
Da outra vez que escrevi sobre Buenos Aires, fiz uma espécie de diário e separei as histórias por dia: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e trálálá. O que ninguém sabe é que esse esquema acabou não dando certo nem daquela vez porque as histórias eram inúmeras e eu, por exemplo, deixei de descrever a minha ida ao Uruguai, o meu passeio de bicicleta por toda a costa de Colônia do Sacramento banhada pelo Rio da Prata e outros acontecimentos incríveis que vivi em 2007. E olha que daquela vez fiquei apenas oito dias. Nestas férias, foram 12 dias e escrever um diário seria impossível. Assim, pensei em outro esquema para contar as histórias de lá e… não cheguei a nenhuma conclusão.
Ok, acho que vou escrever por capítulos.
1º Capítulo: La Plata que é lo bronce, pero vale oro
- Tarjeta o efectivo? – me perguntou o caixa do supermercado.
- No – eu respondi.
- Lelê, ele perguntou se vai pagar com cartão ou dinheiro. Você não pode responder simplesmente “não” – me alertou o Mandioca.
- Então, sí.
Tudo bem, eu não sou tão boa assim no espanhol, mas não se apeguem aos detalhes. O que interessa aqui é a maneira como o caixa do supermercado chamou o dinheiro: “efectivo”. Jamais eu conseguiria entender que ele estava se referindo ao dim dim, porque desde quando o peso argentino é efetivo, Joelmir Beting?
Chamasse de dinero, moneda, plata, metálico, mas efetivo é forçar a barra.

Lembra que você acreditava que era mais barato ir para Buenos Aires do que ir para o nordeste brasileiro? E saía dizendo isso por aí com toda a convicção do mundo? Eu me lembro. Em 2007, eu engrossava o coro-da-classe-média-chavão:
- Ah, mas ir para Buenos Aires é muuuuuuuuuuito mais barato do que ir para o nordeste brasileiro!
Mesmo nunca tendo ido ao nordeste brasileiro.
Porque eu realmente acreditava que não era possível pagar 9 pesos (ou cerca de 7 reais) em um sanduíche de filé mignon lá em Fortaleza. E em Buenos Aires era, juro!
Mas as coisas mudaram na capital portenha. Agora eu saio dizendo por aí que seguramente Buenos Aires é a cidade mais cara da América Latina, mesmo sendo a Argentina o único país da América Latina que eu conheço (ok, conheci o Uruguai, mas passei apenas um dia lá, então não conta, né?). Ou será que para tomar um cafezinho no Chile a gente também tem que desembolsar cerca de 7 reais?
É isto mesmo, não estou exagerando. Quando Mandioca, Wandeko, Alê e eu abrimos o cardápio naquela confeitaria da Recoleta quase caímos para trás. Tudo bem que o lugar parecia o saguão do Copacabana Palace, cheio de empresários ricos recém saídos de uma partida de golf, acompanhados de suas senhoras louras lotadas de botox e bronzeadas artificialmente, mas o café de 9 pesos era a única coisa que podíamos pagar naquele lugar.
Também é bem verdade que o café vem cheio de bugigangas. Cada um acompanha dois petit fours, uma dose de água com gás e uma dose de suco de laranja passada, mas não dá para pedir só o café e pagar, por exemplo, 5 pesos. Que, fazendo rapidamente a conversão, ainda estará caro (cerca de 3 reais).
Sabe o que é o pior de tudo? O café de lá ainda é horroroso! Aguado, gorduroso, fraco. Imagina só quanto deve custar um café bom?

Parece que inflacionar os preços foi a maneira que Buenos Aires descobriu para sair da crise. Não a crise mundial que nos atinge agora, mas aquela velha crise que começou há 4 ou 5 anos na Argentina e durou um bom tempo. Não sei dizer se ainda dura. O que sei é que de dois anos para cá, os preços em Buenos Aires mudaram completamente.
Se antes eu pagava 8 pesos para beber uma Quilmes de um litro em algum bar, hoje não sai por menos de 15 pesos (isso dá cerca de 11 reais). Para comer uma boa carne (sem nenhum acompanhamento) com uma garrafa ¾ de vinho em um lugar bacana, mas não muito fino, é preciso desembolsar uns 70 pesos.
Em uma conversa com o Martín, namorado da Lígia (amiga brasileira que largou tudo para viver em Buenos Aires depois de se apaixonar por lá), ele me disse que a cidade já não é mais para os argentinos, mas para os turistas. Quem é de lá não consegue acompanhar esse ritmo inflacionário porque os salários não sobem na mesma proporção. É o que geralmente acontece quando uma cidade é voltada totalmente para o turismo.
