Dicas de Leonor Macedo para entender Buenos Aires

Chorando no túmulo da Evita
Buenos Aires e os banheiros
Dos 36 mil banheiros que entrei para fazer as minhas necessidades portenhas, dois estavam limpos. A sujeira começa do banheiro do hotel e vai até o toilette do lugar mais sofisticado da capital Argentina. Quase todos têm a mesma aparência de um banheiro público em dia de show no Vale do Anhangabaú.
As portas também não têm trancas, o que te impede de tapar o nariz para fugir o cheiro, já que terá de dar um outro uso para a mão que estaria livre. A outra está instintivamente te apoiando na parede porque, por uma questão de sobrevivência, é melhor que você utilize a privada de pé. Duvido que alguém tenha anticorpos suficientes para sentar no vaso e sair vivo.
Outra peculiaridade, agora boa, dos banheiros femininos argentinos é a venda urgente de preservativos e absorventes. Por uma moeda de um peso na maquininha, você pode contribuir para que as únicas sujeiras do lugar sejam as de cor amarelada e marrom.
Buenos Aires e as bebidas que passarinho não bebe
É bem fácil ser um alcoólatra em Buenos Aires. No supermercado, uma garrafa de Concha Y Toro custa cerca de 6 pesos, o que equivale a uns R$ 4. Nem Sangue de Boi aqui no Brasil vale tão pouco. Aqui, a dica certa para um bom vinho é o preço: os mais caros são os melhores. Lá, basta olhar a garrafa para saber se ele é de produção local.
Embora não existam muitas opções de cerveja nacional na Argentina, só a Quilmes já vale a pena. Nos restaurantes mais caros, ela é vendida em uma garrafa três quartos, pouco maior do que as nossas aqui do Brasil. Mas em lugares de comida mais barata, é oferecida a garrafa de um litro. Um litro de Quilmes gelada só para você por cerca de 7 pesos, ou R$ 4,50. O sonho de qualquer bêbado, pode apostar.
Buenos Aires e as bebidas que só passarinho bebe
Para te salvar do mico de pedir “una cueca-cuela”, é mais comum encontrar Pepsi para tomar nos lugares. E eu juro que senti gosto quando bebi a água Eco de los Andes, a mais popular, o que não é muito agradável em um lugar onde os banheiros são do jeito que são.
O café por lá também é insuportável e não há registros de alguém que tenha conseguido adoçá-lo um dia na vida. Por isso, no café-da-manhã contente-se com as famosas medialunas (um croissant amantegado bem gostoso) ou peça uma chocolatada que, geralmente, vem com uma barrinha de chocolate para fazer um submarino.
Isso justifica a quantidade de cerveja e vinho bebida em toda viagem.
Buenos Aires, o dinheiro e o transporte público
Saímos do Brasil com um câmbio favorável: cada peso valia 0,60 centavos de real e o dólar estava a R$ 1,95. Mas como eu nunca soube muito bem matemática, comprei metade da minha grana economizada em dólar e metade em peso. A vantagem é comprar tudo em dólar e trocar o dinheiro por lá. Cada um dos dinheiros do Tio Sam vale 3 argentinos.
No aeroporto de Ezeiza, eles tentam pagar menos. Vale a pena vestir uma roupa bonita e trocar seus dólares nos suntuosos bancos do centro. Lá, um dólar pode valer $ 3,10.
Guarde todas as moedas que receber, mesmo que elas tenham aparência de titicas e pesem menos do que uma titica. Elas é que te transportarão para cima e para baixo na capital. O bilhete de metrô custa 0,70 centavos. E os ônibus você paga pelo trajeto: o mais longo custa $ 0,80.
Buenos Aires e os táxis
Comparado com os daqui que você já paga mais de R$ 4 só para entrar no carro, os táxis por lá são bem baratos. O máximo que pagamos dentro da cidade foi $ 20 (para ir do aeroporto que é fora de Buenos Aires até o centro você desembolsa $ 60), mas para ir até o bairro mais distante e com trânsito. O normal é custar $7, $8.
Mesmo assim, é bom ficar atento com os taxistas pilantras. Alguns dão voltas e voltas e voltas para um city tour. Outros, ligam o taxímetro no rádio e conforme aumentam a música fazem o contador correr.
Se, como eu, você arranhar um castellano, ou estiver acompanhado de alguém que saiba falar muito bem, converse com os motoristas, que costumam guardar as melhores histórias da cidade.
Buenos Aires e os argentinos
Acompanhada ou não, é impossível não reparar na beleza e na elegância do povo argentino. Até aquele cara do alargador de orelha parece uma pessoa de fino garbo. As mulheres são lindas, mas os homens são muito mais charmosos.
O único problema é que, a partir de uma certa idade, os argentinos perecem. As senhoras usam perfumes fedidos e desenham sobrancelhas grossas na cara com lápis azul. Nos senhores crescem bolas de pele embaixo do nariz e eles não tiram mais os pêlos da orelha. Cruzes.
Buenos Aires e o dialeto
Na primeira vez que consegui falar uma frase inteligente em castellano e sem muitos erros, algum argentino, provavelmente um taxista, soltou um “Claro!” que me fez sentir a pessoa mais idiota do mundo. Porra, eu não tinha falado nada tão óbvio assim. Aí, depois de alguns minutos e mais algumas frases, você entende que o “Claro!” deles é como um “Isso!” nosso. E passa a se sentir um brasileiro pouco menos idiota.
Se ouvir um “Che, boludo!” sinta-se realmente ofendido. Principalmente se vier acompanhado de uma mexidinha no saco. É como se o cara te chamasse de “sacudo”, mas é um pouco mais agressivo. Equivale a um “cuzão”.
Para sobreviver, a única coisa que precisa saber perguntar é “donde és lo baño?”, apesar dos banheiros imundos.
As três palavrinhas mágicas são gracias, para obrigada (o); perdon, para desculpa; e permiso, para com licença. E se quiser dar uma incrementada no “gracias”, pode dizer como todos por lá: “es muy amable, si?” Pronto. Aí você pode ser até um brasileiro que será adorado por todos os argentinos.
Buenos Aires e o mito de que argentino odeia brasileiro
É lenda mais mentirosa do que a do saci-pererê. Os argentinos adoram os brasileiros. E, principalmente, as brasileiras.
Buenos Aires e o desporto
Além da paixão pelo futebol, o argentino alimenta o gosto por outros “deportes”, como o “El Pato”. Quem explicou foi um taxista: os jogadores estão montados em cavalos e tem que pegar a bola do outro jogador adversário (nem a da esquerda, nem a da direita). Vence quem levar a bola até um ponto assinalado. Tudo isso ele explicou em castellano e acho que eu não entendi muito bem.
Buenos Aires e as carnes
A carne argentina deve ser mesmo a melhor do mundo. É macia, é saborosa e vem no tamanho certo para sua fome (o que no nosso caso, meu e do Daniel, significa pedaços monstruosos). Mas uma dica para tudo ficar ainda melhor é levar para a Argentina um saleirinho cisne na bagagem de mão. Nenhuma carne por lá é temperada, nem mesmo com sal.
Se você for tão enjoada (o) quanto eu, pode ter vontade de chorar ao abrir o cardápio ou levar mais de uma hora para escolher sua carne, visto que você nunca ouviu falar em pícaras do que está escrito ali. Colita de cuadril é maminha. Tapa de cuadril é picanha (raro, não se acha em lugar nenhum). Lomo ou lomito é filé mignon. E bife de chorizo é contra filé. É tudo que precisa saber.
Se você for tão nojenta (o) quanto o Dani, peça todo o resto do cardápio. Tripas, lingüiça de sangue, porção de rins de bezerros. Putaquel.
Buenos Aires e o Tango
Aqui se anda no centro da cidade ao som de Batom na Cueca, Calypso e “ótica, ótica, ótica”. Lá, se escuta tango em todas as esquinas. Qualquer loja de cd que você entre, está tocando um tango do bom e do melhor. Já os shows nas tanguerias são absurdamente caros. Um bom espetáculo pode custar 75 dólares.
Se você for jornalista, opte por assistir aos shows de rua ou os restaurantes que os oferecem gratuitamente. No Caminito, em La Boca, comemos uma ótima comida com uma música maravilhosa e um simpático casal de dançarinos.
Buenos Aires e o Uruguai
O Uruguai é logo ali. Três horinhas de barco e chegou. Quase daqui a Ribeirão Preto, mas com um visual muito mais incrível. Vale a pena conhecer para quem vai passar mais de 5 dias na capital argentina. Só a relação que os uruguaios têm com o dinheiro que é bem mais catastrófica. Um copinho de água pode custar 25 pesos uruguaios. Um prato de salada, 140 pesos uruguaios. Uma camiseta furreca para fazer um filho feliz, 10 dólares, ou 160 pesos.
**** Pronto, agora vou escrever as histórias de lá.

