
Por um par de pernas
JUNO – Mimado: o filme da adolescente que engravida concorre a quatro Oscars. Castigo: muita expectativa pode estragar o que ele tem de divertido
Rafael Barion
Foram as pernas aí ao lado – combinadas a uma poltrona confortável e à gravação certa de Astrud Gilberto – que fizeram Juno perder a virgindade e ganhar a barriga ali de baixo. E são unhas, você vai ver, que farão com que ela leve a gravidez adiante e procure o casal ideal para adotar o bebê.
Juno, a personagem, tem um problema, portanto – mas Juno, o filme, tem um ainda maior. Como uma criança mimada, a história da adolescente bem-humorada que engravida de um colega de classe sofre por excesso de atenção. Desde que estreou nos cinemas americanos, no ano passado, o longa de Jason Reitman (de ‘Obrigado por Fumar’) foi tão comentado – e elogiado – que ganhou uma fama de filme grande que provavelmente não imaginava ter de sustentar.
Assisti-lo, portanto, vai deixar você decepcionado. E isto é uma pena, pois ainda que ‘Juno’ possa não merecer o Oscar de melhor filme a que está concorrendo, também não merece ser uma decepção. Faça, então, um favor a ele (e a você mesmo): trate-o como um filme qualquer.
De início, esqueça todas as páginas de jornal e textos na internet que lhe foram dedicados nos últimos meses – se não os leu, não vá fazê-lo agora. Desconsidere as quatro indicações ao Oscar que recebeu (e principalmente a estatueta que a blogueira Diablo Cody vai ganhar pelo roteiro). Se for difícil recusar os convites para assisti-lo neste fim de semana, antes da premiação, diga que precisa rever ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ ou ‘Sangue Negro’, sob o pretexto de que são eles os favoritos. E dê as costas a quem se importa em discutir se o filme é melhor do que ‘Pequena Miss Sunshine’, a comédia bem-sucedida de 2007.
Depois disto, escolha uma sessão no horário que mais lhe agrade e, por favor, vá assisti-lo. Pois aqui entre nós (e tente não espalhar isto para muita gente), ‘Juno’ é um filme bem simpático. E não é só porque o personagem de Ellen Page é a melhor amiga que todo garoto gostaria de ter tido na escola. O longa tem coadjuvantes com leveza de espírito suficiente para responder à altura a todas as frases sarcásticas da garota. A franqueza destes personagens pode até fazê-lo perdoar o excesso de açúcar das canções da trilha. (E deixá-lo com a estranha impressão de que gravidez na adolescência é, na verdade, algo divertido.)



