Eneaotil

Entradas do Novembro 2008

O pissonado do busão

27 Novembro, 2008 · 42 Comentários

Ontem, depois do treino de Kung Fu, peguei o busão suada e fedida com uma nota de dez reais. Mas a nota de dez reais não tem nada a ver com a história que eu vou contar agora. Milagrosamente, avistei um lugar vazio no fundo do ônibus, onde o cobrador batia boca com um bêbado que usava um boné do Palmeiras. Mas não era briga de torcida, embora o cobrador tivesse cara de corinthiano.

Eu fiquei ali na catraca esperando pacientemente o bêbado mandar o cobrador tomar no cu e o cobrador dizer que ele ia ter que descer. Só queria passar rápido, sentar no lugar vazio e morrer, antes que alguém brotasse do chão do ônibus e sentasse primeiro. Até que uns dez minutos depois o cobrador veio receber o meu dinheiro, não sem continuar xingando o bêbado-cabra-da-peste.

**

Acontece que o lugar vazio era bem do lado do bêbado. E quando eu me sentei ele continuava a gritar que acertaria as contas com o cobrador no meio do Largo da Batata.

- [voz de bêbado] EU SOU TRABALHADÔ. ELE SAI LÁ DA CADEIRA DELE E VEM AQUI MEXER COM UM TRABALHADÔ. EU VOU DESCER SIM, MAS ANTES EU VOU DAR UMAS PORRADAS NESSE COBRADÔ!

Sabe quando você não sabe se está pensando ou se está falando? Pois bem, eu achei que estava pensando, mas segurei o homem pelo braço e disse:

- O senhor sente aí e fique quieto. Não vai quebrar a cara de ninguém porque ele também é trabalhador. E pára já de gritar porque eu não sou surda.

Juro, gente. Falei tudo isso. Só que a história não parou por aí porque eu ia até quase o ponto final.

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Lógico que o cara continuou gritando e é lógico que eu continuei mandando ele falar mais baixo. Uma das primeiras coisas que eu aprendi na vida é não discutir com bêbado, mas sei lá o que aconteceu comigo. Acho foi o Kung Fu que me encorajou ou o tal do espírito natalino e eu resolvi fazer o bem para todo o ônibus porque quando eu mandava ele falar mais baixo, ele até que obedecia por alguns segundos.

A princípio ele gritou ameaças de morte ao cobrador, que já nem respondia mais. Depois começou a me contar que era chefe de uma obra na Pompéia e estava indo trabalhar.

- O senhor está INDO trabalhar assim?

- [voz de bêbado] Siiiiiiiiiiiim. Estamos construindo um prédio e eu chego a ficar 48 horas sem dormir. Aí pra agüentar eu costumo tomar uns refrigerantes antes.

- Refrigerante????

Por isso que eu bebo. Mas, vejam bem, ele é o responsável pela construção de um prédio na Pompéia. E é bem capaz de fazer dois prédios sem querer. Depois dessa, só ando de capacete no meu apartamento.

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Para ajudar, tinha um trânsito na Teodoro e até deu para a gente estabelecer uma relação de amizade, comigo mandando ele calar a boca de cinco em cinco minutos.

- [voz de bêbado] Eu tive uma namorada que não falava muito, sabe?

- O senhor não devia deixar ela falar.

- [voz de bêbado] Ela era quietinha mesmo, mas bastava ela tomar umas doses que ela começava a falar sem parar. E ela tomava conhaque. Aquela ali era uma bêbada.

- Aham.

- [voz de bêbado] E ela gritava tanto que eu tinha que mandar ela falar baixo.

- Fala onde ela pega ônibus então pra eu nunca pegar.

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Quando chegou no Hospital das Clínicas, ele fez uma cara sensual e gritou:

- [voz de bêbado] Sabe? Eu tô pissonado por você…

- O senhor tá o que??????

- [voz de bêbado] Eu tô muito apissonado por você!!!

O ônibus inteiro rolou de rir.

- Você tá ficando é muito abusado.

- [voz de bêbado] Você é casada?

- Casadíssima, com um marido muito bravo.

