Eneaotil

Entradas do Janeiro 2009

Luquinhas, o sexo e a lógica

29 Janeiro, 2009 · 38 Comentários

Lembrei de uma outra.

Terça-feira fui buscar Luquinhas na escola e voltamos conversando sobre seus novos coleguinhas de sala.

- E aí, Lu?! Está gostando dos novos amiguinhos?

- Estou sim. Ainda não arranjei nenhuma namorada nova.

- Mas foi só o segundo dia! Sossega o pito.

- Ah, mãe. Um dia eu vou arranjar 3 namoradas e elas vão gostar de mim e eu vou ficar pelado com elas.

- Putaqueopariu Lucas! Você só poderá ficar pelado com UMA namorada quando for grandão.

- Grandão quanto?

- Assim, do tamanho do seu tio! – foi a primeira coisa que eu pensei porque meu irmão tem 1,96 cm.

- Mas, mãe, o titio já ficou pelado com a namorada dele?

Ai, meu deus.

- Lucas, não sei.

- Pergunta para ele, mãe.

- Lucas, seu tio está no Rio de Janeiro.

- Liga pra ele, mãe. Liga! Liga! Liga!

- Pára com isso.

- Pergunta! Pergunta! Pergunta!

Meu irmão namora há 5 anos e eu sabia a resposta, mas lá fui eu mandar um SMS para o Digo.

“Digão, o Lucas quer saber se você já ficou pelado com sua namorada”

“QUÊ?”

- Mãe, o que foi que ele respondeu????????

- Ficou indignado, Lucas. Mas não respondeu nem que sim nem que não.

- Pergunta de novo! PERGUNTA! PERGUNTA!

Acho que ele até babava.

“É isso mesmo que você leu, Digo”

“Mas ele perguntou isto do nada?”

- E agora? O que ele respondeu???

- Ainda nada, Lucas. Vou perguntar pra ele se sim ou se não.

- Ai, por favor, SIM, SIM, SIM, SIM – e juro que ele fez figuinhas, torcendo para que meu irmão não fosse mais casto.

Então eu mandei uma outra mensagem explicando tudo e meu irmão só respondeu:

“Hahahahahahahahahahaha”

Mostrei para o Lucas e ele disse:

- Olha, mãe. Se o meu tio não quer responder eu só posso concluir que ele já ficou pelado mais de 20 vezes.

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Chantagista

29 Janeiro, 2009 · 10 Comentários

Lucas me pediu para ficar com ele na cama até dormir.

- Filho, você é um menino grande. Dorme sozinho desde piquitico. Não começa com essas frescuras, hein?

- Que droga! Eu queria uma mãe que ficasse comigo o tempo todo.

- Mas, Lucas, já pensou que chato vai ser quando você crescer, começar a namorar e eu ficar ali, grudadona do seu lado?

- Ah, mãe. Eu deixo. Por exemplo, quando eu quiser namorar no seu quarto, você pode ficar lá…

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Creuzado

26 Janeiro, 2009 · 26 Comentários

Hoje o Lucas voltou para a escola e começou sua segunda série do Ensino Fundamental. Não chorou nem uma lágrima e arrisco dizer que sequer sentiu vontade. Foi todo seguro para dentro da sala, sentou junto com novos amiguinhos, reviu outros e praticamente se esqueceu de dar tchau para mim.

Então eu fiquei tentando lembrar da minha segunda série e comecei a ter calafrios. O ano era 1990 e eu troquei o ensino particular pelo público. Fui do pequeno Colégio São Domingos para a grande Escola Municipal de Primeiro Grau Tenente José Maria Pinto Duarte. Ficava (fica, porque ela ainda existe) no alto de um morro e as janelas davam para a barulhenta Avenida Sumaré. As paredes eram todas pichadas e atrás da escola crescia um matagal gigante, onde espécies peçonhentas se proliferavam para, posteriormente, grudar nos nossos cabelos, na hora da fila.

Eu estudava de tarde, porque de manhã eram as classes de 5ª à 8ª série. E era de manhã que acontecia o batismo feito pelos alunos da 8ª nos pré-adolescentes da 5ª. Um tipo de rito de passagem, que marcava o momento em que a gente deixava a infância e já podia ser espancado por gente mais velha durante a hora do recreio. Quem me contou isso foi meu irmão, quando ele fez a 5ª série e passou um ano todinho se escondendo no banheiro durante o intervalo das aulas.