Mal comparando, isto também aconteceu com Olímpia, cidade do interior de São Paulo onde está a minha família materna. Acontece que há uns bons anos algum caipira maluco acreditava que embaixo das terras de Olímpia tinha um lençol de petróleo e resolveu cavar uns buracos. A única coisa que encontrou foi água quente. Muito quente.
Então outro maluco achou que seria legal demais fazer um clube de água quente em uma terra onde as temperaturas chegam a 40°. E deu certo! Foi assim que surgiu o Thermas dos Laranjais e foi assim também que Olímpia virou a “Caldas Novas” de São Paulo.
Há uns três anos, quando recebemos uma herança de uma prima falecida do papai, decidimos que compraríamos uma casa para Dona Rose e Seu Fausto passarem a velhice em Olímpia. Então visitamos uma imobiliária e adivinha? Por causa do Thermas, havia uma especulação imobiliária tão grande que uma casa de dois quartos, cheia de infiltração, na cohab de Olímpia, custava cerca de R$ 100 mil. A prima do meu pai precisaria morrer mais três vezes para comprarmos um barraco lá.
O que Olímpia tem a ver com Buenos Aires? Nada. Me perdi um pouco. Foco, Leonor, foco.
Em comparação com São Paulo, os transportes públicos continuam baratos em Buenos Aires. Aliás, parece que serviços em geral são bem mais baratos por lá. O Marcelo Barbão, amigo do Wandeko que vive na capital Argentina, estava contando que o aluguel na cidade é muito caro, mas água, luz e gás são pagos bimestralmente por cerca de 20 pesos cada um.
O metrô, apesar de bem mais barato, me lembrou São Paulo. É quente, sem ar condicionado, lotado em horário de pico. Alguns têm um banco com um carpete aveludado dos anos 80, cheio de ácaro. A passagem está custando 1,10 peso.
Os ônibus continuam velhos, caindo aos pedaços, emitindo poluentes aos baldes e deixando o ar de Buenos Aires tão pesado quanto o de São Paulo, embora a cidade seja considerada uma das mais arborizadas da América do Sul. A passagem aumentou de 0,80 pesos para 1,20 o trecho mais longo a ser percorrido. Sim, você paga por trecho. O curto sai por 1,10. Ao entrar no ônibus é preciso informar para o motorista onde você vai, colocar as moedas em uma máquina e emitir um bilhete. Esse bilhete deve ser guardado para ser mostrado caso haja uma fiscalização. É assim que eles descobrem se você mentiu ou não. Se pagar por um trajeto curto e fizer o longo, pode tomar uma multa.
As máquinas dos ônibus só aceitam moeda. Isto é importante porque se você quiser andar de ônibus só com notas não vai conseguir. É por isso que as moedas na Argentina valem ouro, apesar de terem o peso de uma titica de galinha. Elas estão em falta e tem gente que chega a vendê-las pelo dobro do valor. Uma boa dica é trocar seu dinheiro em um Burguer King. Eu comprei um lanche em um deles e recebi 9 pesos em moeda como troco. Uma verdadeira relíquia.
NOTA: Desculpo-me publicamente com nuestros hermanos porque trouxe os 9 pesos em moeda de volta na mochila, o que quer dizer que metade do patrimônio argentino está na comigo na Pompéia.

Lucas me deixou ir para Buenos Aires por 12 dias se em troca eu lhe trouxesse uma caixa do Playmobil Jurássico. É que quando eu fui para a Argentina pela primeira vez e os preços eram ridiculamente menores, eu lhe presenteei com três caixas de playmobil.
Então, quando fui me despedir do Lucas antes de ir para o aeroporto a única coisa que ele me disse foi:
- Não esquece o playmobil!
Era isso ou todos os bonequinhos do Star Wars na versão Lego. E eu rodei Buenos Aires. Entrei em todas “El Mundo del Juguete” que vi pela frente e nada. O playmobil tinha sumido das prateleiras. O Lucas todo dia pelo telefone perguntava do presente:
- Achou meus bonequinhos?
- Não, mas comprei uma camiseta do Maradona na época em que ele jogava no Boca Juniors. Original.
- Quero o playmobil ou o lego!
(…)
- Achou meus bonequinhos?
- Não, mas comprei um toy art genial no Museu de Arte Latino-Americana.
- Quero o playmobil ou o lego!
(…)
- Achou meus bonequinhos?
- Não, mas comprei os DVDs da Mafalda!
- Quero o playmobil ou o lego!
(…)
- Achou meus bonequinhos?
- Não, mas comprei um ovo de páscoa Havanna!