- [voz de bêbado] Bravo, mas feliz…

- Mas nem se eu fosse solteira eu daria bola pra você.

Nessa hora a aparência dele mudou. Ele, que sorria sem nenhum dente na boca, fez a cara mais triste que eu já vi. O olho encheu de lágrima:

- [voz de bêbado] Por que???????

- Porque o senhor é palmeirense e meu coração é corinthiano – fiquei com pena.

**

- [voz de bêbado] Já pensou se eu te desse o meu coração? E você me desse o seu coração? E nossos corações ficassem juntinhos assim? Um só coração?

- Mano, eu vou quebrar a tua cara.

**

Lá pelas tantas, depois de mandá-lo falar baixo mais 37 vezes, ele resolveu explicar porque gritava:

- [voz de bêbado] Porque eu sou cantor!!!!!!!!!!!

O ônibus inteiro ficou em pânico.

- Se você começar a cantar, eu juro que desço do ônibus.

- [voz de bêbado] Ah não. Não quero que você desça do ônibus.

E eu dei graças a deus que ele estava pissonado.

**

- [voz de bêbado] Menina, você é muito gente. Você recebeu educação para falar com todo o tipo de gente.

- Todo.

- [voz de bêbado] Eu também recebi essa mesma educação que você.

Mãe? Pronuncie-se!

**

- [voz de bêbado] Eu vou comprar uma bombetinha do Curinthia pra você…

**

Aí, uma hora depois, pertinho da Avenida Pompéia, ele desceu do ônibus. Desceu cantando, rindo, desceu feliz da vida. Bem diferente do cara que queria socar o cobrador no Largo da Batata. E todo mundo aprendeu uma lição: quando beber, dirija durma.

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27 Novembro, 2008 · 4 Comentários

Ih, gente. Fim de ano é complicado, viu?!

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Agradecimentos

20 Novembro, 2008 · 12 Comentários

Pessoal, muito obrigada para cada um que deixou comentário no post debaixo. Para os amigos de sempre, para os leitores fiéis e para aqueles que estão sempre aqui, mas que nunca tinham deixado uma palavra. Os comentários serão impressos e colocados no álbum dele. Obrigada também para quem leu e não escreveu, mas desejou tudo de bom para o Luquinhas. Beijos a todos.

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Sete

12 Novembro, 2008 · 79 Comentários

1

Filho, hoje você faz 7 anos. E, apesar da memória da mamãe não ser lá essas coisas, me lembro de cada detalhe daquela segunda-feira chuvosa, quando você nasceu. Me lembro de ter levado a mala de internação para a sala e ligado a televisão pela manhã antes de ir ao hospital. E ouvir a Ana Maria Braga dizendo que aquele era um dia muito especial para ela porque era como nascer de novo. Naquele dia, ela apresentava o programa ao vivo pela primeira vez depois de muito tempo, porque tinha ficado afastada tratando um câncer. Acho que essa é a única coisa que tenho em comum com a Ana Maria Braga: nascemos de novo no dia 12/11/2001.

2

Só estou te contando essa história da apresentadora horrorosa daquele programa ruim para mostrar o quanto me lembro de tudo. Entrei no carro com a maior barriga do mundo e cheguei na Maternidade Santa Joana antes das dez da manhã, embora o parto estivesse marcado para às duas da tarde. Do meu lado, sempre a vovó e o vovô. Seu pai estava lá também.

3

Me deram para vestir aquelas roupas de hospital que deixam a bunda de fora, pantufas descartáveis e aquela touquinha ridícula. Eu não estava lá muito bonita para esperar sua chegada, é bem verdade. E me encaminharam para a sala pré-parto, longe de todo mundo, onde só as grávidas e seus filhos prontos para nascer podiam ficar. Tinha uma televisão por lá que só exibia o canal rural. Fiquei horas assistindo peões em seus cavalos, parto de bezerros, corte de gado, adubo de pastagem.