A Avenida de Mayo, logo que chegamos
Quem diria que em uma semana eu veria o Maradona fumando um charuto cubano em um jogo do Boca na Bombonera e pedalaria pelas ruas do Uruguai (lá Uruguay é com ipsolón)? Logo eu que, até bem pouco tempo atrás, só tinha ultrapassado uma única fronteira: “Aqui passa o Trópico de Capricórnio”, lá na Rodovia dos Bandeirantes.
Eu e Daniel decidimos comemorar nosso um ano de sobrevivência feliz (sobrevivência porque não há registros anteriores na história da humanidade de uma corinthiana agüentar por tanto tempo um palmeirense e vice-versa – e no ano que vem bateremos nosso próprio recorde) com uma viagem para qualquer lugar do planeta. Mas todas as minhas economias de uma vida inteira só me davam duas possibilidades: Valinhos ou Buenos Aires.
A idéia de ir para a Argentina foi minha porque o Daniel já tinha estado por lá várias vezes. Não que eu não goste de Valinhos, mas queria fazer uma viagem internacional.
Assim, passei fome em São Paulo por três meses para conseguir comprar um punhado de dólares que pudessem me sustentar na capital Argentina por uma semana. E agora que vocês já estão comovidos, posso começar a escrever o meu diário de viagem.
Diário de viagem – Segunda-feira
Foi o Santo Igor da Freguesia do Ó quem nos levou para o aeroporto de Cumbica às 6h da madrugada. Eu falava pelos cotovelos no banco de trás porque estava acordada desde as 4h da manhã de tanta ansiedade, Igor e Daniel dormiam nos bancos da frente. Nada que pudesse ser mais perigoso do que viajar de GOL.
Eu nunca tinha ido ao aeroporto de Cumbica a não ser para levar e buscar minha prima Flávia que mora nos Estados Unidos. Free Shop então, eu só tinha visto pela televisão. Levei só R$ 50 na esperança de que esse dinheiro desse para comer, comprar pedras brasileiras, cartão telefônico e voltar de táxi para casa quando chegássemos em São Paulo novamente.
Cinco minutos, duas águas, dois enroladinhos de salsicha, uma Carta Capital e uma coca-cola depois me sobraram míseros R$ 2 no bolso. Passamos pelas 15 mil revistas do aeroporto sem apitar e adentramos o maravilhoso mundo dos produtos sem imposto.
*Pausa para desmitificar o Free Shop*
Caso você queira comprar coisas básicas de subsistência como uma máquina fotográfica digital ou uma garrafa de Blue Label, o Free Shop me parece o melhor lugar. Uma Sony 7.0 megapixels pode sair por 200 dólares. Agora, se você, como eu, não entender quem é a besta que compra esse tipo de coisa no aeroporto e só estiver procurando uma barra de chocolate por dois reais, o Free Shop é absolutamente descartável. Um chocolate Lindt pode custar a quantia absurda de 10 dólares. Ou seja, vão tomar no cu.
*Fim da pausa para desmitificar o Free Shop*
Com uma hora de atraso – o que, se tratando de caos aéreo, não é atraso, mas para a minha impaciência foi bem desgastante -, saímos de São Paulo rumo a Buenos Aires.
Por um milagre da Minha Nossa Senhora do Bofe, a GOL não ofereceu barrinhas de cereais, mas um sanduíche sem gosto de presunto cru e queijo, além de uma goiabinha da Bauducco. Pedimos dois cada um porque já era hora do almoço.
Aterrissamos no Aeroporto de Ezeiza quase 3h30 da tarde. Pegamos um táxi e fomos direto para o albergue, em San Telmo. Durante o caminho, o Daniel puxou prosa com o taxista que contou a situação política do País: um dia antes de chegarmos, houve o primeiro turno das eleições para a prefeitura de Buenos Aires. O resultado ficou para a disputa em segundo turno entre Macri (ex-presidente do Boca) e Filmus.
- Eu não voto em Macri. Sou River. E Palmeiras no Brasil. – relinchou o taxista.
Fiquei com pena do argentino duplamente infeliz.
Ele também disse que um carro usado na Argentina dá para comprar com 12 mil pesos. E um novo, cerca de 20 mil. Olhei pelas janelas e comecei a reparar nos automóveis.
Meu Corsa seria um carro de luxo em Buenos Aires. A maioria dos carros por lá ou são muito velhos ou são mais novos, mas pessimamente conservados. Dá impressão que o cara teve dinheiro há uns 10 anos para comprar um carro, mas depois de um tempo ficou difícil mantê-lo. Até os táxis são caindo aos pedaços. Pegamos um com o espelho retrovisor pendurado. Outro não tinha freio de mão e quando o taxista foi abrir a porta para eu subir (porque a porta só abria com um macete) tivemos de correr atrás do táxi.
***
Julieta nos apresentou o albergue. Casa antiga em San Telmo, um bairro bem próximo ao centro da cidade. A princípio, me pareceu um lugar bem barulhento, mas para quem mora na Avenida Pompéia isso não era um problema. Depois vi que ficar em San Telmo pode ser a melhor opção para quem vai a Buenos Aires. É próximo de tudo e há uma linha de metrô ao lado do albergue. Fica entre os bairros de Puerto Madero, La Boca e o Centro.
Tomei um banho e saímos andando pelas ruas do centro para conhecer um pouco do lugar e achar um bom restaurante que pudéssemos jantar.
As pessoas passeavam com seus sobretudos, cachecóis, um frio de danar. Em cada esquina, um café ou uma casa de Te (chá) para sentar e conversar. Assim como fazemos com as padarias aqui.
Era fim de tarde, céu escurecendo e na Plaza de Mayo tinha um piquete, bem em frente a Casa Rosada. Tiramos algumas fotos e chegamos à calle (rua) Florida, um lugar sensacional para comprar livros e CDs bem baratos. O som alto do tango vindo das lojas tomava a rua toda, lotada pelos argentinos que trabalham no centro e sempre cortam caminho pela Florida. Foi assim que me apaixonei por Buenos Aires.
Até um rapaz, na frente da Galeria Pacífico, me entregar um papelzinho e eu, encantada por ler tudo em castellano, aceitar. Era um cartão de um signo e ele queria vender, mas eu educadamente devolvi e disse:
- No, muchas gracias.
Foi quase o nosso primeiro “Che, boludo!”, mas passou raspando. Cinco metros depois, um pseudo-pintor também vendia seus cartões.
- É para ajudar uma escola.
- Não queremos – respondeu o Daniel.
- Mas por que você não quer ajudar uma escola?
E o cara era mais chato do que aqueles vendedores de entradas de teatro e livros de poesias da Avenida Paulista. Sei lá como, travou-se uma discussão ferrada entre Daniel e o argentino e eu fiquei espantada como meu namorado sabia tantas palavras em castellano. E debutamos no “Che, boludo”.
- Che, boludo! – falou o cara para o Daniel apertando o saco.
Eu quase respondi que o Che era barbudo e não boludo, mas percebi que não era um bom momento de me pronunciar porque uma veia na testa do Daniel estava saltada e ele gritava que ia chamar La Policia. Resolvi puxar meu namorado para dentro da Galeria Pacífico porque o nome sugeria que ali dentro devia ser um lugar mais tranqüilo e nenhum pintor o ameaçaria de agressão física.
Achei uma sorveteria Freddo, uma das mais famosas do mundo, e pedi um maravilhoso sorvete de chocolate meio amargo. Putaquel, aquele lugar era mesmo a Europa na América Latina. Sorvete de chocolate meio amargo…
E fomos embora porque tinha sido emoção demais para um só dia.

Caminito e as casas de zinco
Diário de Viagem – Terça-feira
Dia de conhecer o bairro de La Boca é dia de colocar a camiseta do Coringão. No caminho, reparei que não há grandes supermercados em Buenos Aires (depois vi uns Carrefour) e as pessoas compram comida nas mercearias, nos mercados de bairro e nas quitandas.
La Boca é um dos lugares mais legais de Buenos Aires, com toda a certeza. Bairro antigo, pobre e decadente na beira do Porto. Sua formação foi feita com a vinda de imigrantes italianos que construíam suas casas com o zinco e a madeira retirados dos navios.
Algumas das mais antigas casas foram pintadas de cores diferentes e se transformaram no Caminito, um lugar onde pintores vendem suas produções e há lojinhas de bugigangas para turistas. Caras.
O lugar respira tango e futebol. Conhecemos uma tangueria e depois fizemos uma visita em La Bombonera e no Museu do Boca Juniors. Também na loja oficial do Boca que é extremamente cara. Vale mais a pena comprar nas que ficam bem em frente ao estádio e também vendem produtos oficiais.
Na parede do museu, todos os jogadores que já passaram pela equipe têm seu retratinho pendurado. O Tevez está lá, mais feio do que bater na mãe por causa de mistura. Para Maradona, há uma sala enorme onde são exibidos seus gols e suas partidas. Gênio. Dios. É como é tratado pelos argentinos, principalmente pelos torcedores do Boca.
No passeio pelo estádio, fomos guiados por um torcedor apaixonado pelo clube. Ele perguntou de onde cada um de nós vinha e havia pessoas do Peru, da Colômbia, de outros lugares da Argentina e do Brasil. Os colombianos eram torcedores do Cúcuta, que tinham ido para Buenos Aires assistir a partida da semifinal da Libertadores contra o Boca na quinta-feira.
A Bombonera tem uma arquitetura incrível. Todas as arquibancadas são íngremes e “jogam” os torcedores para baixo. Daí, explica-se a avalanche, comemoração feita pelos xeneizes (torcedores do Boca) na hora do gol. O estádio é dividido em três anéis. Atrás do gol estão as arquibancadas, onde fica a famosa La 12, hínchada do clube. É o equivalente as nossas torcidas organizadas.
- A 12 tem um papel fundamental durante o jogo. Além de cantar os 90 minutos incentivando o time, sua arquibancada está em cima do vestiário do visitante e do vestiário do trio de arbitragem.
Pressão? A La 12 por lá é bem respeitada. Existe o mesmo dilema que aqui, de vândalos infiltrados na torcida (lá chamados de barra brava), mas ela é vista como peça chave e não como problema.
Com a visão para o meio do campo, estão os camarotes. São alugados por dois anos por empresários dispostos a pagar preços altíssimos pelos melhores lugares do estádio. O único que tem um camarote perpétuo é o Maradona. O que fica bem em frente a linha que divide os dois lados do gramado.
O vestiário dos jogadores é tosco. Dieguito é realmente um gênio porque se eu tomasse banho naquele chuveiro não conseguiria nem levantar da cama.
Saímos felizes do estádio, mesmo com a notícia de que não havia mais entradas para o jogo de quinta, que estava nos nossos planos. Acontece que ingressos de arquibancada são só para os sócios do clube. Sim, os torcedores organizados são todos sócios do clube. É mesmo o mundo ideal.

As arquibancadas de La Bombonera
**********
Fomos procurar um restaurante pelo Caminito. Ouvi uma voz de criança atrás de mim dizendo: “Corinthians!” com um sotaque bem carregado. Foi assim que conheci o Franco. Tem 10 anos e vendia uns ímãs de geladeiras horrorosos.
- Compra?
- No, gracias.
- Então me compra uma camisa do Boca?
- És loco???
- Então me dá uma nota de dinheiro brasileiro.
Nem isso eu tinha. Aí o Franco não largou do nosso pé e nos acompanhou até o restaurante. Depois foi embora.
Pedimos um litro de Quilmes e carne, carne e mais carne. Tinha um tango ao vivo com dois violonistas muito talentosos e um casal simpático tirava as pessoas para dançar. Aí o tangueiro me descobriu e sussurrou no meu ouvido:
- Você vai dançar comigo.
- És loco?
Talvez tenha sido a coisa que eu mais disse em toda a viagem.
- Vai dançar e é a minha última palavra.
O Daniel sorriu sem-graça e eu concordei na mesma hora porque desconheço os costumes daquele lugar. Eu já não tinha tido uma boa experiência por rejeitar um cartãozinho. Então danei a beber porque já que eu teria de dançar não faria isso sóbria de maneira nenhuma.
Aí chegou o Franco acompanhado de um amigo, o Matia, com 10 anos também.
- Posso fazer uma caricatura sua?
- No, gracias.
- São 5 pesos.
- No, gracias.
- Mas com um rosto tão bonito assim você não quer uma caricatura?
O Matia tem um xaveco tão bom que vai conseguir o que quiser na vida. Eu comprei a tal caricatura. Era um desenho de uma criança de 10 anos, não mais do que isso. Mas talvez tenha sido um dos dinheiros mais bem gastos na viagem. Papo divertido, enquanto Franco comia minhas papas (as batatas de lá são as melhores do mundo – peça porção de papas españolas) com uma cara de quem nunca tinha visto catchup antes.
Pedimos a conta e nada do Tango. Aí as garrafas de cerveja fizeram efeito e eu precisei ir ao banheiro. Aproveitei que o casal dançava, passei pelo lado e o cara me puxou para dançar.
Vergüenza.
Mas para quem tomou um tombo no meio da praça do Congresso, isso era fichinha (a seguir, nos próximos posts).
Dim terim bebins saímos do restaurante a caminhar pelo lado errado do Bairro de La Boca. E chegamos à zona portuária. Na beira de um esgoto um homem fazia a travessia em uma canoa das pessoas que queriam chegar ao outro lado. Inspirado pelos três litros de cerveja, Daniel pegou minha mão, me olhou romanticamente como se estivesse prestes a pisar em uma gôndola de Veneza e disse:
- Vamos?
Quase com um dos pés naquele pedaço de tábua, meu namorado resolveu perguntar para o moço quanto era.
- 0,50 centavos – o homem respondeu com uma cara de “que caraleo são esses loucos?”
“0,50 centavos para andar de barco?”, pensou o Daniel. Era uma oportunidade e tanto.
- Vamos!
- Espera, mas vocês conhecem lá do outro lado? – perguntou o gondoleiro.
- N-não… o que tem lá? – preocupou-se o Daniel, em um momento de lucidez.
- És muy peligroso!
Então resolvemos ir a pé mesmo. E, “Claro!”, nos perdemos por mais de uma hora. As ruas foram ficando mais pobres, as cantinas tradicionais falidas de portas fechadas, as pessoas com caras sofridas. E, de tempos em tempos, eu ouvia um “CORINTHIANS!” que me fazia sentir completamente em casa. Maloqueiro que é maloqueiro sempre se reconhece, em qualquer parte do mundo. Adorei La Boca.
****
De noite fui conhecer Puerto Madero. É do outro lado de La Boca e era uma região tão degradada quanto, mas foi totalmente revitalizada e se transformou em um dos metros quadrados mais caros de Buenos Aires. Tanto para morar, quanto para comer.
É bonito para conhecer, é bom para namorar, é delicioso para jantar, mas não é um lugar que faz muito a minha cabeça. O paraíso dos novos ricos.
Entramos no La Caballeriza, um restaurante que também existe aqui nos Jardins, em São Paulo, e é decorado como se fosse um estábulo. Me senti uma égua quando fui fazer xixi na cocheira.
Pedi uma maminha e uma batata assada. O Daniel pediu uma porção de rins de bezerro. Escolhemos um bom vinho e eu apelidei o garçom que nos atendia de Riquelme, mas não que tivesse alguma coisa a ver.
- Chama o Riquelme, amor. Vamos pedir a conta.
Aí veio o garçom, loirinho, cara de criança, olhos azuis:
- Amigo, alguém já disse que você é muito parecido com o Riquelme? – perguntou o Daniel para o rapazinho, de maneira bastante convicta.
ÃHM??????
O garçom olhou para o Dani como se ele fosse um E.T., que procurou consolo em mim, mas eu olhava meu namorado como se ele fosse o Tevez.
- Daniel, o cara não tem NADA a ver com o Riquelme.
- Como assim, Leonor? Você chamou o cara a noite inteira de Riquelme!
- Mas era só um apelido.
- Estou humilhado, vamos embora.
E fomos porque no dia seguinte a gente ia passear na Recoleta.

