tentei o Soho, mas saí de lá parecendo a Honolável Senhola Leonô. Decidi, então, romper fronteiras e vim cortar o cabelo bem perto do trabalho, aqui em Pinheiros, no Jean Louis David. Ficou ótimo, mas a Lei de Murphy nunca falha e quando você encontra o cabeleireiro gay perfeito, no mês seguinte quando volta ao salão para dar um tapa na peruca, ele foi tragado pela terra. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se, sem deixar um bilhetinho suicida.

Aí eu decidi ligar em um salão moderno lá dos Jardins, na Augusta com a Oscar Freire, em plena Galeria Ouro Fino. E me atendeu um cabeleireiro falando cantado:

- Bah, tchê. Venha sim, guria.

“Perfeito”, pensei. Não dava para ser mais gay. E nem me importei de pagar os R$ 80.

Só que no meio do corte, quando tudo já estava ficando uma bosta, ele começou a falar sobre a namorada, corridas de carros e torcida organizada.

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Se o seu cabelo está uma merda, não importa que roupa de oncinha você coloque, tudo vai parecer uma porcaria. E eu estava me sentindo um bagaço desde que o super hetero gaúcho colocou a mão nos meus cabelos.

Hoje, na hora do almoço, me deu na sapituca e fui em um salão aqui do lado do trabalho, paupérrimo, baratésimo, inspirada pelo nome do lugar: *D.I.V.I.N.A.*. Lavei os cabelos com uma atendente de nome Poliana, ganhei um cafezinho e fiquei na cadeira, esperando o cabeleireiro…

… que era a cara do Sargento Pincel e casado com a proprietária do salão, a dona Divina.

Morri.

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Acordei ainda na cadeira do salão, com um cabelo channel moderno e deslumbrante. É a vida fazendo eu rever meus preconceitos (ou fazendo a dona Divina perder o marido).

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