O máximo da agressão que acontecia de tarde entre os alunos mais novinhos era guerra de pão de mel, distribuído de merenda pela Prefeitura. E o pão de mel era tão duro, mas tão duro, que eu tenho certeza que a diretoria da escola abafou todos os casos de traumatismo craniano que ocorreram ao longo dos meus dois anos no Tenente. Graças à Virgem Santíssima, mamãe me tirou destea inferno escola quando terminei a 4ª série.

**

Mas eu não descobri tudo isto no primeiro dia. No primeiro dia de Tenente, na 2ª série, eu descobri que teria aula com a Professora Creuza. Isto mesmo, CREU-ZA. No próprio nome da minha professora já tinha erro de português. Porque, me desculpem as Creuzas, é a mesma coisa que falar probrema.

A Professora Creuza tinha os dentes separados, as unhas compridíssimas e usava um batom vermelho borrado. Era loira tingida do cabelo palha de aço e em seus dedos cabia cerca de 175 anéis pendurados. E a bicha era mais brava que o capeta na andropausa. Se eu precisasse contratar alguém para assustar uma casa com dois cômodos, certamente eu começaria minha pesquisa de preço pela Professora Creuza.

Eu vim para o Tenente toda catita, pequenininha, com minhas canelas finas e minha franjinha reta, falando baixinho e com um nó na garganta. Eu tinha tido na primeira série aulas de educação musical, ensino religioso e ciências com a Tia Marta. Aí meus pais me colocaram para estudar com o demo.

- Tia Creuza, posso ir ao banheiro?
- Eu já andei de calcinha na sua casa? Já empurrei carroça com a sua mãe? Então, puta que pariu, não sou sua tia. Me chama de PRO-FES-SO-RA.

Nem sei se foi nesse momento em que mijei nas calças na sala de aula.

**

O caso é que com o passar o tempo eu fui me transformando nesse monstro e a Professora Creuza começou a gostar de mim. Não sei se era cumplicidade por causa de nossos nomes, ou se ela realmente admirava meu desempenho. Enfim, eu virei o xodó da Professora Creuza e há quem diga que ela gostaria que eu a chamasse de tia.

Até que em um certo dia, sei lá porque cargas d’água, eu esqueci de fazer a lição. Era uma redação simples, mas vagabundiei e não fiz. A professora sempre chamava meia dúzia para ler a redação, por isto todos tinham que fazer porque nunca sabiam quando seriam chamados.

Eu respirei fundo e comecei a rezar. Se eu tivesse muita sorte não seria escolhida justo naquele dia. Só que eu não tenho nem pouca sorte, que dirá muita. E adivinha qual foi o primeiro nome que a Professora Creuza chamou?

- Leonor!

Lógico que foi o meu.

O fato é que desde pequena eu sei contar histórias e naquela tarde abri meu caderno, olhei para a página em branco e inventei uma historinha emocionante sobre o Lumbo: um elefantinho orelhudo que era tirado dos braços da mãe para fazer um número de circo e um dia conseguiu voar.

Causei uma comoção geral na sala de aula e chegou até a escorrer uma lágrima de sangue dos olhos de Creuza. Todo mundo aplaudiu de pé.

- Muito bom, Leonor. Agora traga a redação para mim, sim?
- O que?
- Traga a redação que você escreveu aqui na minha mesa.

Me fodi.

- Não pode ser depois do recreio?
- Não. Qual é o problema de me entregar agora?
- É que… é que… eu não fiz.

Chego a acreditar que a Professora Creuza já sabia que eu não tinha feito a redação, mas quis ver até onde eu iria aquele dia. E eu fui até o “e eles viveram felizes para sempre”. E perdi o direito de descer para o recreio, porque tive que inventar uma nova história, desta vez no papel.

Pensando melhor em tudo isto, nos pães de mel, no batismo, nos bichos peçonhentos e no Tenente, acho que vou procurar a Professora Creuza para agradecer por ela não ter me deixado descer àquele dia. No fim das contas, ela foi bem mais que uma tia.