Bichona biscateira enterrada no Cemitério da Recoleta
Diário de viagem – quarta-feira
- Vamos a Recoleta hoje?
- Sim, mas não coloque nada do Corinthians. Lá é bem chique.
Não entendi muito bem o que o Daniel quis dizer com isso, mas vesti uma blusa mais decotada porque o calor era um pouco maior. Devia estar uns 8 graus. Como íamos ao centro antes, o Dani quis fazer a barba para o caso de encontrar com o pintor assassino, mas eu não deixei:
- Te defendo, amor… Te defendo.
Ao que me parecem os argentinos não estão acostumados com um peito de mulher. Até os menores devem mamar de olhos fechados. Da criancinha ao mais velhinho, todos olhavam espantados para o meu decote. Alguns tropeçavam, outros cutucavam o amigo, outros batiam os automóveis. E, apesar de fazer uma massagem no ego, tenho certeza de que a coisa não era só comigo. Poderia ser qualquer uma com una pechuga grande ou chica dentro de uma blusa mais decotada. Sucesso absoluto.
Quando a fome bateu, decidimos achar um lugar para comer empanada que é o prato mais barato deles. Em média, custam $1,80 e são bem grandes. Três são suficientes para manter o estômago cheio pela tarde toda. Outra coisa é que elas são vendidas em quatro sabores básicos: jamón y queso (presunto e queijo), cebolla y queso (cebola e queijo), carne (carne) e pollo (frango).
O restaurante era meio sujo e as empanadas deviam estar prontas há alguns anos. Pedi duas de cebola e queijo porque pensei que cebola é algo que demora mais tempo para apodrecer. O Daniel uma vez comprou uma réstia e deixou na parede de sua casa por uns 8 meses. Aí quando foi usar, elas estavam todas podres, mas experimente deixar um pollo por uma semana na sua geladeira para ver o cheiro que fica.
Dei a primeira mordida e vi que a cebola e o queijo tinham feito suas malas e mudado para o Uruguai porque dentro da empanada só tinha grama. Era uma coisa verde que não tinha gosto de escarola, nem de espinafre, nem de alface, nem de mofo. Só podia ser grama. Eu dei graças a deus porque grama nunca apodrece (basta regá-la) e desencanei de comer, mas o Daniel comeu as dele porque para quem já tinha mijado em um estábulo no dia anterior, comer grama era luxo.
Atenção, minha gente. Isso não é regra. As empanadas geralmente são deliciosas e são ótimas opções. A gente é que devia ter entrado em um lugar menos fedido, menos porco e melhor povoado. Nem tive coragem de entrar no banheiro, para se ter uma idéia. E eu ainda estava de decote.
***
Em contrapartida, a Recoleta é chique de verdade. O outro metro quadrado mais caro de Buenos Aires. Onde toda a aristocracia Argentina se reúne para chorar no túmulo da Evita. É onde estão também as embaixadas do Brasil e da França, mas eu juro que não fiz esse passeio de índio (me perdoem os índios, isso é politicamente incorreto falar, né?!).
Eu quis ir até o Cemitério da Recoleta para ver o mausoléu da mãe dos pobres, Eva Perón, e tirar uma foto chorando ao lado de sua lápide. Só que não consegui derramar uma lágrima. Gente, ela deu para o Perón, dá um tempo! Não é a Madonna. Ainda assim, precisava da fotografia para dar ao Daygo, meu amigo super pheeno, porque ele sempre diz que um de seus sonhos é ter um apartamento com sacada para cantar aos seus descamisados, que nem a Evita.
Além da ex-primeira dama, todas as outras personalidades argentinas estão enterradas no Cemitério da Recoleta. É um lugar mal ajeitado, fede a gato (lá eles são muito numerosos) e alguns túmulos estão abertos e abandonados pelas tradicionais famílias. Mesmo assim, tem todo o seu potencial turístico aproveitado. Na porta do cemitério, um mapa com os mausoléus mais importantes. Centenas de pessoas fotografavam o lugar e passeavam pelos corredores.
Depois dali, procuramos um lugar para tomar um vinho. Na Recoleta é tudo mais caro e a menor garrafinha da adega que achamos custava $19 pesos. Foi ela a escolhida. Sentamos em uma mesa ao ar livre e a garçonete nos serviu a bebida, que era deliciosa. Na hora de pagar, recebemos uma conta de $34.
- Mas o vinho era $19…
- Ah, sim. Mas para servir na mesa é mais $15.
Vai tomá no cu, 15 pesos para abrir a garrafa e colocar em duas taças??? Se soubesse tinha tomado no bico. Por isso, sempre pergunte nas adegas se para tomar o vinho na mesa é preciso pagar quase o dobro.
Aí o Daniel entrou no Centro Cultural.
- Pelamor, Dani. Não vou a Centro Cultural nem em São Paulo, de onde você tirou que quero ver a exposição de Ramon Riquelme? Vamos parar com a hipocrisia.
E saímos do lugar. Ah, podem dizer que eu sou uma pentelha, mas nem o Goya, que estava no MASP, não consegui ver. E esse eu bem que queria. Museu só o Louvre (há há há há).

Terrorismo com a zebra
Diário de Viagem – Quinta-feira – Palermo
Talvez a quinta-feira tenha sido o melhor dia da viagem. Acordamos cedo para ir a Palermo, um bairro depois da Recoleta, onde estão os principais parques da cidade: Jardim Botânico, El Rosedal, Jardim Zoológico, Tres de Febrero e Jardim Japonês.
Olhamos pela janela do quarto e ficamos assustados com a neblina. Mesmo com o sol, pouco se via. Em Buenos Aires o tempo é úmido, mas no inverno quase não chove. Nesse dia chegou a fazer 95% de umidade do ar, mas nada de chuva. Por isso, la neblia que pegou até os argentinos desprevenidos.
Enquanto Daniel tomava banho, fui até o computador escrever e-mails e Pablo, o recepcionista do albergue, me chamou:
- Leonor, soube que você e o Daniel gostariam de ir ao jogo do Boca hoje.
- Sim, mas não há mais entradas.
- Conheço um serviço onde eles buscam turistas na porta do albergue, levam até a Bombonera e trazem de volta depois do jogo. Eles ainda devem ter entradas. Vou perguntar.
Uma luz no fim do túnel.
- Sim, ainda há entradas.
- Cadeira ou popular (arquibancada)?
- Popular.
- MARAVILHA! Quanto?
- Como é um jogo importante e as entradas acabaram há muito tempo, $160.
- Puta merda.
No café, eu e Daniel decidimos se íamos ou não por esse preço. Nunca tinha pagado tanto nem para ir a um do Coringão e sou absolutamente contra comprar ingresso superfaturado (visto que não vou a shows em São Paulo há anos), a não ser em ultimíssimo caso.
- Te dou de presente de dia dos namorados, Lê.
- Uhuuuuuuuuuuu!
*Pausa para lembrar que ainda não comprei nada para o Daniel de dia dos namorados*
Fomos para Palermo de táxi e um simpático taxista resolveu nos fazer uma city tour. Pagamos até pedágio para chegar ao lugar enquanto o homem falava bem do Rio de Janeiro:
- Lá eles dão o sangue para te agradar. Aqui ninguém faz nada por você.
Toda visão de turista é distorcida.
****
Eu não sou do tipo de pessoa que gosta de espremer os cravos do namorado no Ibirapuera, muito menos que se derrete toda com macaquinhos e patinhos, por isso não esperava nada desse passeio em Palermo.
Entramos no Jardim Botânico e, além de estátuas bizarras e gatos semi-abandonados, não havia mais nada por lá. Só um grupo de metaleiros argentinos gravando um videoclip.
Tirei uma foto debaixo das tetas da estátua da Loba, junto com Remo e Rômulo e fomos embora.
O Daniel propôs que a visita seguinte fosse ao Jardim Zoológico e eu relutei. Mas entrar no Zoológico era barato (cerca de $12 te dava direito ao passeio no parque e todos os lugares de acesso restrito) e eu já estava ali, então entramos.
Para todas as idades, a ida ao Zoológico é altamente recomendável. Muito mais legal do que o daqui de São Paulo, boa parte dos bichos fica solta e é possível acarinhar aqueles mais dóceis.
Aqui, você fica como tonto por meia hora na frente das jaulas, imaginando que atrás daquele arbusto vai sair um bicho escondido e nada. Lá as jaulas não estão vazias (pode ficar que nem tonto por meia hora que vale a pena) e os bichos são mais variados e parecem bem tratados (pelo menos eles são mais limpos).
A dica é entrar no reptário (existe essa palavra?) e no aquário e ignorar completamente a Selva Subtropical, lotada de aranhas. Parece que lá é onde eles desovam os animaizinhos que morrem no Zoológico porque tem um cheiro de bicho morto inacreditável.

