Eu achei que eu fosse morrer solteira, aos 70 anos, chacinada do lado do Júlio em um bar da Zona Leste por não ter pagado a conta. Mas meu destino é outro e já está escrito desde que eu nasci: eu vou ser daquelas velhinhas, torcedoras símbolo do Timão (já tenho até nome bom pra isso: “Lá vai a Dona Leonor da Fiel, corinthiana apaixonada…”). Vou participar de tudo quanto é Mesa Redonda, com um terço enorme no pescoço, vou aparecer todo domingo na televisão. Perder nas minhas pelancas as tatuagens sobre o Corinthians, assistir os jogos de joelhos rezando para São Jorge, com uma vela acesa nas mãos. Usar um chapéu de mosqueteiro, brincos com o escudo, ser filmada pela Globo todo jogo batendo no peito com orgulho de ser Coringão. E um dia o coração vai parar, bem ali, aos 75 anos, na arquibancada do Pacaembu (porque o Corinthians ainda não vai ter estádio). Diante de 40 mil torcedores enlouquecidos e 60 milhões de corinthianos vendo o jogo pela TV, eu vou rolar pelos degraus amarelos até o alambrado. Vou cair de bruços, vou causar comoção, os Gaviões vão fazer um minuto de silêncio. E quando os paramédicos me virarem de frente e eu aparecer na Globo pela última vez, o Galvão vai narrar (caquético, aos 125 anos, mas ainda vivo) o meu sorriso. E todo mundo vai saber que só quem é corinthiano (até depois de morto) é que é feliz.
Entradas do Maio 2008
Coincidências
28 Maio, 2008 · 14 Comentários
Essa aconteceu há alguns meses:
- Mãe, que dia eu nasci?
- No dia 12 de novembro, Lucas!
- DOZE DE NOVEMBRO?????????????????? Não acredito, mãe!!!!!!
- Por que, Lucas?
- Porque é o dia onde tudo acontece! Eu nasci em 12 de novembro, eu fiz meu aniversário de um ano em 12 de novembro, de 2 anos em 12 de novembro, de 3 anos em 12 de novembro, de 4 anos em 12 de novembro, de 5 anos em 12 de novembro e de 6 anos em 12 de novembro. E acho que o de 7 anos também vai ser em 12 de novembro!
- Sim!
- Fantástico, mãe.
O que dizer para seu ex quando ele vai passar férias na Faixa de Gaza?
27 Maio, 2008 · 11 Comentários
O pai do Lucas foi para Israel e eu, como uma boa ex-namorada, fiz questão de desejar boa viagem antes:
- Divirta-se hein?
- Pode deixar…
- E tome cuidado por lá. Parece ser perigoso.
- Nada, o lugar onde vou ficar é super seguro. Todo cercado pelo exército israelense, protegido por paramilitares 24 horas, abrigo antiaéreo.
- Ouvindo assim não me parece tão seguro…
- É, falando assim também não me pareceu tão seguro.
- Um alvo fácil…
- É…
- Mas não estou querendo te deixar preocupada. Longe de mim. Boa viagem!
- …
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Notícias sobre o U.D.O.
26 Maio, 2008 · 7 Comentários
Errei de novo. O show do U.D.O. é só nesse próximo domingo. Tá difícil ver esse homem.
Alguém me ajuda a responder?
21 Maio, 2008 · 12 Comentários
Recebi esse pelo Fale Conosco do site da ONG:
"Seu nome Antonio vinncius Seu e-mail viniciuscaverna@XXXXXXX Sua sugestão de pauta Tem sobre que coleta seletiva, no projeto seus ia tem sim ou naõ;quero sabre mais.este projeto. por eu na numca comunidade aqui com colete seletiva de lixo esta luga chama jocum jovens com uma missaõ porto velho."
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Amigos amados
21 Maio, 2008 · 3 Comentários
juli mac diz:
joguei uma moedinha pra você na Fontana de Trevi, sabe?