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Lucas pela primeira vez no avião

21 Janeiro, 2009 · 39 Comentários

Eu não fui, mas estava lá.

**

Observações gerais:

  • O empolgado que filmou o Lucas foi meu irmão. Valeu, Digo, por compartilhar esse momento comigo e com mais tanta gente que ama o Luquinhas.
  • O vídeo é grande, tem mais de 10 minutos.

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Minha vida na rodoviária

19 Janeiro, 2009 · 22 Comentários

Aqui em São Paulo, madrugada de segunda são as horas que antecedem a manhã de segunda. Nem a reforma ortográfica conseguiu mudar essa definição.

Mas parece que em Olímpia, no interior bem lá para cima, beeeeeeeeeem depois do Trópico de Capricórnio, de onde vem a família de minha mãe, as coisas não são assim.

- Lelê, tem como você me buscar na rodoviária Tietê na madrugada se segunda-feira? Meu ônibus chega às 6h30 da manhã.

- Putaquel Claro!

**

Xinguei até a 5ª geração da família da minha mãe quando ela me acordou hoje, às 5h15. Me arrumei rápido e fui para a rodoviária. Ainda estava totalmente de noite, ou seja, madrugada de segunda-feira. Não tinha erro.

Aí deu 6h20 e encostou um ônibus da mesma empresa que traria minha prima. E nada da mulher descer.

- Olha lá a Márcia, Lelê!

- Nada a ver, mãe.

E não tinha nada a ver mesmo. Minha prima é baixa, magra, branca, do cabelo preto liso. E a mulher confundida tinha 1,80m, 160kg, era negra, do cabelo crespo loiro. Mas era realmente muito cedo e mamãe, além do sono, estava tomada pela esperança de sair dali o mais rápido possível.

**

A esperança da mamãe se evaporou às 7h30, quando ela decidiu, preocupadíssima, perguntar no guichê de informações o que tinha acontecido com o ônibus. Dez minutos depois ela voltou:

- E aí, mãe?

- E aí que eles disseram que o ônibus já deve ter chegado. Aprontei um esparrame. Ninguém sabe dar uma informação.

A gente imaginou a Márcia completamente perdida em São Paulo, com a filha pequena a tira-colo, chorando, desesperada sem saber chegar na minha casa. Depois de dois anos, desmemoriada e vivendo como mendiga pelas ruas da cidade grande, ela pediria ajuda ao “De volta para minha terra”, do Programa do Gugu.

**

- Já sei, mãe. Vou ligar para o papai passar o telefone celular dela lá de Olímpia. Quem sabe ela não atende?

**

Tu…Tu…Tu…Tu…

- Alô?

- Alô, Márcia?

- Oi, Lelê!

Não tinha sirene de ambulância, gritaria, choradeira, helicóptero de resgate. Nenhum barulho no fundo.

- Peloamordedeus me fala que seu ônibus caiu em uma ribanceira! Onde você está?

- Em Olímpia, ué.

- Como “ué”? Não era hoje que você vinha?

- Não, é só amanhã às 6h30 da manhã.

- Ah, vá se foder! Putz.

**

Ou seja, amanhã vou ter que acordar às 5h15 de novo. Eu sei que muita gente vai dizer “por que você não diz para ela pegar um metrô?” e a resposta é uma só: vai dar mais trabalho mudar de sobrenome daqui a dois anos, depois de vê-la no  Gugu.

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O leitor 300.000

15 Janeiro, 2009 · 20 Comentários

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Dessa vez, a promoção do leitor 300.000 teve vencedor. O prêmio que estava acumulado (DVD + livro) foi arrematado por Jaime Custódio da Luz Junior, leitor do blog desde junho de 2008.

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Foto meramente ilustrativa

Na época, a namorada de Jaime ganhou uma viagem para Buenos Aires com direito a um acompanhante. Depois de muita chantagem emocional muito insistir com a namorada, o rapaz ganhou o direito de ir junto para a capital Argentina e começou a procurar dicas de sobrevivência. “Até que um dia digitei no google ‘dicas de Buenos Aires’ e a minha vida mudou completamente (risca) e o seu blog era um dos primeiros no resultado da pesquisa. Li tudo o que você escreveu antes de viajar e quando voltei li novamente. As coisas que vi e que vivenciei em Buenos Aires começaram a fazer mais sentido. Foi a partir daí que comecei a acessar o Eneaotil regularmente”, ele conta.