Confraternizando com os bambis
Rimos muito em toda visita, mas o Daniel se divertiu bem mais do que eu porque ele não foi atacado por um bando de cisnes enquanto fotografava uma capivara daquelas que a gente vê na beira do Tietê.
Coloquei um videozinho no youtube da minha dancinha para tentar fazer com que o pavão abrisse a cauda. Sim, é ridícula mesmo.
Na saída, já era hora do almoço e o Dani propôs que comessemos na frente do Zoológico em um carrinho de Panchos (cachorros-quentes), mas isso não é a coisa mais higiênica do mundo a se fazer. A salsicha parecia feita de carne de macaco que morreu de peste bubônica.
O próximo passeio foi o Rosedal. Na entrada, uma senhorinha carcomida, banguela, na versão piorada da mãe Fratelli dos Goonies, começou a chorar quando nos viu.
- Filho, me ajuda. Compra alguma coisa minha.
O castelhano da Argentina é uma mistura do espanhol e do italiano. Quando é bem falado e pronunciado fica fácil de entender, mas eu não entenderia aquela senhora nem se ela falasse português.
- Entende o que eu digo, filha?
- Nem fodendo!
E o Daniel comprou uma água para ajudar a velhinha, amarelada, toda suja de terra (a água, não a velhinha), por $3. O xixi de macaco mais caro do mundo.
O Rosedal, como o próprio nome sugere, é um roseiral, uma plantação de rosas e algumas outras flores. É tão lindo e chique que qualquer foto tirada por lá sai com uma atmosfera de Leonor-descansa-no-jardim-do-castelo-de-Caras.
Depois, caminhamos até o Jardim Japonês, que é também muito bonito, mas o-que-que-eu-tô-fazendo-em-um-jardim-japonês-em-Buenos-Aires,cacete?
Tínhamos combinado de pegar o transporte até o jogo do Boca às 16h30 na frente do hotel, então fomos embora de Palermo. Na frente do Jardim Japonês, tinha um táxi caindo aos pedaços e entramos.
O taxista, todo carrancudo, não pronunciou uma palavra até a embaixada do Brasil, na Recoleta.
- Vejam: a embaixada do Brasil!
E aí destampou a falar. Contou uma teoria da conspiração mirabolante de que a Argentina estava sendo invadida por peruanos desde que o Menem fez um acordo com o Fujimori para mandar todos os ladrões do Peru para Buenos Aires a troco de grana.
- Todos los peruanos son chorros (ladrões)!
Em todos esses dias de Buenos Aires o que deu para sentir é que os argentinos são bem mais politizados que o brasileiro, tanto para o lado do bem, quanto para o lado negro da força. Os mais velhos parecem mais reacionários e são bastante preconceituosos, sem nem medir as palavras com conhecidos e desconhecidos. A moda do politicamente correto ainda não pegou por lá.
- Aqui tem muitos chineses também e os chineses são todos sujos. Os japoneses é que são limpos. Os chineses e os coreanos vêm para a Argentina para fazer máfia.
Aquele papo todo foi me enjoando e para complicar a nossa vida pegamos um congestionamento feladaputa na nove de julho. Foi a única vez que entramos em um congestionamento, mas o trânsito na Argentina é confuso demais. As avenidas são todas muito largas (La avenida más ancha del mondo) e de vez em quando vem carro por onde você acha que não vem. Uma boa dica é atravessar sempre na faixa em Buenos Aires porque dá um trabalho danado morrer em outro país.
Entre os carros na Nove de Julho, dezenas de homens vendiam quinquilharias, como aqueles vendedores de suflair aqui em São Paulo.
- São todos peruanos esses vendedores! Todos ladrões! – latia o taxista.
Sabiamente, Daniel abriu a janela do táxi e perguntou para um deles quanto custava uma bola de tênis gigante. E comprou do “chorro”.
O taxista ficou quieto por alguns minutos, olhando Daniel pelo retrovisor.
- Esse era argentino – e sorriu sem-graça.

Xeneizinho no jogo. Reparem na neblina
Diário de viagem – Quinta-feira – Jogo do Boca
Boa parte dos corinthianos que eu conheço simpatiza com o Boca Juniors muito antes do Tevez chegar ao Coringão. Seja pelo gosto ao futebol raçudo, suado e sofrido; pela identificação com a postura da torcida; pela conquista do título da Libertadores em cima do parmerinha; pelo ódio eterno ao River Plate. A vinda do Tevez ao Corinthians só aumentou a reciprocidade do carinho.
Sou apaixonada por ver jogo em estádio de futebol desde pequena e penso que se o bate-bola fosse restrito a tela da televisão o meu amor pelo Corinthians não seria assim tão grande. Tem muito a ver com a torcida, a troca de energia, a alegria, a tristeza, com estar presente, gritar, se fazer ouvida e ouvir, se sentir viva.
Por esse motivo ir até Buenos Aires e não ver um jogo do Boca é quase impensável para todo mundo, corinthiano ou não, que gosta de ver uma partida en la cancha. No começo, hesitei pelo preço e agradeço ao Daniel por não ter me deixado desistir. Pobre não gasta $160 dinheiros assim tão fácil, mesmo se os dinheiros forem pesos argentinos. Mas depois de ir posso dizer com a toda a convicção do mundo: pagaria o preço que fosse.
Uma entrada da partida entre Cúcuta e Boca Juniors era ultra-disputada pelos torcedores e nas bilheterias não era mais possível comprá-la. Semifinal da Taça Libertadores da América e o Boca precisava vencer por, pelo menos, 2 a 0, porque tinha perdido o primeiro jogo por 3 a 1.

Pior profissão do mundo: catador de papel na Bombonera
O acesso às arquibancadas então era quase impossível porque elas não são vendidas para não associados ao clube. Por isso, compramos as entradas em um esquema para turista, conforme citado na postagem anterior. No horário combinado, chegamos ao albergue e colocamos mais uma porção de agasalhos. A neblina e o frio eram de cortar o rosto.
Daniel implicou com a camiseta do Corinthians:
- É muito perigoso ir com roupa de outro time, Léla. Eles vão te bater e em seguida te matar.
Ele já tinha ido a uma partida entre o Nueva Chicago e o Boca na Bombonera e eu resolvi seguir seu conselho porque realmente não queria sair com escoriações de lá.
Fomos para a porta do albergue e encontramos mais duas pessoas que iriam conosco ao jogo: um era colombiano, torcedor do América de Cali, outro era de Mossoró, torcedor do Mossoró Esporte Clube. O jogo estava marcado às 19h e o ônibus passaria para nos apanhar as 17h30.
- Pode beber cerveja na calçada de Buenos Aires? – perguntou o colombiano.
Eu não entendi muito bem a pergunta, visto que aqui no Brasil é possível até morar em uma calçada, mas parece que na Colômbia quem bebe em espaços públicos pode ser confundido com alguém das FARC. Os homens foram comprar cerveja em um Kiosco (aqui, mais conhecidos como quiosques) e eu fiquei esperando o ônibus.
Não me lembro bem a marca, mas era uma boa cerveja e custava $4 pesos. Um litro também e uma para cada um. Assim que eles abriram as garrafas, chegou o ônibus.
- Não pode entrar bebendo no veículo – disse um dos organizadores.
- Ah, ninguém aqui vai jogar fora as cervejas.
- Tudo bem.
E fomos levados até um ônibus escolar caindo aos pedaços que já estava lotado de turistas de outros albergues que também iam ao jogo. Quase todo mundo devia ter entre 18 e 20 anos. Esse talvez tenha sido o único momento que quis ser argentina: para me diferenciar daquela molecada do intercâmbio que nunca tinha ido a um estádio de futebol e ia pela primeira vez de ônibus escolar. Senti vergonha.
Os turistas eram de lugares variados do mundo e conversavam em diversas línguas. Quando nos aproximávamos da Bombonera, a turma do fundão do bumba começou a entoar um:
- U.S.A.! U.S.A.! U.S.A.!
E eu coloquei touca e óculos escuros porque não queria ser reconhecida por ali, embora ninguém me conhecesse na Argentina.
Entramos no estádio e quando olhei para o gramado quase chorei. Não era possível ver absolutamente nada por causa da neblina. Tudo branco. Mal se via os refletores, nem pensar em ver La Doce na arquibancada da frente, atrás do outro gol. “Não vai ter jogo”, pensei.
- Não acredito que pagamos tudo isso para não ver nada! – lamentou o Daniel.
A aquibancada já estava quase toda tomada. Nos afastamos da juventude u.s.a., eu, Dani, Mossoró e Cali, e fomos sentar bem longe de todos eles. Sentar é modo de dizer. Os degraus dos estádios daqui são bastante largos, suficientes para espremer cinco pessoas, uma na frente da outra, como os nossos organizadores estão acostumados a fazer. Lá, o degrau é fino e quase não cabe o seu pé, o que é bastante assustador por causa das arquibancadas íngremes.
Quando olhei para trás, a primeira coisa que vi foi um torcedor com um agasalho do Corinthians.
- CORINTHIANS! – gritei, sem me conter.
- Você é corinthiana?
- Sim, sou. E você? É brasileiro?
- Não, sou argentino. Comprei quando fui ver o Boca jogar no Brasil, na final contra o Santos.
Está vendo, Daniel?!

A bandeira é pequenina comparada com a nossa
A cerveja bateu e eu precisei ir ao banheiro. “Se os banheiros dos restaurantes são daquele jeito, imagina o da Bombonera?”, mas era melhor não pensar nisso. Quando entrava no sanitário feminino, um homem saía dali e eu fiquei bastante assustada, porque eu não queria morrer, nem sofrer escoriações, muito menos ser molestada em Buenos Aires. Mas deu tudo certo e eu continuo virgem. E o banheiro, por mais esquisito que seja, era muito mais limpo do que a maioria dos restaurantes sofisticados que a gente foi.
Voltei para meu lugar e nada do jogo começar. A neblina continuava ruim, a arquibancada foi enchendo, as pessoas foram se espremendo. Fiz amizade com um velhinho do lado que me apontou o Maradona em seu camarote:
- Lá está Dios.
- Amém.
Até que anunciaram no alto-falante que o jogo atrasaria uma hora para ver se neblina subia. Automaticamente todo mundo sentou ao mesmo tempo. Eu fiquei com os pés nas costas do senhor da frente, com uma banda em cima do velhinho e outra em cima do Daniel, que por sua vez estava em cima de desconhecidos.
Fiquei pensando que se fosse no Brasil o jogo estaria começando às 21h45 por causa da novela e jamais atrasaria uma hora porque isso desestruturaria toda a programação do canal 5. Aqui, a Rede Globo é muito mais poderosa do que a mãe natureza.
Com o estádio já cheio, os torcedores começaram a pular e a cantar. A La Doce puxou uma música chamando a nossa arquibancada para cantar também. E conforme todos cantavam e todos pulavam, a temperatura esquentou e a neblina subiu como mágica. Isso é saber cumprir o seu papel dentro do estádio. Sem a torcida, não existiria jogo, nem aquele, nem nenhum.
Oito da noite começou o show. Quando o Boca entrou em campo, uma chuva de papel veio das arquibancadas e os gandulas precisaram de muitos minutos para limpar o gramado. As músicas eram acompanhadas pela bateria. Maradona acenando para a torcida e fumando um charuto cubano. A fumaça agora vinha dos foguetes coloridos, lançados pela torcida.
Mal o juiz apitou, o goleiro do Cúcuta começou a fazer firula. O velhinho do meu lado, aparentemente inofensivo, gritou um:
- Negro puto!!!!!!!!!!!

