No domingão retrasado (sim, me desculpem a falta de tempo para a atualização) uma prima de quinto grau desencalhou. E nós, que nunca perdemos uma boquinha free como bons familiares que somos, não poderíamos faltar.
Seria tudo lindo, tudo fantástico, tudo maravilhoso se o casamento não tivesse sido marcado em um buffet na Rua Alvarenga, às 11h da manhã. E você, leitor, não se sinta um ignorante caso não saiba onde fica tal via porque aconteceu comigo também. Tudo o que precisa saber é que no domingo retrasado, às 11h da manhã, a Rua Alvarenga estava interditada por conta da Maratona Internacional de São Paulo. Aliás, não só a Rua Alvarenga, mas todas as laterais, transversais e caralhais.
Lá pelas 10h20, enfiei meu pai, minha mãe e meu filho no meu Corsinha 1.0 e me aventurei em busca do casamento, com uma única coisa na cabeça e no coração: poder abraçar a minha prima querida e dar os parabéns uísque. Peguei a Pedroso de Morais e vi um milhão de copos d’água vazios, o que significava que os atletas filhos-da-puta-desprezíveis-e-saudáveis já tinham passado por ali.
- Bom sinal! – eu disse, com todo o meu laquê e otimismo.
Então, quando eu cheguei na Praça Panamericana, tudo mudou. Tive que me meter ali e acolá, naquelas ruazinhas malditas e fiquei 50 minutos para atravessar a Diógenes Ribeiro de Lima. E descobri que o final dela era quase na minha casa.
- PUTAQUEPARIU CARALEO ALADO! – eu disse, com meia porção de laquê e perdendo a vontade de viver.
Aumentei o volume do som para não ouvir meu filho dizendo que eu tinha errado o caminho, entrei por mais uma dúzia de ruas que estavam interditadas, consegui chegar na Marginal Pinheiros e quando já estava perto de Osasco pude entrar para a direita. O relógio marcava quase meio dia, o que me deixou alegre porque finalmente eu ia perder uma cerimônia e chegar somente na hora da festa.
Andei mais 3 km e encontrei tudo interditado de novo. Encostei o carro e perguntei para um CET:
- Ô, bigode! Como eu chego na Rua Alvarenga daqui?
- Não chega. Ela está interditada.
- E o meu direito de ir e vir?
- Só daqui a quarenta minutos mais ou menos.
Filhodaputa. Respirei fundo e decidi estacionar o carro em uma ruazinha para esperar os 40 minutos. Quando eu já estava prestes a tocar a campainha de uma casa e pedir um copo de água da torneira, decidi terminar de descer a ruazinha com o carro e adivinha onde ela terminava? Do lado de casa Na Rua Alvarenga!
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A Rua Alvarenga continuava interditada, mas o resto do trajeto dava para ser feito a pé, mesmo sendo eu de uma família que não prima por esse tipo de esporte de aventura. Estacionei o carro no fim da ruazinha e lá fomos nós, caminhar por uns cinco quarteirões.
O problema é que a gente tinha que atravessar pelo meio dos competidores da Maratona para chegar no buffet.
- Espera aí, filho. Cuidado para não ser atropelado. Depois desse a gente vai.
Eu nunca pensei que fosse dizer isso para o Lucas me referindo a pessoas.
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Quando a gente chegou, o salão ainda estava vazio porque todo mundo se fodeu, inclusive os noivos. Nem vi se a Rede Globo mostrou, mas provavelmente alguém deve ter visto minha prima vestida de noiva, correndo no meio dos atletas.
As pessoas iam chegando aos poucos, todas cheias de bom humor e amor no coração. Então o Luquinhas, lá pelas tantas, veio correndo e gritando, em um tom proibido pelo Kassab:
- A NOIVA CHEGOU! A NOIVA CHEGOU!
Eu já aprendi que em situações como essa a gente finge que não conhece o próprio filho e comenta com um desconhecido do lado que o menino, tadinho, deve ser orfão.
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Meu estômago já gritava de fome quando tocou a marcha nupcial e a noiva veio caminhando. Procurei o Lucas e adivinha onde ele estava? Do lado de casa do Padre. Ficou lá o tempo todinho, até que se preocupou em me avisar que estava por ali, no fim da cerimônia.
- MÃE!!!!!!!!! MÃE!!!!!!!!! – gritou, ainda do lado do Padre – MÃEEEE!!!!!! TÁ ME VENDO AQUI???
- Tadinho, deve ser órfão – eu disse para um casal de velhinhos da mesa do lado.
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A festa foi absolutamente normal: Luquinhas conheceu um milhão de crianças, fez avião com os cardápios e correu entre as mesas o tempo todo. As pessoas se acabavam na pista de dança, com músicas que variavam entre Fly Me To The Moon e Créu. Para comer tinha o tradicional conchiglione quatro queijos e o filé ao molho madeira, além de brownie e sorvete de sobremesa.
Eu comi um salgadinho de peixe e fiquei entalada com uma espinha na garganta pelo resto da festa. Não saiu nem com a quantidade de uísque que eu tomei.
- Você gosta de uísque mesmo ou só está fazendo tipo? - me perguntou uma tia desconhecida.
- Tô fazendo tipo/ Que tipo de pergunta é essa?/ Uíxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxkiiiiiiiiiiiiiiiiiiii / SIC AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIA (seguido de um punho da pantera) Gosto mesmo, tia.
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Não sei se eu já comentei aqui que o Lucas quer muito que eu case porque ele acha que só se eu casar posso dar irmãos a ele. E eu, como nunca lhe contei a história de seu nascimento, fico me submetendo a me espremer com tudo quanto é prima encalhada na hora de pegar o buquê só para satisfazer a criança. Mas é só para satisfazer a criança mesmo, viu, gente? Não pensem mal de mim.
Então lá fui eu porque nem flor de graça eu estou recusando. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três e…
… nunca me vi tão perto de um buquê. Ele veio vindo na minha direção e ia cair na minha mão, quando uma menina deu um bloqueio da garça e o arrancou de mim. Uma menina de 10 anos, diga-se de passagem.
- Vai casar com quem, pirralha? O menino do 3º C não te quer não, sua gordinha!
Quase falei, mas depois pensei que a menina devia ser muito mais poderosa no Kung Fu do que eu.
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O fim do casamento foi aquele fim típico: o Lucas fez guerra de flores e o que sobrou da decoração minha mãe e minha tia levaram para casa. Eu, o Nando e a Cláudia saímos de lá encalhados, como sempre acontece desde que nos conhecemos por gente. Meu pai enfiou 12 mil bem-casados nos bolsos do casaco. Um queniano brasileiro ganhou a Maratona. E a CET liberou a Rua Alvarenga, temendo que eu pudesse matar cerca de 150 atletas depois de fazer tanto tipo com o Johnny Walker.