Não vou aproveitar a felicidade destes últimos dias em que estou de férias para dizer que 2008 foi um ano feliz. Nem o calorão que tem feito, o meu bronzeado mussum mano, o Lucas 24 horas comigo, meu irmão em São Paulo desde o dia 24, a cerveja com o Silveira, as risadas com o Daygo, o The Clock com os amigos todos, as festinhas com o Wandeko, o amigo secreto com a Érica e a Aline, os cafés com Seu Fausto e Dona Rose, a piscina com a água refrescante, a comida da mamãe, os seriados na TV, os filmes antes de dormir, os passeios no centro da cidade, o camarão na ceia de natal, os presentes, a alegria do Lu ao receber a bicicleta (e o medo extremo ao tentar andá-la), enfim. A minha alegria de agora não foi tão freqüente durante o ano todo, pelo contrário. Em 25 anos acho que não chorei tanto quanto nestes 12 meses. Daria para afogar toda Santa Catarina, resolver o problema lá do sertão, entregar de presente um oceano todinho só para Minas Gerais.
2008 foi o ano que começou errado. Sem direito a sete ondinhas, palavras carinhosas, abraço apertado, desejo de felicidade eterna. Com água salgada saindo dos olhos, pesando na bochecha e molhando o travesseiro. Talvez tenha razão aquele supersticioso que disse que o que se faz na virada do ano se faz o ano todo.
Então, poucos meses depois, o meu namoro acabou. Não foi de repente, não foi surpreendente, não foi por acaso. Mas doeu como nunca tinha doído antes, machucou como nunca tinha machucado, fez sofrer como jamais passou pela cabeça que pudesse ser sofrido. E, já que estamos fazendo um balanço, ainda dói. Não por existir amor, nem decepção, nem esperança, nem nada. Tudo isso ficou no travesseiro molhado, que até já secou há meses. Mas é porque eu acho que essas coisas funcionam assim mesmo: elas têm que doer por bastante tempo para nos lembrar que a vida é espinhenta vez ou outra, que não somos intangíveis, que não somos inabaláveis, que as pessoas são capazes de nos machucar e que existem outras que são capazes de nos machucar ainda mais. E, apesar de tudo isso, a gente é capaz de levantar a cabeça e seguir em frente. Que, mesmo doendo, a vida nos dá uma porção de motivos para gostarmos dela. Acho que essas coisas funcionam mais ou menos como quando a gente é criança e arranca o topo do dedo na lâmina de uma gilette, apesar da nossa mãe nos avisar todos os dias que é para não mexer ali: enquanto latejar, a gente não mexe mais.
E quando eu achei que nada poderia me dar mais medo do que a capacidade que as pessoas têm de nos machucar, o Lucas ficou doente. Nunca senti tanto medo. Daquele medo de dar tremedeira, de fazer o coração parar por alguns segundos, de arrepiar os pelinhos do corpo, até nos lugares em que a gente nem sabe que tem pelinho. Pela primeira vez me passou pela cabeça que eu poderia perder as pessoas que eu mais amo no mundo, mas aquele perder de nunca mais achar. De não encontrar mais na mesa do jantar, nem na sala de casa, nem no elevador por acaso, nem na esquina, nem em lugar nenhum deste ou de qualquer outro planeta. Mas acho que a vida seria muito injusta comigo se algo do tipo acontecesse, e o Lucas ficou bom logo. E, quando olho para ele todo feliz, tentando se equilibrar na bicicleta, com aquele sorriso banguela, chego a pensar que ele nunca esteve mal e que tudo isto que aconteceu foi só para eu tentar dimensionar o tamanho do meu amor. E é impossível. 2008 foi um ano que me fez dormir sentada na porta de casa com medo de perder as pessoas.
Trabalhei o ano inteiro sob ameaça de corte e resolvi não me desesperar, pelo menos no campo profissional. Decidi levar esta questão numa boa, talvez porque a ONG seja bananeira que já deu cacho. Apesar de lá continuar, eu posso trabalhar em qualquer outro lugar e ser igualmente feliz, embora os almoços com a Aline, a Érica, o Pedrinho e o Marcel não sejam tão freqüentes. Porque eles continuarão acontecendo, já que amizade não é algo que se encerra em um só ambiente quando ela é pra valer.
Aliás, 2008 foi um ano em que optei por meus amigos e minha família em vários momentos em que isto me foi colocado em questão. Quando ambos me foram questionados pelo amor de uma só pessoa, eu decidi por eles e foi a decisão mais acertada que já fiz. Conheci muita gente legal, me reaproximei de quem não via há tempos, estreitei laços quando eles eram afrouxados pela falta de tempo puxando dos dois lados. Viajei quilômetros para rever um amigo querido e voltei correndo para torcer pelos amigos de Kung Fu em um campeonato também fora da cidade. Me dividi, me desdobrei e recebi em troca todo o carinho que alguém pode ter. Recuperei a sensação de ser uma boa amiga, uma boa mãe e uma filha.
Acho que a palavra chave de 2008 foi justamente escolha. Em 2008 eu fiz escolhas que carregarei para sempre, por mais que eu viva 100 anos. Eu escolhi não estender tanto os meus limites a ponto de não parecer mais quem eu sou. Eu escolhi não repetir erros, pelo menos enquanto alguns deles ainda latejarem. Eu escolhi meus amigos. Eu escolhi minha família. Escolhi chorar quando tiver vontade, chorar até dormir. Escolhi lutar Kung Fu até mifu. Escolhi tatuar o Lucas no meu corpo. Escolhi aprender e melhorar. Escolhi o Lucas, a Thaís e o pai do Lucas. Escolhi silenciar quando às vezes a vontade é de falar até fazer o outro sangrar. Escolhi seguir em frente. E vi quem estava à minha volta fazer a mesma coisa. Como vi o Lucas sair da cama e aprender a ler e a escrever para sempre. Como vi meus pais cuidando de mim como se eu tivesse 5 anos porque eles serão meus pais para sempre.
É por isso que 2008 é um ano que nunca vai acabar, por mais triste que tenha sido. É um ano que vou carregar junto comigo para sempre porque em todos esses anos eu nunca tive tanta vontade de viver.
O que eu desejo em 2009 para mim e para todos que lêem este blog é que a gente assuma as lições que a vida nos dá, por mais dolorosas que elas sejam. Que, se por acaso a gente cair para a Série B, tenha força para se reerguer e subir de novo. No futebol, no amor, no trabalho, na doença, tanto faz. Que a gente continue fazendo as escolhas certas. E, se a gente escolher errado, que tenha a sensibilidade de enxergar as chances para se corrigir. Porque chance de fazer direito nós temos todos os dias. Só é preciso fazer.
Feliz ano novo para todo mundo!