Eu e o velhinho carcamano
É o que eu disse sobre os mais velhos serem preconceituosos e reacionários. Aliás, quase não se vê negros em Buenos Aires. Durante sete dias, contei três.
Assim como seus companheiros de equipe, o arquero queria ganhar tempo porque tinha a vantagem. Não é fácil ganhar na Bombonera, não com essa torcida a flor da pele. E o Cúcuta veio todo retrancado.
Ninguém perdoou:
“Que lo vengan a ver, que lo vengan a ver
Eso no es um arquero, es una puta de cabaré”
Para lá de humilhante. E toda vez que ele ia bater um tiro de meta, a torcida entoava um:
- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO…
e ao chutar a bola, um:
- PUTOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!
Toda vez, sem exceção.
Mas mais arrepiante que as músicas, o que deu vontade de chorar foi o silêncio. Ele, que me dá ódio nos jogos do Corinthians, ali me emocionou. Entre as músicas, nos momentos de apreensão, ninguém conversava no estádio, ninguém falava. Um silêncio sepulcral. Era possível ouvir a neblina. Para depois de uma jogada bonita, um drible, um quase gol, a torcida explodir em ritmo:
“Boca Juniors, Hoy te vinimo a ver
ponga huevo, hoy no podes perder
Te llevamos, dentro del corazón
Y la 12 quiere que salgas campeón…”
Sim, ponga huevo se refere ao escroto dos jogadores. É como se eles dissessem para “jogar com os colhões”. Os argentinos realmente têm problemas com bolas.
E quando eles decidiram jogar com os ovos, Riquelme acertou no ângulo e abriu o placar aos 43 do primeiro tempo. O gol foi dedicado ao Maradona. Eu logo me preparei para sair correndo, fazer a tal avalanche e voltar correndo para ajudar o Daniel que certamente seria pisoteado, mas eles não fizeram. Só gritavam e abraçavam os desconhecidos em meio aquele sentimento comum. Eu ganhei um abraço apertado do velhinho.
No meio tempo, todos se sentaram e a situação parecia ainda pior. Mas eram só dez minutos. Para animar os rapazes, as cheerleaders entraram em campo e começaram a rebolar, exatamente como aqui. E ouviram-se os mais variados elogios grosseiros, exatamente como aqui.
- Não digam isso dela. Ela é a mãe dos meus filhos!!!!! – gritou o velhinho-meu-amigo.
Bastou para eu rir os dez minutos.
Quando o jogo começou, as músicas voltaram e Palermo fez o segundo, aos 15 minutos. Do nosso lado da arquibancada, uma bateria de fogos foi queimada e o jogo foi interrompido porque era fumaça demais para prosseguir. Mas era alegria demais também porque com esse placar o Boca estaria classificado para a final contra o Grêmio.

A foto é do Dani. Por isso tá borrada (há há)
Mais duas vezes o jogo teve de ser parado, mas agora por conta da neblina que insistia em voltar. A neblina descia, a torcida pulava, gritava e cantava, aquecia o estádio, e ela subia. O jogo continuava. Fundamental.
Para consagrar a noite, Battaglia deu mais um de presente aos xeneizes. Boca na final. É muito huevo.
****
Quando o apito do juiz soou, ficamos mais uns 40 minutos dentro do estádio, esperando a torcida do Cúcuta sair. Nem eram tão numerosos, mas acho que esperamos eles chegarem até a Colômbia para sermos liberados. Lá fora, um frio de rachar e a neblina que não deixava ver um palmo na frente do nariz.
Me recusei a voltar de ônibus escolar com aquela gente nada a ver depois do espetáculo que vi. Queria é falar castelhano e tomar uma Quilmes, sair dançando o tango mais bonito de Gardel.
A cidade estava parada. Os carros não andavam, os táxis não paravam, os ônibus apinhados de gente. O jogo travou Buenos Aires e o bairro da Boca. Sinal de que lá tem tantas condições para se fazer uma partida desse porte quanto aqui.
Enquanto andava pelas ruas de La Boca até San Telmo bateu uma saudade de outros tempos de arquibancada, das bandeironas de bambu e das camisas da Kalunga. Quando o que importava era o Corinthians e as vaidades eram todas colocadas de lado. De uma torcida que era divertida, séria e comprometida, tanto quanto os xeneizes, e que me fez nunca deixar de ir aos estádios. Bateu uma saudade de casa e uma esperança de que um dia todo corinthiano vá ver o que eu vi, aqui e lá.


A Catedral de San Isidro é bonita e só.
Diário de viagem – sexta-feira
A vida não termina em um jogo do Boca, pode ter certeza. Principalmente quando se está em Buenos Aires e há passeios como o Delta do Rio Tigre que te faz sentir viva de tanto nervoso.
Se alguém um dia te convidar para navegar pelo Delta do Rio Tigre, prefira limpar o cocô dos pombos da Plaza del Mayo. Ou servir sopão para os inúmeros mendigos que habitam as ruas da capital Argentina, porque pode ser bem mais emocionante.
A princípio, o passeio parece bem convidativo: percorrer de barco um dos afluentes do rio depois de andar com um belo trem que corre a costa do Tigre. Mas eu devia ter pressentido que era uma barca furada, literalmente, quando perguntei para a recepcionista do albergue mais informações sobre o passeio:
- Você tem certeza que quer ir até o Tigre? Rá rá rá.
Pegamos o metrô para a estação Retiro. Ao contrário do transporte de São Paulo, o metrô em Buenos Aires é baratíssimo, porém imundo. Os bancos acarpetados são repletos de ácaros e o chão do trem tem lixo pelo ladrão. A plataforma também é degradada, mas com a vantagem de ter televisores nas estações com uma programação variada de freak shows.
O que é semelhante entre lá é cá é o número de pessoas que são transportadas em cada vagão. Mas o trajeto era curto então deu para ficar sem respirar e não morrer.
Na estação Retiro, pegamos um trem até Maipu, onde, como cá, também são vendidos lanterninhas, paçoquinhas, cafezinhos, escovinhas de cabelinhos, revistinhas para pintar e chocolate-suflé-da-nestrê. A viagem por esse trem, que ainda não tem nada de luxuoso, é bem interessante porque percorre os principais bairros de Buenos Aires, mas com vista para os fundos.
Uma hora e meia depois, chegamos na estação Maipu onde apanharíamos o tal do trem turístico até o Delta do Rio Tigre. Sim, minha gente, esse passeio é mesmo beeeeeeeeeem longe.
Quem é residente na capital portenha ou possui um documento comprovando a identidade Argentina, paga $ 10 pela ida y vuelta. Turistas desembolsam $ 12, mas recebem um panfletinho dizendo sobre cada uma das estações turísticas que o transporte percorre.
De Maipu até Delta são 10 paradas e todas, ou quase todas, tem uma indicação no panfleto de alguma particularidade. Mas onde se lê:
“Barrancas: (…) la única estación construida en madera, nos revela su clásico estilo inglés y presenta ‘Bike n Coffe’, el nuevo espacio temático relacionado al tiempo libre con gastronomía Healthy”
Deve-se traduzir:
“Barrancas: a única estação construída em madeira foi atacada por cupins e está preste a ruir. A lanchonete para ciclistas está falida porque lá nunca pisou sequer um ciclista.”
Boa parte das atrações de cada parada está fechada ou não funciona por falta de gente. Acontece que as casas que margeiam a linha do trem são grandes mansões fechadas em condomínios e os multimilionários parecem detestar gastronomia Healthy. Dá para ver da janelinha imensos colégios onde as crianças fazem aulas de baseball usando terno, gravatinha e saias de prega.
Descemos no Delta, na frente de um enorme cassino e um parque de diversões tipo o Playcenter. Como o Daniel não é adepto da jogatina e morre de medo de qualquer coisa eletrônica que se mexa, decidimos andar pelas ruas do bairro, sem saber muito para onde ir. Além de marinas e clubes de regatas falidos, desfrutamos de uma fantástica vista do Rio Tigre.
- Não acredito que o famoso Tigre é essa água barrenta, imunda e fedida! – ponderei.
Apesar de termos saído super cedo do albergue, já era quase hora do almoço e começamos a procurar um restaurante com comida digna a preço justo. Então avistamos uma placa: “Tradicional cantina italiana”, com uma seta apontando para a esquerda.
A idéia nos pareceu boa, embora a única coisa que tivesse a esquerda era um clube aparentemente abandonado, com as janelas quebradas e um velhinho dormindo na guarita.
- Senhor, onde fica o restaurante? – Daniel perguntou.
Ele acordou assustado, como se olhasse para duas aparições, mas era ele quem parecia morto desde 1915.
- Vocês t-têm cer-certeza que que-querem ir ao res-restaurante?
- Bom, a gente tinha…
- Espera só um minutinho que vou telefonar lá para dentro (…) *disca* Maria Riquelma, têm dois jovens aqui fora e estão querendo almoçar – agora ele já sorria, como se tivesse ganhado na mega sena – Tudo bem? Você está preparada para recebê-los?
Eu e Daniel olhávamos horrorizados para o velhinho.
- Podem ir. É subindo aquela escada, na primeira porta.
Seguimos em silêncio, sem coragem de olhar um para o outro, como se estivéssemos indo para o abatedouro e fossemos a comida servida na janta para um grupo de multimilionários argentinos. A mansão estava em silêncio, não havia ninguém na casa. Nenhuma movimentação no piso superior, a escuridão só não era total por causa da iluminação da rua. Em uma das paredes, um espelho do chão até o teto. Na outra, uma porta fechada.
- Onde é essa porcaria de restaurante? – decidi quebrar o silêncio.
Já íamos saindo quando a porta se abriu e uma bruxa simpática senhora sorriu para nós:
- Sejam bem-vindos.
- Até que horas vocês funcionam?
- Até o último freguês.
No caso, isso deve ter sido em 1938.
- Obrigada, voltamos depois.
E saímos de pinote.
Andamos até o terminal de barcos, onde eram vendidos passeios pelo afluente do Rio. Uma moça nos explicou o esquema:
- Existem vários passeios. Dá para fazer o passeio completo por todo o afluente, que custa $ 150 pesos…
- Sem chance…
- …dá para ir até o meio do caminho e almoçar em um restaurante por $12 pesos o trajeto, mais o preço do cardápio daquilo que escolher para comer.
- Hmmm… E se a gente quiser comer por aqui e passear até o restaurante por $12, mas não comer nada?
- Impossível. O que eu tento vender aqui é a refeição no restaurante.
- Podemos ver fotos do lugar?
- Claro que não!
- Então a gente vai ali pensar e já volta.
A fome falava bem alto e achamos um lugar por ali mesmo, com uma comida deliciosa e um preço salgado. Depois fomos andar pela estação Delta para procurar o que fazer, mas não havia nada, definitivamente.
(…)
Sentamos em um banco de uma praça e pensamos por duas horas o que caraleos fazíamos ali. Sem chegar a nenhuma conclusão, decidimos pagar pelo passeio mais barato para navegar por aquele mini-tietê. Mas os barcos pareciam agradáveis e razoavelmente seguros.
- Olha, tomara que seja aquele o nosso barco – apontei para o iate mais bonito, maior, pheeno, tipo o do Antenor da novela das 8.
- Não, amor. O nosso é aquele ali.
Parecia uma carroça sem rodas. Fiquei mais aliviada quando vi os coletes salva-vidas debaixo dos bancos de madeira, datados da época de nascimento daquele velhinho do restaurante italiano fantasma.
Algumas pessoas nos acompanhavam no trajeto, mas nenhuma delas parecia passear. Um era o entregador das cartas para as famílias ribeirinhas, outra era uma senhora carregada de mantimentos da legião estrangeira, outro era um pescador, um era médico da cruz vermelha. Todos ali moravam na beira do rio barrento, ou faziam caridade.
Só eu e Dani optamos pelo passeio, de uma hora ida, mais uma hora volta. Nos primeiros dez minutos, casas velhas e lama. Nos dez seguintes, casas velhas, lamas e canoas. Meia hora depois, mais casas velhas, restaurantes falidos e lamas. Alguns cachorros velhos abandonados, beirando o Delta.
O ápice do passeio foi quando um romântico arco-íris se formou nas águas turvas do rio, graças à quantidade de óleo e outros combustíveis que saíam dos barcos.
Uma hora depois, um senhor discretamente gritou dentro do barco onde as pessoas dormiam amontoadas:
- QUEM FOI O OTÁRIO QUE PAGOU PELO PASSEIO DE UMA HORA???? QUEM?????
Eu morri de vergonha de levantar a mão e o Daniel também. As pessoas nos olhavam como extraterrestres, mas era pagar o mico e assumir que fez a cagada ou continuar aquela tortura. Sei lá quem foi que disse e eu concordo: navegar não é preciso.
Até que, fazendo o mesmo trajeto na volta, chegamos ao porto do Delta. E corremos para o trem de La Costa porque pelo-amor-de-deus-me-tira-daqui. A diversão que restou era rir de cada turista que desembarcava no Delta, empolgado com a idéia de andar de barco.
A única estação que decidimos conhecer de pertinho foi San Isidro, a mais famosa por abrigar um centro de compras. Na verdade, um mini-shopping colado à estação, onde as coisas são caras e os jovens milionários passeiam tranqüilamente com seus uniformes escolares.
Depois, caminhamos pelo bairro, conhecemos a catedral e alguns hippies-chiques que vendiam bugigangas em uma pracinha. Posso estar errada, mas a impressão que me deu de todo esse lugar é que ele é habitado por multimilionários que fugiram da violência e dos mendigos do centro de Buenos Aires para criar seus filhos em bairros afastados e pouco povoados. Ou seja, nós tínhamos turistar em um lugar equivalente a Granja Viana.
Quando paramos na estação Maipu, não agüentávamos mais toda aquela baboseira de Delta do Tigre, trem e metrô, então decidimos ir andando até a Avenida Santa Fé, onde já tínhamos ido por causa da maravilhosa livraria El Ateneo.
Aqui fica uma dica importante: a El Ateneo mantém algumas lojas, mas a que funciona em um antigo teatro, lindíssima e cheia de detalhes, fica na Santa Fé.
Perguntamos para um pipoqueiro se estávamos longe da Avenida.
- Se forem andando, fica a uns três dias daqui…
Então decidimos pegar um ônibus apenas com um mapinha nas mãos. No itinerário de um estava escrito Plaza Italia e a tal praça aparecia no nosso mapa, bem na beiradinha.
Como eu já disse, lá os ônibus são pagos por trajetos. Você informa ao motorista onde descerá, ele te diz quanto é, você deposita as moedas em uma máquina, clica na quantia que o homem te disse, espera o troco, pega o papelzinho e procura um lugar para sentar. Tudo isso deveria ser feito em segundos, mas o Daniel se atrapalhou um pouco e eu fui procurar um lugar para sentar porque já estava com dor nas pernas de tanto esperar em pé.
Uma hora depois e nada da Praça Itália. Esse Delta do Tigre devia ser na Zona Leste de Buenos Aires. Quando entramos no começo da Avenida Santa Fe, tivemos um insight: e se bancássemos os espertalhões e não descêssemos na Praça coisa nenhuma, já que ela ficava no final da Avenida e depois teríamos uma longa caminhada até o começo dela, próximo ao centro da cidade? Seria ótimo ir de ônibus e ainda por cima de graça.
Só que a mamãe me ensinou honestidade e a mãe do Daniel fez a mesma sacanagem com ele. Não descemos na Praça Itália e tive a impressão de ver o motorista olhando para nós dois pelo espelho retrovisor:
- Ai, Daniel. Ele olhou feio para a gente.
- Vou lá colocar mais moedinhas e dizer que a gente se confundiu.
- Não, espera… Se ele olhar de novo, você vai.
No quarteirão seguinte, ele olhou pelo retrovisor novamente:
- Vou lá colocar as moedinhas e pedir desculpas.
- Não, Daniel. Espera mais um pouquinho porque nessa brincadeira já ganhamos dois quarteirões. Se ele olhar de novo você vai…
E mais um quarteirão depois, o motorista olhou novamente:
- Agora chega. Vou lá dar 100 pesos para ele e pedir perdão.
- Vocês não vão descer? Aqui é o ponto final – perguntou o motorista.
- Ah…
Então descemos, com a consciência mais tranqüila de quem não tinha feito nadica de nada de errado. Mais um quarteirão e a adrenalina seria tanta que não conseguiríamos dormir.