Categorias: Amigos
Pizza de merda
21 Maio, 2008 · 5 Comentários
O Lucas tem um jogo que se chama Pizzaria Maluca. O objetivo é que você consiga terminar de montar o seu pedaço de pizza antes dos outros concorrentes. Para isso, é preciso andar pelo tabuleiro e rezar para cair nas casinhas dos ingredientes. Há também cartas de sorte ou azar, que te fazem conseguir brócolis, ovo e presunto (jesus, que pizza é essa?) de uma vez só, ou te fazem perder tudo.
Enfim, dia desses eu jogava Pizzaria Maluca com o Lucas e toda vez que ele ganhava um ingrediente, ele cantava:
- AAAAAAAAAAAAALELUIA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAALELUIA! ALELUIA! ALELUIA! ALEEEEEEEEEEEEELUIÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
O ovo e:
- AAAAAAAAAAAAALELUIA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAALELUIA! ALELUIA! ALELUIA! ALEEEEEEEEEEEEELUIÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
O tomate e:
- AAAAAAAAAAAAALELUIA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAALELUIA! ALELUIA! ALELUIA! ALEEEEEEEEEEEEELUIÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
O queijo e:
- AAAAAAAAAAAAALELUIA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAALELUIA! ALELUIA! ALELUIA! ALEEEEEEEEEEEEELUIÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
Já estava me dando no saco. Até que, faltando um só ingrediente para terminar seu pedacinho de pizza, ele caiu em uma carta de sorte ou azar. E o Lucas, super otimista, começou a cantar antes mesmo de ver qual era a carta:
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAi, que merda!
Ele tinha perdido tudo.
Balls To The Walls
19 Maio, 2008 · 12 Comentários
O que você responde para o seu primo quando ele te chama para ir ao show do MENU.D.O porque ganhou dois ingressos no valor de R$ 100 cada e não sabe o que fazer com eles?
- QUEM?
U.D.O. Ex-vocalista do Accept.
- O QUE?
Accept. Uma banda de Speed Metal Alemã.
- SPEED COMO?
- Ah, cala a boca!
E como o seu primo sabe que você foi na Praça da República de madrugada para ver o show do Paul Dianno, fica bem chato recusar. Além do mais, na sua atual situação, você está aceitando até convite para show de mágica em Itaquera, então por que não ver o U.D.O?
Combinamos tudo no sábado de noite: domingo eu passaria em sua casa, iríamos até o antigo Palace, em Moema, tentaríamos vender os dois ingressos por R$ 80 na porta do show, gastaríamos tudo em pizza frita e viríamos embora, com cem quilos a mais.
Se tudo desse errado, encontraríamos nossos amigos do Kung Fu que também foram presenteados com ingressos (o U.D.O precisa de quorum, gente), entraríamos no Palace e cantaríamos Balls To The Walls, um dos maiores sucessos do alemão (e meu primo descobriu isso jogando o nome do sujeito no google). Bolas contra as paredes.
***
No domingo, acordei com um humor de seis shots de tequila da noite anterior e toda a minha vontade de ver um monte de bolas contras as paredes tinha ido por água abaixo. Então meu primo me ligou:
- Lelê, não vou mais ao show do U.D.O. Estou trabalhando e não tenho hora para sair.
- Graças a Deus.
- Você não quer os ingressos? Oferece para algum amigo teu.
- Não tenho nem cara para fazer isso, Nando. Que que eu vou dizer para um amigo? “Olá, quer ir ao show do U.D.O. assistir ele cantar Balls To The Walls?” Nem o Daygo ia querer ir comigo.
- Vamos deixar para o fim-de-semana que vem?
- Acho que ele não vai querer mudar o show para o fim-de-semana que vem por tua causa.
- Eu quis dizer para comermos pizza frita no fim-de-semana que vem…
- Ah, claro!
***
De noite, conectei no MSN e achei o meu professor de Kung Fu online.
- Kin Lai, Wagner. Tudo bem contigo? Não foi no show do U.D.O?
- É no domingo que vem!