Jaime mora em Tangamandápio Blumenau, Santa Catarina (me fodi para enviar os presentes), tem 24 anos, é torcedor do São Paulo e me proibiu de fazer qualquer piada relacionada com sua idade e seu time. É formado em administração de empresas e trabalha no planejamento de uma grande empresa do ramo do vestuário, cuja marca não será aqui divulgada porque não embolsei nenhum dim dim esse blog não faz post pago. No mês que vem, o jovem empreendedor iniciará sua especialização em logística e negócios internacionais.

**

Jaime por Jaime:

“Meu nome é Jaime Custódio da Luz Jr., filho de Jaime Custódio da Luz e Rosa Custódio da Luz. Tenho um irmão e uma irmã, sou o caçula da casa, o único que ainda mora com os pais. Sou padrinho de duas meninas lindíssimas (Samara e Nicole), ambas com 10 meses de idade. A primeira é filha da minha irmã e a outra do meu irmão.

Tenho três cachorros, um papagaio, enrolo namoro há 4 anos a garota mais linda do mundo. Sou coordenador (e agora candidato a vice-presidente) da Sociedade Recreativa Cultural e Beneficente Equipe @rromba (equipe de gincana da cidade de Blumenau). Trata-se de um trabalho socialculturalrecreativodivertidoparacaralho que fazemos em nossa cidade. Só para você ter uma noção, cada equipe é composta por, em média, 100 integrantes e na cidade são cerca de 15 equipes. Eles se envolvem e beneficiam em torno de 1000 pessoas, direta e indiretamente.

Moro no mesmo lugar desde que nasci. O meu orkut diz que tenho 600 e poucos amigos, mas se for para contar os amigos mesmo não chegam a cinco. Sou um cara que nem sempre está de bom humor, mas os dias de bom humor prevalecem. Amo minha família, faço o que for preciso para ajudar meus pais e meus irmãos.

Tenho um Gol bola 97 que comprei do meu pai, não sou pobre, muito menos rico. Trabalho há 5 anos e meio na mesma empresa (aliás, a primeira que me deu oportunidade). Neste ano vou para São Paulo ver um jogo do São Paulo na Libertadores.

Pretendo casar daqui a uns 10 anos, mas antes disso tenho que fazer a minha especialização, mestrado, doutorado, morar no exterior, voltar e abrir a minha empresa. Daí, quem sabe?, eu pense em noivar para posteriormente morrer casar.”

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Jaime receberá a ajuda humanitária os presentes em Blumenau muito em breve.

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Sobre como a gente descobre que o filho não tem nadado pelado no Rio de Janeiro

15 Janeiro, 2009 · 9 Comentários

Pelo telefone:

- E aí, Luquinhas? Vai voltar negão de tanto ir na praia?

- Ah, mãe. Só a minha bunda que não.

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Um intervalo para os nossos comerciais

9 Janeiro, 2009 · 19 Comentários

Duas coisas bem rapidinhas:

O site dos amigos Borbs, Tayra e Wandeko está promovendo o Tchananã Awards 2008 e o Eneaotil foi um dos indicados como melhor blog do ano. Se você não estiver fazendo nada, vai lá votar. Não dói, é de graça e não precisa de cadastro.

A outra coisa é que está se aproximando a promoção do leitor 300.000. Então quem me enviar o printscreen do contador, como explica esse post, ganhará os presentes surpresas. No plural, porque o prêmio está acumulado.

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A primeira vez a gente nunca esquece

9 Janeiro, 2009 · 18 Comentários

Na primeira vez que voei de avião e vi o céu bem de pertinho, eu já tinha um filho. E meu filho já andava, falava e já tinha tomado sete pontos no supercílio. O Brasil já era pentacampeão mundial de futebol, o Corinthians tri do brasileirão e primeiro campeão do mundo reconhecido pela FIFA (não discutam).  O Neto já tinha parado de jogar há bastante tempo e até já tinha emagrecido. O homem havia chegado na lua há mais de 30 anos (ou não), um aparelho de DVD já custava menos de R$ 200 e o videocassete estava devidamente aposentado (não para mim, que ainda tenho uma coleção de fitas antigas de vídeo).