A livraria El Ateneo da Av Santa Fé era um teatro. Belíssima
Diário de viagem – sábado
Como íamos ao Uruguai no domingo, sobrou o sábado para fazer compras a fim de presentear a família e acabar com a carência do filho que já estava há quase uma semana sem a mãe desnaturada. Portanto, o meu sábado renderá apenas dicas para quem, assim como eu, gosta de bater cabelo na 25 de março.
Buenos Aires é realmente especial para brasileiros consumistas, principalmente em época de dólar baixo e peso humilhado. Além das vitrines exibirem roupas de fino garbo, na frente dos preços não existem aquelas desagradáveis surpresas em letras miúdas: “12X de $100”. Sorte nossa os argentinos não serem bons de multiplicação.
É possível comprar mantôs de veludo, por exemplo, por $60, o equivalente a R$40 (isso se eu não levei o último). Para os homens, blusas de lã por $40. Isso fora dos shoppings, mas, ao contrário de nós paulistas, os portenhos não parecem ser obsessivos por shopping centers. Lá, as lojas de rua são as que fazem um grande sucesso.
Calle Florida
A Calle Florida está no centro da cidade, bem próximo ao bairro de San Telmo, onde ficamos. É o lugar ideal para comprar cds, livros e óculos escuros, embora também existam lojas de roupas e outras quinquilharias.
Quando foi lançado aqui, o CD Introducing Joss Stone, da cantora de mesmo nome, estava R$60. Lá, comprei por 19 pesos. O Lunatico, último do Gotan Project, aqui está R$69,90 e eu paguei $22 (tenham sempre em mente que o peso vale menos do que o real). Coletânea dupla do Gardel, $20. Os melhores de Julio Sosa, $20. Os tangos mais ouvidos do mundo, $15.
Paguei $15 por cada livro de cartoon do Quino. Livro novo, em livraria mesmo, mas os sebos de lá são bem interessantes. E $20 em um par de óculos escuros em uma loja equivalente a Chilli Beans.
Para comprar roupas esportivas, a Calle Florida também é a melhor pedida, tanto as originais, quanto as piratas. Existe uma coleção sensacional de camisetas sobre o Maradona, que vende aqui também, mas lá elas são bem baratas. Apesar de quase todos os lugares venderem camisas de times internacionais, não vi nenhuma brasileira: nem do Corinthians, nem dos bambis, nem da porcada.
Av. Santa Fé
Além dos cafés maravilhosos, a Avenida Santa Fé é o lugar ideal para comprar roupas. Lá estão alguns dos famosos outlets de marcas como Puma, Nike, Adidas, mas, sinceramente, apesar de serem mais baratos os produtos, não vejo nenhum atrativo em comprar essas marcas com tantas outras possibilidades. É como ir para a França e ao invés de jantar em um bistrô, comer no Mc Donald’s.
A avenida Santa Fé é gigante. Começa no centro e termina em Palermo Soho. Durante todo o trajeto, existem lojas de roupas, sapatos e brinquedos. Comprei para o Lucas três caixas de playmobil a preço de banana, comparado com aqui.
No meio da avenida, existe uma galeria que é uma mistura de Ouro Fino com Galeria do Rock, onde se encontram os emos, os rockers e toda a molecada “moderna” da capital Argentina. Eu e Daniel, caretésimos, decidimos entrar no lugar e todos nos olhavam como ETs. Mas descobrimos coisas sensacionais como, por exemplo, a moda em Bs As de usar aquele piercing na lateral da boca que mais parece uma pereba.
No subsolo dessa galeria existe uma loja dos Barra Bravas que exalta a violência das torcidas de times de futebol do mundo todo. Camisetas pedindo pancadaria, dizendo que futebol é coisa de macho e que matar por amor a um clube é absolutamente normal. Entrei para ver se tinha algo de alguma torcida organizada brasileira, mas só encontrei um adesivo do Grêmio. Saí de lá carregando um namorado horrorizado por tanto fascismo.
A feirinha da Recoleta
Acontece nos fins-de-semana e reúne os artesãos da cidade na praça em frente ao cemitério. É tudo trabalho manual, o que faz triplicar o preço de um brinquinho. Eu não consegui comprar nada na Recoleta, o que é um verdadeiro milagre. O Daniel comprou uma galinha maluca para pendurar em sua sacada e um agasalho vermelho porque estava um frio dos diabos.
Aliás, a senhorinha que vendeu o agasalho para o Daniel só faltou me pedir em casamento:
- Não se vê mulheres bonitas assim hoje em dia.
- Meu filho conseguiu arranjar uma namorada, mas não passa nem perto da sua beleza.
- Que mulher bonita você tem, Daniel.
- Agarre essa mulher porque será difícil de encontrar uma dessas hoje em dia.
Aí ele comprou o agasalho e ela parou de elogiar.
A feirinha de San Telmo
Ocorre de domingo, mas no sábado alguns artesãos se reúnem na Plaza Dorrego, na esquina da Rua Defensa, com a Humberto Primo. Ao redor da praça estão diversos restaurantes com Tango ao vivo e refeições baratas.
Vale a pena passar no Mercado de San Telmo, construído em 1891. As banquinhas parecem ser super tradicionais e vendem tanto carne, pão e doce-de-leite; quanto roupas usadas, novas e antiguidades. Na banca da Dona Aurora, três senhorinhas tricotam e crochetam roupinhas de nenê para vender ali na hora. No Mercado também vale comprar chapéus clássicos, panamenhos, boinas e toucas.
As lojas para turistas
Elas estão espalhadas por todos os lugares e não são nada baratas, como tudo o que é reservado para turistas. Mas é só nelas que é possível, por exemplo, encontrar camisetas e bonequinhos da Mafalda, miniaturas de La Bombonera, quadrinhos do Caminito e outras coisinhas caprichadas feitas para agradar tios e tias.
As adegas
Entre, visite, anote os nomes dos melhores vinhos e não compre nada. Os vinhos e outras bebidas alcoólicas devem ser comprados no supermercado. São os mesmos por preços ridiculamente mais baratos. Claro que é nas adegas que existem as bebidas mais difíceis de encontrar, mas, assim como eu, você nem sabe do que se trata, então não fará a menor falta na sua vida. Vinho de boa marca e barato é no mercado!