***
Hoje passei a manhã decorando grandes sucessos do U.D.O. para cantar no próximo domingo. Esse daí debaixo se chama Thunderball. Sim, o cara tem fixação por bolas.
**
Juro por Deus que já vi o U.D.O vendendo churrasquinho no Largo da Batata.
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Só não sei qual saltinho vou usar para ir ao show.
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Semana que vem conto como foi.
19 Maio, 2008 · 4 Comentários
Alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou na semana passada? Logo voltaremos com nossa programação normal.
Categorias: Dia-a-dia
Da série Mifu
13 Maio, 2008 · 8 Comentários
Querido diário,
hoje eu perdi meu primeiro meio litro de sangue no Kung Fu, mas já estou respirando sem a ajuda de aparelhos.
Futebol dos sonhos
8 Maio, 2008 · 22 Comentários
Chegou pela agenda escolar do Luquinhas um convite para os pais assistirem o futebol na última segunda-feira. Até então, eu tinha que ficar esperando acabar a aula debaixo da escada e só conseguia ouvir uma última rodada de perguntas, que meu filho sempre foi muito bom em responder porque a sua pilantragem capacidade intelectual é invejável. Como o Lucas não tem a menor vergonha na cara e seus coleguinhas são tímidos, ele sempre ouve a resposta baixinha do amiguinho e grita bem alto como se tivesse sido o primeiro a responder.
- Meus parabéns, Lucas – diz o professor.
Enfim, eu nunca pude ver a habilidade do meu filho com a bola desde que ele entrou nas aulas de futebol, embora pudesse imaginar. Porque a minha família tem uma tradição em fazer algo mil anos e continuar péssima naquilo. Por exemplo: eu jogo sinuca há uns 6 anos e continuo um fracasso completo. Meu primo toca guitarra há 15 anos e nunca conseguiu fazer parte de uma banda. Meu irmão joga videogame desde antes do Atari e, muito provavelmente, nunca chegou ao final de um jogo. Se minha mãe começar a tricotar um cachecol para mim ela terá o que fazer a vida toda. Meu pai até hoje não terminou de ler Meu pé de laranja lima. E minha cachorra tinha tanta preguiça de morrer que viveu 17 anos.
***
O bilhete dizia:
“Senhores pais, vocês estão convidados para assistir “O Futebol dos Sonhos” com as crianças do pré III e da primeira série. Compareçam na unidade G2, segunda-feira, às 17h50″.
Eu cheguei lá pelas 18h10 porque pontualidade também nunca foi o meu forte. O Lucas já fazia um aquecimento, chutando uma mini bolinha e eu achei um tremendo avanço porque bola e pé nunca deram certo para ele.
Meu filho recebeu um colete azul junto com outros cinco amigos: um porquinho, um outro corinthiano, dois bambizinhos e um tão inexpressivo que nem lembro que camisa vestia. Todos da primeira série. E o time foi jogar contra a equipe laranja, formada pelos pequenininhos do pré III. Uma completa covardia.
Logo na saída, meu filho tomou uma entortada de um menininho de 4 anos que o deixou completamente sem reação. O resto foi um total pesadelo, mas ele pareceu estar se divertindo. Eu não parei de incentivar um só minuto na arquibancada:
- É isso aí, filhão!!!! Mostra que você não é tão ruim assim!! Cala a boca da mamãe!!! Vai Corinthians!!!
***
Depois de mais duas partidas incríveis do mais puro futebol arte, o professor deu o exercício final. Entregou uma bolinha para cada criança e explicou que elas teriam que chutá-la até um gol, levá-la até o outro gol e balançar a rede novamente. Isso seis vezes.
Lucas esqueceu que eu estava na arquibancada, olhando apenas para ele e achou que ninguém o observava. Aproveitou a muvuca de crianças jogando todas ao mesmo tempo, segurou a bola com as mãos, foi até o gol e arremessou-a, tipo o Maradona. Olhou em volta, viu que o professor não tinha visto e gritou:
- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAÇO!
Segurou a bola de novo, correu até o outro gol e fez mais um golaço. Com as mãos.