Quando eu viajei pela primeira vez de avião, já vivíamos em pleno século XXI e tínhamos sobrevivido ao bug do milênio. Não existia mais Transbrasil e pouco tempo depois a Varig seria comprada pela Gol. Já se comemorava o centenário da Dercy, eu tinha quase 22 anos e trabalhava com jornalismo. Ou seja, parece que foi ontem que eu viajei pela primeira vez de avião. E foi quase ontem mesmo.

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Por isso que proporcionar a primeira viagem de avião para o Luquinhas aos 7 anos me encheu de orgulho. Eu sei que para uma criança voar nos anos 80 era preciso raspar toda a conta poupança e ainda vender a mobília da casa. Hoje, não precisei desembolsar nem R$ 80, incluindo a taxa de embarque. Mas me encheu de orgulho assim mesmo, dá licença?

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Começou assim: meu irmão, que mora no Rio, veio passar as festas de fim de ano aqui em casa. Ele voltaria para o Rio de Janeiro no dia 5 e depois, lá pelo dia 8, meus pais levariam o Luquinhas para passar 10 dias. E viajariam de ônibus, como fazem todas as férias.

- Puta que pariu! A passagem de ônibus está custando R$ 88 para o Rio de Janeiro – falou Dona Rose em uma manhã de sol.

Aí lá pelo dia 2, o Lucas acordou com uma caraminhola na cabeça:

- Mãe, me deixa ir com o titio antes para o Rio?

- Lucas, seu tio já comprou passagem de avião e nessa altura do campeonato já não tem mais passagem promocional para o dia 5.

- Não custa dar uma olhadinha, né?

E não custava. Aí meu irmão entrou na internet e viu que no mesmo vôo ainda tinha uma porção de lugares vagos. E que a passagem para criança custava R$ 56. Com a taxa de embarque R$ 76, ou algo do tipo. Ainda mais barato que o ônibus. E a poltrona ao lado do meu irmão estava vaga. Bom, uma coisa leva à outra e pimba!

- Lucas, você vai viajar de avião.

E foi assim que toda a vizinhança acordou cedinho naquela manhã ensolarada das férias.

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A partir desse dia, o Lucas não falou de outra coisa. Perguntava para todo mundo se já tinha andado de avião porque ele ia andar pela primeira vez. No mercado, na piscina, no açougue, no shopping, na família. Ninguém escapou das indagações do Lucas. Ele teve até um papo com o pai dele, de homem para homem:

- Pai, me fale sobre aviões.

- Mas o que você quer saber?

- Não sei, vai me falando as coisas. Tipo comida, sobremesa. Você é mais experiente.

E as perguntas não paravam nunca:

- Será que terão muitos amiguinhos para eu brincar?

- Que roupa eu devo ir?

- Quantos dias vou ficar dentro do avião?

E nem tive coragem para dizer que eram só 30 minutos.

**

No dia anterior à viagem, Luquinhas queria dormir às sete da noite para o tempo passar mais rápido, embora ele só fosse viajar às sete da noite do dia seguinte.

Separou todo o seu “kit de sobrevivência em aviões”: máquina fotográfica, um papel e uma caneta para “escrever tudo o que acontecer dentro do avião”, DVD do Kung Fu Panda e uma lupa. Colocou tudo na mochila e já sabia o que era bagagem de mão.

Antes de dormir, ele me chamou no quarto e disse:

- Mãe, me fale mais sobre aviões.

Putaquel.

- Do que mais você precisa saber?

- Assim, eu sei que para viagens mais longas; tipo Estados Unidos, Nova Iorque, Santos; os aviões tem primeira classe…

- Lucas, dá para ir a pé para Santos.

- Tá, tá. Continuando, eu queria saber se na primeira classe existe espaço para fazer algumas coisas…

- Que tipo de coisas?

- Tipo tocar piano.

Alguém sabe o telefone de um bom psiquiatra infantil?

**

Aí chegou o grande dia: segunda-feira, dia 5 de janeiro de 2009, primeira viagem de avião do Luquinhas. Eu fui trabalhar e prometi que voltaria lá pelas 16h para levá-lo ao aeroporto. Passei o dia com o coração apertado e acho que descobri que não tenho medo de voar, mas tenho medo de que meu filho voe.