70 respostas Até agora ↓
Leonor // 3 Abril, 2008 às 9:31 am
teste
Angelo // 8 Maio, 2008 às 6:33 am
Nusssssss, dei mta risada com seus comentarios.
obrigado pelas dicas.
Ricardo // 15 Maio, 2008 às 9:51 pm
Muiito legal suas dicas, to indo com minha lover dia 22 agora e se der pra fazer metade já vou ficar feliz!!!
Lucilla // 16 Maio, 2008 às 12:05 am
leonor vc e uma figura!!!! Daniel como vc aguenta….hahahahhah
Flávio // 25 Maio, 2008 às 6:49 pm
Leonor, conhecerei BsAs daqui a uns 15 dias e de tudo o que li na web, o que voc6e escreveu foi o mais informativo e divertido. Ri alto dentro do quarto e o povo da sala pensando se eu tinha surtado na véspera de gastar meus parcos dólares.
Hmmm… se tiver algumas dúvidas específicas posso lhe escrever? É que pobre é assim, tudo tem que dar certo senão só em 2010…
Abração.
Leonor // 27 Maio, 2008 às 12:36 pm
Oi, Flávio. Pode escrever sim! O e-mail está ali no canto da página, bem em cima.
Beijocas
jarbas // 27 Maio, 2008 às 3:28 pm
gostei das suas dicas e do seu jeito de ver buenos aires
Thiago Ottaviano // 27 Maio, 2008 às 10:59 pm
Leonor,
Divertido é a palavra que relata, nos textos, a sua viagem.
Gostei bastante e vou usar algumas dicas daqui há 2 semanas quando irei para lá com minha namorada e um casal de amigos.
Gostaria de tirar umas pequenas dúvidas, posso escrever?
Obrigado.
MARSAMROC // 1 Junho, 2008 às 10:47 pm
Escrevi sobre Pesquisar antes de viajar e coloquei seu blog como fonte de referência.
Flávia // 5 Junho, 2008 às 4:33 pm
Oi!
Muito bom!! Adorei os teu blog.
A maneira como tu escreveu, ficou muito divertida, dei muita risada imaginando as cenas!! Tô indo pra lá em julho!!
Bjs
Simone // 5 Junho, 2008 às 7:10 pm
Oie!!!!! Meu adorei sua descrição de Buenos Aires. To indo pra lá daqui algumas semanas.
Você pode me dizer o nome do hotel/hostel/albergue what ever que vc ficou lá?
Beijo
Guilherme Pires // 10 Junho, 2008 às 8:45 pm
Muuuito bom e informativo…e muito engraçado…
estou indo para lá no dia 20 de julho e aluguei um apê (studio) por 413,00 dolares…muito bom o preço viu…vamos eu e minha namorada…
valeu pelas dicas, serao muito uteis..
e às pessoas que tb vao p lá em julho, se quiserem se corresponde para tomarmos uma cerva ou um bom vinho por lá sintam-se à vontade… encoregui@yahoo.com.br
abraços…
Sandra Medeiros // 17 Junho, 2008 às 7:32 pm
Leonor, vc é incrivelmente divertida. Estou indo A BsAS próxima semana e, sinceramente, vou lembrar do que vc escreveu… dei muita risada! Vou ficar bem longe dos pintores e dos velhinhos… huauuauauau… valeu!
Leonor // 17 Junho, 2008 às 10:23 pm
Oi Simone, fiquei no Ayres de San Telmo. Tem página na internet, dá uma fuçada no google.
Obrigada pelos comentários, pessoal. Boa viagem para quem vai. E quem quiser mais dica, pode escrever para subversiva@gmail.com.
Beijos
Suzi // 12 Julho, 2008 às 3:01 pm
Leonro, que pena que só hoje descobri o teu blog. Estou partindo para Santiago e Buenos Aires amanhã de manhã e estou numa tremenda correria… Vou ficar num apart, em Bs.As. e foi pesquisando comentários sobre o hotel que caí aqui. Dou pouco que li (ainda não cheguei no diário) já me torci de rir, aqui. Vou tentar colocar a leitura em dia hoje, ainda, mas já vai pros meus favoritos e, nem que seja na volta, eu leio tudo. E aí, como se há de esperar… vou me maldizer por ter feito coisas que você já deve avisar aqui que JMAIAS devem ser feitas… Mas aí fica pra próxima.
Show, seu relato! Além de tudo, um show de diversão!!!
Grande abraço!
Antônio Brun // 13 Julho, 2008 às 11:47 pm
As dicas foram boas, mas não tanto quanto os bons momentos de leitura. Você tem algum livro de crônicas? Se não, deveria escrever um. Eu o compraria (e leria) com prazer. Quanto as dicas, a mais interessante é a de onde não devo ir ( Delta do Rio Tigre ). Valeu!!!
andrea // 25 Julho, 2008 às 11:28 pm
oi, leonor.. nossa, vc descreveu exatamente o q senti em buenos aires a 2 meses atras.. a nao ser a loja de brinquedos.. aonde vc achou playmobil barato? vc se lembra? tenho um filho afccionado por dinossauros e esta coleçao esta carissima aqui,, como vou a buenos aires novamente agora, gostaria de saber a loja… obrigada
DEUSIANE // 13 Agosto, 2008 às 4:42 pm
Noooooossa! Vc é espetacular! A sua redação é excelente, começo, meio e fim. Vc já pensou em lançar livros? Seria sua fã nº1.
Parabéns.
Erick // 13 Agosto, 2008 às 9:03 pm
Leonor curti muito o seu blog. Descobri seu blog pela minha irma pouco antes de ir para Buenos Aires. Todos em casa somos corinthianos e vivemos as mesmas situaçoes em La Boca. Conheci o Franco e de 5 conto pra ele que queria uma nota de R$ 10 (ai nao deu né), quase fui estuprado por uma dançarina de Tango tb rsrsrs. Parabens pelos contos e todos em casa viramos seus fãs !!!!! Qualquer coisa me escreva ou add no Orkut (Erick Pio) na foto to com o uniforme da gavioes !!!!! Abrs
Clívia // 9 Setembro, 2008 às 6:30 pm
Leonor parabéns!!!! Vc tem que publicar seus textos. Adorei as dicas, a texto prende a gente a cada linha.
Estou indo a Buenos agora em setembro.
Vc pode me dizer como faço e o que é preciso p/ ir de Buenos ao Uruguai?
Obrigada e parabéns mais uma vez.
Erika // 12 Setembro, 2008 às 10:15 pm
Estou fazendo uma pesquisa sobre a cidade que pretendo visitar (estive lá em 1994) e achei dicas interessantes aqui. Só uma coisa, Bambi é o *!?{+))(*¨!!!!!
Paulo Gaúcho // 13 Setembro, 2008 às 5:41 am
Gostei muito do seu texto.Não conheço Buenos Aires,por isso estou viajando p/lá em Outubro.Guardadas as proporções,nós gauchos temos muitas coisas em comum com o povo argentino, basta ver nossa história e nossos costumes.Até no futebol somos bem parecidos.Valeu pela dica do passeio no Rio Tigre.Já tinha visto falar que é perda de tempo,pois B.Aires,dizem, tem muita coisa p/ver.
Alyssa // 13 Setembro, 2008 às 6:03 pm
Oiiiiii !!!
adorei seu blog
estou indo pra BsAs na sexta que vem, toh muito ansiosa, louca para realizar esse sonho de conhecer a capital portenha, queria poder te fazer umas perguntas, será que vc poderia me mandar seu e-mail, ou me add no orkut eh , Alyssa Minto e o e-mail alyssaminto@hotmail.com. Vlwww.
Gabriela Melo // 20 Setembro, 2008 às 11:57 pm
Leonor,
Me diverti muito lendo suas dicas e seu diário! Muito bom mesmo…parabéns! Vc escolheu a área profissional certa!
Ganhei uma viagem à Buenos Aires do meu irmão, que irá me acompanhar…vamos aproveitar e assistir ao show da Madonna! Sou louca pela Diva! Como vc deve saber foi mais fácil conseguir ingresso lá que aqui no Brasil…estou ansiosa mais pelo passeio que pelo show…
Seus relatos estão sendo super importantes para o meu planejamento, obrigada.
Se for possível ter sua opinião sobre que região me hospedar, ficarei muitíssimo grata! Estou olhando alguns hotéis no centro, próximo ao Obelisco, Calle Florida e Plaza de Mayo e, tb algumas opções de Hotel Boutique em Palermo Soho…
Pra vc me conhecer um pouquinho e deduzir o que faz o meu tipo:
Tb sou da sua área, mas minha habilitação é Relações Públicas…tenho 34 anos, sou casada e sem filhos (gente no caso, pois trato meus cães – 5 no total, como tal)…sou goiana de nascimento, mineira de coração e manezinha de residência, já que moro em Floripa (e vc está convidada para vir à Ilha da Magia!)… como vc, tb essa será minha primeira viagem internacional! eh… pobre é foda!
Meu irmão, companheiro de viagem além de patrocinador, é claro…mora em Brasília…tem 29 anos, é biomédico…e cachaceiro…só pra vc ter idéia ele esteve em Buenos Aires durante 15 dias o ano passado e não conseguiu fazer nenhum passeio turístico, muito menos me dar dicas como as suas!Ficou hospedado na casa de uma amiga brasileira e acredito eu, conheceu todos os bares, botecos, boates e similares da capital portenha…em relação a dicas noturnos estarei muito bem siceroneada…mas é só…o maluco só trocou a boemia de Brasília pela de Buenos Aires…sequer bateu uma foto…ah! tb vou precisar comprar muitos presentinhos…pro marido, sogro e sogra, vizinhos, amigas e colegas de trabalho…além de estar eufórica com o free shop…
Sou louca por maquiagem, perfumes e óculos escuros…se tiver boas dicas, por favor…
Chega, né! Isso já tá profissional…me manda a conta…
Beijos mil…e o convite de Floripa tá valendo!
Allan // 26 Outubro, 2008 às 10:48 am
hahahaha..não aguento mais de tanto rir…
Parabéns pelo blog e pelo retorno a primeira divisão, Leonor. Mande um abraço para o Daniel tb!!! Saudações rubro-negras!!
Carlos Lima RJ // 13 Novembro, 2008 às 1:28 pm
Achei impressionante o seu blog, Leonor. Meu nome é Carlos, tenho 32 anos, sou carioca e rubro-negro. Parabenizo você pela volta do Coringão à Série A. Estavam fazendo falta…
Estou indo para Bs.As. no próximo dia 25 e estava buscando informações e dicas, quando deparei-me com seu blog. Simplesmente sensacional. Poucas vezes ri tanto! Fora isso, as dicas estão muito boas. Por exemplo, desisti de fazer o passeio do Tigres.
)
Valeu! Bjs e Saudações rubro-negras!
Pâmela // 24 Novembro, 2008 às 11:04 am
Nossa!! seu senso de humor me fez ler a página inteira, e olha que eu nem gosto de ler. =)
To indo pra lá próximo dia 9, e pelo jeito a cidade é maravilhosa!!
o blog é ótimo e a estória perfeita!
abraços
Yano // 2 Dezembro, 2008 às 3:47 pm
Muito bom o seu blog ! Parabêns. Vc escreve muito bem.
Estou indo para B.A na semana que vem e gostaria de saber, na sua opinião, o melhor local para fazer compras ? Estou interessado em comprar roupas,perfumes e óculos e mais um monte de artigos pessoas indispensáveis. rsrs
A Av. Calle Florida é realmente o lugar mais em conta para satisfazer o meu instinto capitalista ?
Sidney da Silva Santos // 3 Dezembro, 2008 às 6:22 pm
Não é tão assim os banheiros de Buenos Aires, aliás, não vi nenhum banheiro sujo quando estive lá.
Vou indicar um site que tem mais dicas de Buenos Aires.
no site http://mibuenosaires.wordpress.com/ tem diversas informações sobre Buenos Aires.
Maria Carol // 8 Janeiro, 2009 às 3:55 pm
Adorei seu blog…….estou fazendo uma pesquisa para ir a Buenos Aires nas minhas ferias em Fev de 2009….vc tem orkut ???….Ah vale lembrar que vc realmente deveria escrever livros,pois escreve muito bem.bjs