E o pilantra só fez isso cinco vezes.
***
Na volta para casa:
- Lucas, existe um esporte próprio para fazer gols com as mãos. Chama-se Handball, sabia?
- Ah é, mãe? Legal.
- E do jeito que você é bom nisso, poderia ser o artilheiro da seleção brasileira de handball.
Foi aí que ele percebeu que eu tinha visto tudo. Me olhou fixo nos olhos e chorou. De tanto rir.
Surpresa
8 Maio, 2008 · 6 Comentários
- Mamãe, estou fazendo um presente de dia das mães na escola e não posso te contar o que é…
- É, Lu? Que legal!
- Vou te dar uma dica: tem duas palavras. A primeira começa com PO, tem a família do TA no final. A segunda começa com RE.
- Um porta-retrato?
- Que droga, mãe! Como você adivinhou?
Protegido: Karma
6 Maio, 2008 · Digite sua senha para ver os comentários
Categorias: Kung fu
Etiquetado: campeonato paulista, Futebol, Kung fu
Tempo, mano velho
3 Maio, 2008 · 29 Comentários
É bem verdade que o tempo muda tudo. Muda hábitos, muda rotinas, muda gente, muda a gente. E, com a vida caminhando em frente, nos transforma em pessoas melhores. Hoje me peguei, com uma taça de vinho nas mãos, pensando no Luiz. Assim, com z mesmo. Luiz Fernando.
Foi meu primeiro namorado, quando eu tinha só 15 anos. Namorado de verdade, daqueles que duram mais que um ano, porque os de um mês eu já tinha tido 300. Namorado cúmplice, que divide gostos, sonhos, lembranças. Que a gente quer apresentar para a família, que a gente fica junto, vendo catálogo das Casas Bahia e pensando no que teria e no que não teria em casa. Na minha casa, sem pai, nem mãe, só com o Luiz.
Nem existia o Luquinhas na época. Nem pensava em Luquinhas, embora sonhasse em ter mil filhos com o Luiz. Ele morava em Santos, cidade que gosto muito até hoje. E eu viajava até lá de vez em quando, mas nos víamos quase todos os finais de semana, porque quando eu não estava lá, ele estava aqui. Sempre. Do meu lado. Ali, bem pertinho.
E passávamos as sextas-feiras, os sábados, os domingos juntos. A gente dormia junto, ia ao mercado junto, na drogaria junto. Tudo junto. Íamos ao Seven Eleven junto. Saudades do Seven Eleven.
Me peguei hoje, sábado, com uma taça de vinho nas mãos, querendo voltar para Santos. Não para vê-lo, mas para jogar fliperama no Gonzaga por horas e horas com uma única ficha (sou nerd). Para jogar playstation 1 durante a madrugada. Para comer a carne do Tertúlia. Para ir ao boliche. Para rir a noite toda na Ilha. Para encher a cara de vinho São Tomé. Para ir a shows de heavy metal. Para usar coturno. Para encontrar a Tati. A Marjorie. A família toda do Luiz. Talvez o Luiz.
Lembrar que a gente era tão idiota a ponto de terminar na primeira e única briga. De renunciar a tudo na primeira dificuldade. E que se tudo tivesse acontecido hoje poderia ter dado certo para sempre. E poderia não ter dado certo nem por um dia. Porque a gente cresceu e a gente aprendeu que é preciso ter paciência para tudo e para nada.
Nem sei o que aconteceu com o Luiz. Sei que a vida dele, provavelmente, caminhou sem mim. Sei que se tornou médico psiquiatra e que, também provavelmente, terá muito sucesso porque foi (e é) uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Que continua com uma família linda, por dentro e por fora. Sei que sabe do Lucas e que sente saudades, porque todos nós temos saudades. De uma coisa que deu certo e acabou.
E que tudo continua. Porque, no fim das contas, não é o tempo que muda tudo. É a vida.
Categorias: Dia-a-dia
Etiquetado: Ex-amar é...