- É só por meia horinha, Lelê – falou o meu estagiário.

- Meia horinha, mas é alto do mesmo jeito.

Quando cheguei em casa, ele tinha passado até perfume. Estava com o topetinho armado, com a calça do Batman e uma jaquetinha jeans. Então eu derreti e escondi todo o meu medo. Ele merecia aquilo.

**

Aqui cabe um parêntese muito importante: se for possível, proporcione isso para sua criança quando ela ainda é pequenina porque ninguém dentro do avião achará estranho reações do tipo apertar todos os botões, espremer a cara na janelinha o tempo todo, fotografar de cinco em cinco minutos as nuvens do céu, chamar a aeromoça 100 vezes para pedir água, querer conhecer o banheiro e ficar preso no cinto de segurança na hora que todo mundo está desembarcando. Foi bem constrangedor tudo isso para mim aos 22 anos.

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A primeira coisa que você faz quando chega ao aeroporto é mandar o seu filho parar de gritar. Depois, vai enfrentar a fila do check-in. Enquanto eu e meu irmão retirávamos as passagens, o Lucas começou a conversar com um outro cara que estava despachando as bagagens:

- E aí? Você já andou de avião? – meu filho perguntou, embora esse não seja o tipo de pergunta que se faz para um cara que está despachando as bagagens.

- Já sim – respondeu o homem.

- Ah tá. Eu vou viajar de avião hoje – Luquinhas resolveu situar o cara, embora esse não seja o tipo de informação que você dá para uma pessoa na fila do check-in.

- Para onde você vai?

- Vou para o Rio de Janeiro. Sobrevoar Copacabana, ver a praia, a mulherada de biquíni…

- Hahahaha. Eu sou do Rio de Janeiro, mas vou mais longe que você. Vou para Olinda.

- Ô, tio! Por que só eu não vou para esses lugares legais?

**

Na hora de ir para a sala de embarque, tive que me despedir. O Lucas fez daquelas cenas de voltar correndo para me abraçar quando estava chegando no portão de embarque e eu respirei fundo para não chorar, porque eu não sou mãe bundona, mas é difícil saber que ele ficará longe por mais de 10 dias.

Paguei o estacionamento do aeroporto, entrei no carro e liguei o rádio:

- Um avião perdeu a asa e…

E não sei o que aconteceu porque eu desliguei o rádio. E também bati o carro na pilastra no estacionamento, mas aí é outra história.

**

O Luquinhas chegou bem e amou a viagem. Fez amizade com as aeromoças, comeu nhoque oferecido pela GOL (arght!) e conheceu a cabine do piloto, coisa que eu ainda não fiz. Mas na minha próxima viagem, pedirei para a aeromoça me levar lá, nem que eu tenha que mentir a idade.

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Rãs e outras pererecas

9 Janeiro, 2009 · 12 Comentários

Estava eu trocando uma idéia com o pai do Lucas:

- Nossa, Ricardo, ontem comi uma porção de rã deliciosa.

- Que nojo! ECA! Sai fora!

- Por que? Rã é uma delícia. Tem gosto de frango.

- Dizem que tem gosto de peixe.

- Não, é porque as pessoas costumam colocar um limãozinho nela e o limão remete ao peixe. Mas parece mais frango.

- Olha, eu costumo colocar limão na minha coca-cola e não sinto gosto de peixe…

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7 Janeiro, 2009 · 9 Comentários

Tô moribunda. Morrendo de saudade do meu filho que está no Rio de Janeiro enquanto eu fico trabalhando. Embarcou segunda (e vou escrever ainda sobre sua primeira experiência aérea) deixando meu coração apertadinho. E eu já sei como vai ser: nos 3 primeiros dias perderei a vontade de viver. Depois ficarei 7 dias aproveitando a vida loucamente e lá pelo décimo dia estarei terrivelmente sensível. Chorando com criança artista na TV, mensagem de paz da Ana Maria Braga, casais que se formam em programa de namoro. Beijomeligaapartirdesextaatéquintaquevem.

