Ontem, depois do treino de Kung Fu, peguei o busão suada e fedida com uma nota de dez reais. Mas a nota de dez reais não tem nada a ver com a história que eu vou contar agora. Milagrosamente, avistei um lugar vazio no fundo do ônibus, onde o cobrador batia boca com um bêbado que usava um boné do Palmeiras. Mas não era briga de torcida, embora o cobrador tivesse cara de corinthiano.
Eu fiquei ali na catraca esperando pacientemente o bêbado mandar o cobrador tomar no cu e o cobrador dizer que ele ia ter que descer. Só queria passar rápido, sentar no lugar vazio e morrer, antes que alguém brotasse do chão do ônibus e sentasse primeiro. Até que uns dez minutos depois o cobrador veio receber o meu dinheiro, não sem continuar xingando o bêbado-cabra-da-peste.
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Acontece que o lugar vazio era bem do lado do bêbado. E quando eu me sentei ele continuava a gritar que acertaria as contas com o cobrador no meio do Largo da Batata.
- [voz de bêbado] EU SOU TRABALHADÔ. ELE SAI LÁ DA CADEIRA DELE E VEM AQUI MEXER COM UM TRABALHADÔ. EU VOU DESCER SIM, MAS ANTES EU VOU DAR UMAS PORRADAS NESSE COBRADÔ!
Sabe quando você não sabe se está pensando ou se está falando? Pois bem, eu achei que estava pensando, mas segurei o homem pelo braço e disse:
- O senhor sente aí e fique quieto. Não vai quebrar a cara de ninguém porque ele também é trabalhador. E pára já de gritar porque eu não sou surda.
Juro, gente. Falei tudo isso. Só que a história não parou por aí porque eu ia até quase o ponto final.
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Lógico que o cara continuou gritando e é lógico que eu continuei mandando ele falar mais baixo. Uma das primeiras coisas que eu aprendi na vida é não discutir com bêbado, mas sei lá o que aconteceu comigo. Acho foi o Kung Fu que me encorajou ou o tal do espírito natalino e eu resolvi fazer o bem para todo o ônibus porque quando eu mandava ele falar mais baixo, ele até que obedecia por alguns segundos.
A princípio ele gritou ameaças de morte ao cobrador, que já nem respondia mais. Depois começou a me contar que era chefe de uma obra na Pompéia e estava indo trabalhar.
- O senhor está INDO trabalhar assim?
- [voz de bêbado] Siiiiiiiiiiiim. Estamos construindo um prédio e eu chego a ficar 48 horas sem dormir. Aí pra agüentar eu costumo tomar uns refrigerantes antes.
- Refrigerante????
Por isso que eu bebo. Mas, vejam bem, ele é o responsável pela construção de um prédio na Pompéia. E é bem capaz de fazer dois prédios sem querer. Depois dessa, só ando de capacete no meu apartamento.
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Para ajudar, tinha um trânsito na Teodoro e até deu para a gente estabelecer uma relação de amizade, comigo mandando ele calar a boca de cinco em cinco minutos.
- [voz de bêbado] Eu tive uma namorada que não falava muito, sabe?
- O senhor não devia deixar ela falar.
- [voz de bêbado] Ela era quietinha mesmo, mas bastava ela tomar umas doses que ela começava a falar sem parar. E ela tomava conhaque. Aquela ali era uma bêbada.
- Aham.
- [voz de bêbado] E ela gritava tanto que eu tinha que mandar ela falar baixo.
- Fala onde ela pega ônibus então pra eu nunca pegar.
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Quando chegou no Hospital das Clínicas, ele fez uma cara sensual e gritou:
- [voz de bêbado] Sabe? Eu tô pissonado por você…
- O senhor tá o que??????
- [voz de bêbado] Eu tô muito apissonado por você!!!
O ônibus inteiro rolou de rir.
- Você tá ficando é muito abusado.
- [voz de bêbado] Você é casada?
- Casadíssima, com um marido muito bravo.
- [voz de bêbado] Bravo, mas feliz…
- Mas nem se eu fosse solteira eu daria bola pra você.
Nessa hora a aparência dele mudou. Ele, que sorria sem nenhum dente na boca, fez a cara mais triste que eu já vi. O olho encheu de lágrima:
- [voz de bêbado] Por que???????
- Porque o senhor é palmeirense e meu coração é corinthiano – fiquei com pena.
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- [voz de bêbado] Já pensou se eu te desse o meu coração? E você me desse o seu coração? E nossos corações ficassem juntinhos assim? Um só coração?
- Mano, eu vou quebrar a tua cara.
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Lá pelas tantas, depois de mandá-lo falar baixo mais 37 vezes, ele resolveu explicar porque gritava:
- [voz de bêbado] Porque eu sou cantor!!!!!!!!!!!
O ônibus inteiro ficou em pânico.
- Se você começar a cantar, eu juro que desço do ônibus.
- [voz de bêbado] Ah não. Não quero que você desça do ônibus.
E eu dei graças a deus que ele estava pissonado.
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- [voz de bêbado] Menina, você é muito gente. Você recebeu educação para falar com todo o tipo de gente.
- Todo.
- [voz de bêbado] Eu também recebi essa mesma educação que você.
Mãe? Pronuncie-se!
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- [voz de bêbado] Eu vou comprar uma bombetinha do Curinthia pra você…
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Aí, uma hora depois, pertinho da Avenida Pompéia, ele desceu do ônibus. Desceu cantando, rindo, desceu feliz da vida. Bem diferente do cara que queria socar o cobrador no Largo da Batata. E todo mundo aprendeu uma lição: quando beber, dirija durma.



