- Pô, mãe…
(…)
- Achou meus bonequinhos?
- Achei!
Mas era mentira. Só que se eu não tivesse dito isso, eu iria à falência. E achar o playmobil virou uma questão de honra.
Nos últimos dias, eu encontrei uma loja grande de brinquedos na Avenida Córdoba chamada Tio Mário, ou algo do tipo. Nem precisei procurar muito, havia uma prateleira lotada de playmobils de todos os tamanhos. E adivinha quanto custava o tal do Jurássico que o Lucas queria?! Quase 500 pesos! Sim, eu disse 500 pesos. Nem meu rim em uma parrillada valia 500 pesos em Buenos Aires.
Faltando dois dias para a minha volta a São Paulo eu tive uma idéia. Entrei na americanas.com e o Playmobil Jurássico estava por R$ 199, quase metade do preço da Argentina.
- Mãe, compra aí no Brasil e deixa escondido que eu entrego quando chegar.
Porque para o Lucas não faria a menor diferença um playmobil com mullets ou sem mullets. Quando eu cheguei, entreguei os quase 10 presentes que comprei para ele e a caixa do playmobil.
- Trouxe de lá da Argentina!
E o olho dele brilhou como brilharia se eu tivesse trazido o presente da 25 de março. Fosse daqui uns anos, ele teria se ligado que a caixa está todinha escrita em português.
Desde que voltei para o Brasil, estou achando tudo de graça. Dei risada quando paguei R$ 2,80 por um café (bom!!) no Bourbon. Achei baratíssimo um ovo de páscoa por R$ 28 no supermercado, já que em Buenos Aires um ovo da Nestlé pequenino custava em média 38 pesos. E é capaz de só por isso eu presentear todos os meus amigos com chocolates nesta páscoa.
Ok, 1° de abril.
Tabela de conversãopara leigos
Quando fui pela primeira vez para a Argentina, o dólar estava R$ 1,95 aqui no Brasil e lá em Buenos Aires ele valia 3,10 pesos. Desta vez, quando saímos daqui o dólar estava R$ 2,40 e poucos e lá valia 3,60 pesos. Eu, como não sou nada boa em matemática, fingi que entendi quando meus amigos disseram que era mais vantajoso levar tudo em real para lá e trocar por peso. Mas fazia sentido não pagar duas taxas de conversão de moeda.
Como chegamos em um sábado e os bancos estavam fechados, tivemos que trocar em uma casa de câmbio no shopping por uma conversão ridícula. R$ 1 era igual a 1,22 peso. Troquei o suficiente para viver durante um fim-de-semana, crente que nos bancos seria mais fácil e mais vantajoso converter real por peso. Seria, mas banco nenhum faz isso.
Na segunda de manhã, Mandioca, Wandeko e eu (o Alê ainda não tinha chegado) fomos até a Avenida Santa Fé em busca de um banco para trocar. Entramos no La Nacion, no Galicia, no Itaú (!!!) e nenhum trocava real por peso. Apenas dólares e euros, por uma cotação muito boa (quando saímos de lá, um euro valia cinco pesos). Então perguntamos em um banco onde tinha uma casa de câmbio nas imediações da Santa Fé e o caixa nos explicou que ali mesmo, na Avenida, tinha uma pequenina.
Quando a achamos, o lugar não parecia nada confiável. Uma casinha dessas em que aqui no Brasil a gente faz aposta de jogo do bicho. Mas pensamos que se o dono do banco indicou é porque o dinheiro não deveria ser falso. Troquei R$ 200 porque se por acaso fosse falso não teria perdido toda a grana e voltaríamos no dia seguinte com a polícia. O atendente não perguntou meu nome, não pediu meu RG e trocou o dinheiro por uma cotação muito boa. Nos primeiros dias, ele nos pagou 1,45 peso por R$ 1. E nos últimos dias, ele nos pagou 1,50 peso. Ah, sim. Nós voltamos lá porque o dinheiro não era falso. Todos os atendentes argentinos conferem até as notas de 2 pesos e nossas notas eram legítimas. Só no La Viruta Tango que o garçom nos devolveu uma nota de 10 pesos e disse que era falsa, mas para falar a verdade eu não vi nenhuma diferença daquela para a verdadeira. Ele ainda alertou:
- Cuidado com os taxistas!
Porque, segundo ele, essa categoria de profissional costuma passar notas falsas (aliás, os taxistas de Buenos Aires renderão um capítulo à parte). Por via das dúvidas, saí do La Viruta, entrei em um táxi e entreguei os 10 pesos, falsos ou verdadeiros. Para não quebrar a tradição.
(continua…)