Claudia // 17 Janeiro, 2009 às 12:59 am
Adorei suas dicas! Quero voltar pra Bue e conhecer alguns lugares que não fui, o estádio estava fechado e não tive a menor vontade de conhecer o zoológico.
Daniel // 17 Janeiro, 2009 às 5:56 pm
Seu relato de viagem, embalado num texto bem-humorado, deliciosamente escrito e prazeroso de se ler (casualmente encontrado antes de minha viagem a Buenos Aires), veio constituir-se numa verdadeira vacina anti-mico, proteção vital para uma viagem turística rápida. De tudo o que foi dito, apenas um senão em relação a você, o seu pecado original – já perdoado – de ser adepta do time da Marginal (do Tietê), Que o Daniel possa suportar esse defeito em função de suas inúmeras qualidades!
Maykson // 26 Janeiro, 2009 às 2:43 am
Gente! Incrível! Não tem quem leia isso e não ria muito, dê gargalhadas como eu dei aqui!
Ótimo!
ozana // 26 Fevereiro, 2009 às 8:24 pm
Eu marido e 2 filhas estivemos lá em julho/08, e realmente seus relatos são perfeitos, dei muita risada!! agora em março voltaremos sem as filhas e com um casal de amigos, com certeza estaremos mais experientes e mais espertos!! bjs
Luan // 10 Março, 2009 às 11:32 am
faltou falar da parte gay de BA q tantoo falam…auahuahaa
…depois de td q eu li, agora mesmo q eu vou é me mandar é pra Bariloche direto!!!!
Mell // 14 Março, 2009 às 7:07 pm
decidi agora depois de ler todo o seu diario q vou a Buenos nas férias…kkkk
IZABEL ALMEIDA // 25 Março, 2009 às 12:33 pm
Que lindo.Parabéns.Sabe?Meu sonho é ir a B.Aires,mas acho que vou morrer sem visitar lá.Toda vez que arranjo um dinheirinho pra ir,tenho que usar com despesas de casa.Me sinto uma infeliz.Sou apaixonada com os argentinos.Falo por email,mas é só.Me tratam muito bem.Não quria morrer sem realizar este sonho. Pelo que vc.contou é lindo.Visito tbém pela Internete toda a capital B.Aires. Suas histórias são muito engraçadas. Beijos.
Leandro // 8 Abril, 2009 às 10:05 pm
Parabéns pelo diario.
Tô indo agora em junho com a namorada e será bastante útil suas dicas, favoritei aqui no meu pc.
Bjs
Bruno Roque // 14 Abril, 2009 às 9:22 pm
Parabens Guria! Sou de Natal e voce escreveu um otimo texto, estou indo para lá dia 11 de junho desse ano. Estou indo com minha familia e namorada. Estou ancioso!
Até
Maria Fernanda giardelli // 22 Abril, 2009 às 1:28 pm
Oi Leonor…Mto legal os seus comentários…
Sou de Valinhos e estou indo pra buenos em julho, onde fica exatamente esse zoo q vc foi???
bjo
Amanda // 22 Abril, 2009 às 6:33 pm
Eu e meio mundo de brasileiros pobres e lisos (como dizemos aqui no Nordeste) estão aproveitando as milhas do Smiles e viajando até Junho! De tudo que venho lendo sobre Buenos Aires, essas dicas foram sem dúvidas as mais divertidas e informativas.
Beijos.
Rosiana // 28 Abril, 2009 às 12:06 am
Leonor,
Seu relato foi ótimo e diga-se, muito bem escrito.
Voltamos de BAs há 14 dias e agora encontrei o seu blog – depois da viagem.
Os fatos conferem. Passamos por situações similares. Discordo dos banheiros imundos, quer dizer, em geral a cidade superou as expectivas em termos de sujeira, mas os banheiros que usei, até que não foram ruins (chii, acho que não foram mtos além das Galerias Pacífico!).
Nas demais descrições assino embaixo.
Abraço!
Larissa // 2 Maio, 2009 às 12:10 pm
oi, vc lembra a loja que vc comprou o playmobil pro seu filho?
LENISE // 5 Maio, 2009 às 9:45 pm
Bravo! Eu dei muiiita risada. Voce escreve muito bem. Estou aindo a BA com meu marido em junho e tambem vou dar uma de mae desnaturada. Me identifiquei total com voce. Adoro viajar.
Debora // 14 Maio, 2009 às 3:53 pm
Oi Leonor, amei seu diário, mto interessante!
Tb sou fã de futebol, e quero mto ir num jogo…
Mas, vou sozinha, e queria saber se vc tem alguma dica p/ quem viaja alone.
Beijos.
Debora // 5 Junho, 2009 às 12:51 pm
Olá irei amanhã para Bariloche e Buenos Aires, onde posso comprar perfume mais barato que no Duty Free?
Obrigada!
Débora
Zilma Matosl // 8 Junho, 2009 às 11:16 pm
Oi !
achei o seus comentarios espetacular muito divertido dei muita rsrsrsrsrsrsrrrs, é fantastica p. escrever , vou a B.Aires e quero me divertir muito assim como vc fez.
valeu foi muito importante .
gde. abraço
Marcelo // 15 Junho, 2009 às 11:35 pm
Estou em Buenos Aires. Cheguei hoje e nunca tinha vindo pra cá. Vim sem muito planejamento. Ao procurar coisas bacanas sobre o local, encontrei este site no google. Rachei o bico com as “tiradas” no zoo e outros lugares (mesmo sendo são paulino, a dos bambis foi boa vai)
Abraço
Paula // 24 Junho, 2009 às 6:58 pm
Você é muito enjoada mesmo crédo! Só o tal do Daniel pra te aguentar mesmo…se é que ele não desistiu ainda!
Nossa menina! O ceu é azul e o sol nasce todos os dias! Acorda!
Débora // 30 Junho, 2009 às 1:31 am
De onde essa tal de Paula tirou isso???
Ricardo // 15 Julho, 2009 às 1:07 am
Muito boas suas dicas !
Assim como seus comentários, seu humor e seu jeito de escrever.
Espero utilizar suas dicas qdo estiver por lá.
Voltarei mais vezes em seu blog…
Um grande abraço
Heloisa // 29 Julho, 2009 às 3:49 pm
Leonor,
procurando informações sobre BsAs cheguei ao teu blog. Adorei ler todas as dicas, principalmente pela forma como elas foram apresentadas, simplesmente, DIVERTIDÍSSIMA!
Adorei.
Só senti falta das dicas de hospedagem, se voce pudesse acrescenta-las…
Abraços
Rafael Ratto // 29 Julho, 2009 às 9:38 pm
Muuuito bacana seu relato!
Estou criando meu blog nesse momento sobre a viagem que fiz a Bs As tbm, e digo que RÍ na parte da “agua barreta em Tigre”…pois tbm nao acredito que perdi tempo com aquilo kkkkkk!!!
se quiser tc está aí meu email/msn, abração!!
Mauricio // 18 Agosto, 2009 às 9:12 pm
Parabéns!! Vc escreve muito bem. Fez me rir muitoooo e olha que não estou nos melhores dias! Vou a B.A. no inicio de setembro e vou me atentar as dicas e furadas relatadas por vc. Um Grande Abraço. Mauricio
Ah! Sou corintiano também.
Val // 23 Agosto, 2009 às 12:32 am
Me acabei de rir com teu relato… kkkkkkk… vc escreve muito bem, me prendeu a cada linha que vc escreveu… estarei indo inicio de Setembro com meu namorado, quero ir ao Parque De La Costa, o que vc acha? esperamos nos divertir assim como vc… bjs
Alexandre Neves // 28 Agosto, 2009 às 12:13 pm
ADOREI !!!!!! Tô me acabando de tanto rir… Vc realmente deveria escrever um livro…parabéns! Sortudo do Daniel…
… quem sabe eu não encontre por lá, em férias, os recheios das empanadas… daquelas, que tiham feito as malas e ido ao Uruguai!
Valeu pelas dicas, e com elas, acabo de tomar uma decisão muito importante :O passeio ao Delta do Tigre será cancelado!!! Aliás… talvez eu cancele a viagem toda, e vá passar esses dias em Valinhos…
Obrigado pelo texto delicioso…Comecei bem a minha manhã de sexta-feira!!! Em alto astral…
Drimesmo // 29 Agosto, 2009 às 4:31 am
vc eh fodastica e vai corinthianssssss
Wislen // 23 Setembro, 2009 às 4:23 pm
Show de bola as suas dicas, em breve estarai por lá e com toda certeza irão me ajudar bastante!
Grande abraço ; ]
Alex // 7 Outubro, 2009 às 12:49 pm
Leonor,
Adorei as suas história , vc é ilaria, estou indo agora 30/outubro, adorei as suas dicas…abração…
Giselli // 21 Outubro, 2009 às 1:09 pm
Leonor…
Adorei seu blog….puxa vida…descobri ele ontem….e enquento ão consegui terminar de ler…ñão consegui parar!!!rs rs rs
Obrigada pelas dicas….eu e meu marido estamos querendo ir pra lá agora em novembro…
beijos
Morgana RJ // 21 Outubro, 2009 às 11:45 pm
S E N S A C I O N A L rolei de rir lendo seu diários e o cerco ao pavão hilário. Super obrigada pelas dicas!! Estarei lá daque a semanas, já tinha incluido o passeio do tigre no meu roteiro, acho que vou abortar a missão, será que comprando o passeio em agencia, indo com grupo o perrengue é o mesmo? Sabe como é né turista quer fazer tudo o que é turistico hehe. Vc chegou a ir ao Uruguay?
Beijos
Giselli // 23 Outubro, 2009 às 10:48 pm
Oi Leonor…
Eu de novo…rs rs rs
É que vc falou do passeio até o Uruguai no início…e não falou mais no blog…!!
Vc pode me dar mais informações sobre ele…tipo? qto tempo de travessia? De onde sai? Em que cidade do Uruguai ele para?
Te agradeço infinitamente!!
E se vc puder me ajudar,,,será ótimo!!
beijinhos!!
Morgana RJ // 25 Outubro, 2009 às 10:35 am
Oieeeee Leonor tb quero saber sobre o Uruguai quero passar um dia lá, no lugar o falecido passeio ao Delta rsrsrsrsrs, como a Gisele tb estarei lá em Novembro.
Rosana // 27 Outubro, 2009 às 1:33 am
Leonor, entrei na web para saber como estava o clima em Buenos Aires pois estou indo para lá no sábado, por acaso encontrei seu blog, olha são 1:30 da madrugada e não consegui parar de ler, reafirmo alguns comentários de que vc deveria escrever um livro, sua maneira de escrever é cativante, me prendeu e estou recomendando para minhas filhas pois vamos juntas e quero compartilhar com elas as suas dicas. Parabéns e espero que vc e o Daniel estejam juntos até hoje e que vc esteja muito feliz com o Ronaldinho no seu time. Um abraço.
Giselli // 28 Outubro, 2009 às 10:42 pm
MORGANA!!!!
TB SOU DO RIO….QUE DIA VC VAI PRA LÁ?
SE QUISER ME MANDA UM EMAIL, PRA GENTE TROCAR IDEIAS…
GISELLIBRITO@HOTMAIL.COM
Eugenia Rodrigues // 29 Outubro, 2009 às 2:50 pm
Leonor, sensacionais suas dicas. Viajo amanhã e vou aproveitar tudo. Seu jeito de escrever tb é 10. Beijocas.
CATIA // 29 Outubro, 2009 às 4:35 pm
Olá flor !!! Já gostei de ti por ser CORINTIHANA !!!!
AMEI seu relato…….realmente bem minucioso….
Irei em Janeiro 2010 conhecer Bueno Aires…e já anotei suas dicas !!!
Como disse um outro leitor acima….vc deveria sim escrever um livro…..foi fascinante a leitura…..viajei na historia, como se eu msm estivesse presente…
bjks
Emerson soares // 29 Outubro, 2009 às 9:01 pm
Ronaldo!!
Brilha muito no corinthians!!
Simplesmente o melhor texto sobre buenos aires que existe na net!!
Parabens….
Dia 17 vou pra la e vai ser de imensa utilidade tuas dicas!!
Helton Bernardes // 30 Outubro, 2009 às 11:40 pm
Gostei muito do que li aqui.
Devo viajar em janeiro para Bs As e estou ávido por informações.
Vou aproveitar muito suas dicas (divertidíssimas, por sinal!).
Abraço.
Maria // 6 Novembro, 2009 às 1:28 pm
Dicas muito boas e humor melhor ainda