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Preconceito classe média

5 Janeiro, 2009 · 44 Comentários

Parece que antes de construírem um shopping a cem metros da minha casa fizeram uma pesquisa sócio-econômica pelo bairro da Pompéia e concluíram que os moradores do bairro são cheios do dinheiro. Nós, pompeienses, fomos considerados classe média alta, emergentes, seqüestráveis, bons partidos. E aí resolveram erguer um shopping de alto padrão, com Empório Armani, Victor Hugo e Café Suplicy.

É bem verdade que ali mais para os lados de cima, onde os pompeienses dizem que são moradores das Perdizes, estão subindo edifícios com apartamentos no valor de um milhão de reais. Daqueles de estilo mediterrâneo, com segurança armado na porta e entradas social para moradores e visitantes; e de serviço para babás e secretárias do lar, como eles costumam chamar suas diaristas nas entrevistas para o Fantástico.

É bem verdade também que a varanda desses novos apartamentos é quase do tamanho do meu todinho. E que ninguém, na hora de fazer essa pesquisa, bateu lá em casa para saber quanto é que eu ganho e quanto é que meu pai ganharia se estivesse empregado. Até porque se a pesquisa tivesse sido baseada em pompeienses como eu, o Grupo Zaffari teria aberto um camelódromo.

Enfim, não escrevo agora para reclamar miséria, pelo contrário. Vou ao shopping novo quase diariamente tomar um cafezinho, mas na Casa do Pão de Queijo, que fique claro. Não que seja melhor do que o tal do Suplicy, mas é tudo o que o jornalismo pode comprar. Aquele é o quintal da minha casa, com umas árvores e muita gente artificial, com supermercado que funciona até a meia noite, com bebida expressa, com porcaria para comer, com cinema de arte e blockbuster, com mercadorias a preços exorbitantes que eu nunca vou conseguir comprar. Adoro.

E como lá é quintal de casa e eu saio no quintal de pijama para colocar o lixo para fora, eu costumo andar por lá um pouco desajeitada. Não que eu exiba pelos corredores a minha camiseta do Café Seleto que eu uso para dormir, mas eu uso meus chinelos de pedreiro, meus shorts e outras camisetas furadas no Bourbon.

**

No sábado eu caprichei um pouco mais: vesti uma saia jeans, uma camiseta branca e coloquei minhas novas havaianas. Meu irmão, que foi comigo ao shopping, também estava de chinelo, calça jeans, camisa e um chapéu panamá. Era de manhã ainda, tínhamos ido ao mercado e depois resolvemos perambular pelos corredores do Bourbon, olhar algumas vitrines e sonhar com um 2009 financeiramente melhor.

Quando passamos na frente do Espaço Santa Helena, uma grande loja de cama/mesa/banho e eletrodomésticos (tipo uma Camicado ainda mais metida a besta), decidimos entrar porque tanto eu, quanto meu irmão adoramos cozinhar. Ainda enquanto olhávamos a vitrine fomos abordados por uma vendedora, com seus cabelos loiros penteados e amarrados em um rabo-de-cavalo perfeito e seu uniforme sem nenhum furinho, nenhum amarrotado, engomado, intacto.

- Pois não? – perguntou a vendedora como se estivesse olhando para um monte de merda de mendigo pisada.

- Só estamos dando uma olhadinha – meu irmão respondeu educadamente.

E ela continuou ao nosso lado, examinando cada um de nossos movimentos dentro da loja. Deveria vir escrito no Manual do Bom Vendedor que nenhum consumidor, possível ou efetivo, gosta de ser abordado dentro de uma loja, a não ser que realmente esteja precisando de ajuda. Nesse caso, o próprio consumidor costuma pedir para o vendedor a informação ou a mercadoria.

“Acho que ela não vai sair daqui enquanto não pedirmos alguma informação”, pensei. Então eu resolvi quebrar o climão:

- Que que rola nesse “Espaço Gourmet” aqui atrás? São aulas de culinária? – indaguei à vendedora.

- Sim – respondeu-me com a mesma cara anterior.

- Olha, que legal! Vou avisar para a minha mãe. Tem toda a semana?

- Lógico que não – falou a mulher em um tom não amigável, como se dissesse “Sua pobre! Gente rica nem cozinha toda semana”.

Como eu ainda estava embalada por um espírito natalino, respirei fundo e não quebrei nenhuma das cem panelas da loja que estavam bem diante das minhas poderosas mãos de Bruce Lee. Eu e meu irmão agradecemos a informação, nos viramos e continuamos a olhar tudo a nossa volta.