4

Na sala, era um entra e sai de mães aflitas. A cada dez minutos, aparecia um médico na porta e perguntava: “Preparada?” para uma de nós. Confesso que não me lembro das respostas, mas acho que nunca ninguém estará preparada para o que é ser mãe, por mais que a gente pense que esteja. Acho que quando o Dr. Daurizio apareceu, atrasado, lá pelas três da tarde, eu disse que estava, mas minha resposta hoje seria outra.

5

Quando me deitei naquela mesa gelada da sala de parto, me lembro de ter sido apresentada ao auxiliar do obstetra, o Dr. Rogério, e de respirar fundo quando o o anestesista me mostrou o tamanho da agulha que entraria nas minhas costas em muito pouco tempo. Só por você eu tomaria uma injeção daquele tamanho, filho. Por ninguém mais.

6

O Dr. Rogério era corinthiano e o Dr. Daurízio, com quem fiz meu pré-natal, era anti. Acho que se ele soubesse que você se tornaria esse corinthiano tão apaixonado teria te colocado de volta na minha barriga. Mas tinha como não ser? Além do sangue, falamos sobre futebol o parto todinho. Tomei uma bronca do médico porque engoli ar e provavelmente teria cólicas terríveis, mas faz parte da natureza da nossa família a teimosia. No fim das contas, nem tive uma colicazinha sequer.

61

Depois de muito penar, o Dr. Daurízio conseguiu te trazer para o lado de cá. Sofremos um pouco porque eu era pequena, com meus 19 anos recém-completados, e você já era um gigante. Nasceu com quatro quilos e cem gramas. E se recusou a chorar quando nasceu. Você tossiu, filho. Deu uma tossidinha meio blasé e fez os médicos e os enfermeiros rirem. E fez a mamãe chorar. No seu primeiro minuto de vida, quem estava ali já sabia: você tinha vindo para fazer todo mundo muito mais feliz.

62

Foi assim que você nasceu, Lucas. E daqui para a frente, é bem provável que você se recorde de tudo quando tiver seus 26 anos, igual a mamãe. Vai se lembrar da sua formatura de alfabetização, exatamente como eu me lembro de cantar aquelas músicas no Colégio São Domingos. E não vai esquecer do aniversário em que ganhou todos os bonequinhos do Star Wars, nem do dia que a mamãe te levou para andar de cavalo, aquele pangaré cheio de carrapatos do Parque da Água Branca. Se lembrará dos amigos e de quem estiver por perto. Das músicas que ouvia quando criança, das roupas que usava. Em 2027, falará com nostalgia do ano 2008, dos desenhos que assistia, dos livros que lia, das paixões da infância.

71

E aquilo que não lembrar, mamãe estará sempre aqui para contar. Como aquele dia em que você dançou com uma odalisca, ou rachou a cabeça na mesinha da sala.

8

Sua primeira palavra, seu primeiro dente perdido, seu primeiro amigo.

81

Todos os planos para novas artes, as manhas, as malcriações. Os carinhos, os afagos, os colos quando a mamãe está chorando.

91

Os papos, os parques, as viagens. Os cinemas, os filmes na televisão, os doces antes do almoço. Quando você aprendeu a escrever seu nome.

911

Sua família imaginária, suas namoradas imaginárias. A semana toda de internação no hospital e o susto que você deu na gente.

10

Quando você foi ao circo pela primeira vez (e odiou).

11

Quando começou na natação.

12

Os desenhos bonitos que fazia.

13

As coisas inteligentes que sempre disse.

14

As brincadeiras.

15

Os sonhos.

151

As dúvidas.

152

O futebol.

16

As zoeiras.

161

A escola.

17

Enfim, tudo o que quiser saber. Porque a mamãe, Luquinhas, estará sempre aqui. Do primeiro ao último dia. Para sempre.

Feliz aniversário!

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Sobre família

5 Novembro, 2008 · 16 Comentários

- Lucas, no sábado, depois da sua formatura, o sonho da sua vida será realizado. Eu e seu pai vamos te levar para almoçar. Todo mundo junto!

- Mãe, o sonho da minha vida sempre foi andar de cavalo.

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Leitor 200 mil

4 Novembro, 2008 · 10 Comentários

Esqueci de contar: o prêmio acumulou!

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