- Uau, que fogão bonito!

- Essa linha de inox é espetacular.

- Porra, essa mulher continua nos seguindo?

E onde quer que íamos, lá estava o toc-toc-toc de seu salto atrás de nós.

**

Foi quando um de nós dois decidiu verbalizar o que estava acontecendo:

- Meu Deus, a vendedora acha que a gente vai roubar a loja.

- Não é possível!

Mas era isso mesmo. Puro preconceito porque estávamos arrastando silenciosamente nossos chinelos dentro daquela loja. Embora a tal da moça não soubesse que sou jornalista e que não tinha um tostão furado naquele momento, ela não nos queria ali simplesmente porque eu não usava um vestido longo e meu irmão não estava de traje esporte fino.

“Não devem ser do bairro”, ela deve ter pensado. Mas eu sou do bairro! “Deve ganhar uma miséria”, talvez ela tenha cogitado. E eu ganho mais do que ela, com toda a certeza do mundo. “Não deve nem ter o ensino fundamental completo”, pode ser que ela tenha achado também. Só que eu sou formada no terceiro grau e ela, muito provavelmente, não tenha feito faculdade de vendedora.

E se eu não fosse do bairro? E se eu ganhasse uma miséria? Ou nem ganhasse nada? E se eu não tivesse nem o ensino fundamental completo?

- E daí, sua vaca?

**

Não, gente, eu não falei isso, só pensei. E cogitei mil vinganças junto com o meu irmão.

A primeira delas seria naquele momento tirar um bolo de notas de cem reais do bolso e comprar uma máquina de café expresso de 5 paus, mas essa vingança teria alguns contras: ninguém tinha sequer uma nota azul, que dirá um bolo. O outro contra é que deixaríamos a moça com o queixo no chão, mas feliz no fim do mês porque ela seria comissionada.

A vingança de número dois seria tirar uma nota de dois reais do bolso (e isso a gente tinha), jogá-la no chão e dizer:

- Obrigada pelas informações. Tire a sua comissão daí, sim?

Mas a gente não queria humilhar a moça da mesma maneira que estávamos sendo humilhados.

A terceira vingança foi inspirada no filme O Feitiço do Tempo, que vimos no dia anterior a tudo isto. Eu e meu irmão entraríamos na loja novamente e perguntaríamos as mesmas coisas que havíamos perguntado há cinco minutos.

- Que que rola nesse “Espaço Gourmet” aqui atrás? São aulas de culinária?

- Uau, que fogão bonito!

- Essa linha de inox é espetacular.

E na hora que ela perdesse a paciência e nos mandasse tomar no centro social e urbano do toba, nós chamaríamos o gerente:

- Olha, essa moça está dizendo palavras de baixo calão e não sabemos porquê. Logo hoje que eu gastaria todo o superávit da minha empresa aqui nesta loja. Microsoft Google. Já ouviu falar?

Isso, associado ao bolo de dinheiro da vingança número um, seria perfeito, mas certamente eu e meu irmão rolaríamos de rir ao entrar na loja e já não daria certo.

A quarta vingança era chegar em casa, colocar um vestido fino Versace, fazer meu irmão vestir um terno Armani, pedir peloamordedeus para minha mãe se vestir toda de branco e se comportar como uma babá e repartir o cabelo do Lucas ao meio.

Iríamos até a loja, pediríamos para sermos atendidos pela loira do preconceito e rabo-de-cavalo impecáveis e ela nos mostraria a loja todinha, enquanto o Lucas correria por todo o Espaço Santa Helena. Aí, depois de duas horas, compraríamos um prendedor de guardanapo de cinco reais.

Isso, associado à frase da vingança de número dois, também seria perfeito. Mas eu não tenho um Versace, nem meu irmão tem um Armani.

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Então a gente saiu da loja. Mas cheguei em casa e prometi para o Lucas: vou deixá-lo ficar no Espaço Santa Helena por meia horinha sem tomar nenhuma bronca. E sem cabelo dividido, nem nada. Só chupando um sorvete de massa.

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Esse post não foi patrocinado por nenhuma das marcas aqui citadas. Nem pelo Espaço Santa Helena.

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