Parece que antes de construírem um shopping a cem metros da minha casa fizeram uma pesquisa sócio-econômica pelo bairro da Pompéia e concluíram que os moradores do bairro são cheios do dinheiro. Nós, pompeienses, fomos considerados classe média alta, emergentes, seqüestráveis, bons partidos. E aí resolveram erguer um shopping de alto padrão, com Empório Armani, Victor Hugo e Café Suplicy.
É bem verdade que ali mais para os lados de cima, onde os pompeienses dizem que são moradores das Perdizes, estão subindo edifícios com apartamentos no valor de um milhão de reais. Daqueles de estilo mediterrâneo, com segurança armado na porta e entradas social para moradores e visitantes; e de serviço para babás e secretárias do lar, como eles costumam chamar suas diaristas nas entrevistas para o Fantástico.
É bem verdade também que a varanda desses novos apartamentos é quase do tamanho do meu todinho. E que ninguém, na hora de fazer essa pesquisa, bateu lá em casa para saber quanto é que eu ganho e quanto é que meu pai ganharia se estivesse empregado. Até porque se a pesquisa tivesse sido baseada em pompeienses como eu, o Grupo Zaffari teria aberto um camelódromo.
Enfim, não escrevo agora para reclamar miséria, pelo contrário. Vou ao shopping novo quase diariamente tomar um cafezinho, mas na Casa do Pão de Queijo, que fique claro. Não que seja melhor do que o tal do Suplicy, mas é tudo o que o jornalismo pode comprar. Aquele é o quintal da minha casa, com umas árvores e muita gente artificial, com supermercado que funciona até a meia noite, com bebida expressa, com porcaria para comer, com cinema de arte e blockbuster, com mercadorias a preços exorbitantes que eu nunca vou conseguir comprar. Adoro.
E como lá é quintal de casa e eu saio no quintal de pijama para colocar o lixo para fora, eu costumo andar por lá um pouco desajeitada. Não que eu exiba pelos corredores a minha camiseta do Café Seleto que eu uso para dormir, mas eu uso meus chinelos de pedreiro, meus shorts e outras camisetas furadas no Bourbon.
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No sábado eu caprichei um pouco mais: vesti uma saia jeans, uma camiseta branca e coloquei minhas novas havaianas. Meu irmão, que foi comigo ao shopping, também estava de chinelo, calça jeans, camisa e um chapéu panamá. Era de manhã ainda, tínhamos ido ao mercado e depois resolvemos perambular pelos corredores do Bourbon, olhar algumas vitrines e sonhar com um 2009 financeiramente melhor.
Quando passamos na frente do Espaço Santa Helena, uma grande loja de cama/mesa/banho e eletrodomésticos (tipo uma Camicado ainda mais metida a besta), decidimos entrar porque tanto eu, quanto meu irmão adoramos cozinhar. Ainda enquanto olhávamos a vitrine fomos abordados por uma vendedora, com seus cabelos loiros penteados e amarrados em um rabo-de-cavalo perfeito e seu uniforme sem nenhum furinho, nenhum amarrotado, engomado, intacto.
- Pois não? – perguntou a vendedora como se estivesse olhando para um monte de merda de mendigo pisada.
- Só estamos dando uma olhadinha – meu irmão respondeu educadamente.
E ela continuou ao nosso lado, examinando cada um de nossos movimentos dentro da loja. Deveria vir escrito no Manual do Bom Vendedor que nenhum consumidor, possível ou efetivo, gosta de ser abordado dentro de uma loja, a não ser que realmente esteja precisando de ajuda. Nesse caso, o próprio consumidor costuma pedir para o vendedor a informação ou a mercadoria.
“Acho que ela não vai sair daqui enquanto não pedirmos alguma informação”, pensei. Então eu resolvi quebrar o climão:
- Que que rola nesse “Espaço Gourmet” aqui atrás? São aulas de culinária? – indaguei à vendedora.
- Sim – respondeu-me com a mesma cara anterior.
- Olha, que legal! Vou avisar para a minha mãe. Tem toda a semana?
- Lógico que não – falou a mulher em um tom não amigável, como se dissesse “Sua pobre! Gente rica nem cozinha toda semana”.
Como eu ainda estava embalada por um espírito natalino, respirei fundo e não quebrei nenhuma das cem panelas da loja que estavam bem diante das minhas poderosas mãos de Bruce Lee. Eu e meu irmão agradecemos a informação, nos viramos e continuamos a olhar tudo a nossa volta.
- Uau, que fogão bonito!
- Essa linha de inox é espetacular.
- Porra, essa mulher continua nos seguindo?
E onde quer que íamos, lá estava o toc-toc-toc de seu salto atrás de nós.
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Foi quando um de nós dois decidiu verbalizar o que estava acontecendo:
- Meu Deus, a vendedora acha que a gente vai roubar a loja.
- Não é possível!
Mas era isso mesmo. Puro preconceito porque estávamos arrastando silenciosamente nossos chinelos dentro daquela loja. Embora a tal da moça não soubesse que sou jornalista e que não tinha um tostão furado naquele momento, ela não nos queria ali simplesmente porque eu não usava um vestido longo e meu irmão não estava de traje esporte fino.
“Não devem ser do bairro”, ela deve ter pensado. Mas eu sou do bairro! “Deve ganhar uma miséria”, talvez ela tenha cogitado. E eu ganho mais do que ela, com toda a certeza do mundo. “Não deve nem ter o ensino fundamental completo”, pode ser que ela tenha achado também. Só que eu sou formada no terceiro grau e ela, muito provavelmente, não tenha feito faculdade de vendedora.
E se eu não fosse do bairro? E se eu ganhasse uma miséria? Ou nem ganhasse nada? E se eu não tivesse nem o ensino fundamental completo?
- E daí, sua vaca?
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Não, gente, eu não falei isso, só pensei. E cogitei mil vinganças junto com o meu irmão.
A primeira delas seria naquele momento tirar um bolo de notas de cem reais do bolso e comprar uma máquina de café expresso de 5 paus, mas essa vingança teria alguns contras: ninguém tinha sequer uma nota azul, que dirá um bolo. O outro contra é que deixaríamos a moça com o queixo no chão, mas feliz no fim do mês porque ela seria comissionada.
A vingança de número dois seria tirar uma nota de dois reais do bolso (e isso a gente tinha), jogá-la no chão e dizer:
- Obrigada pelas informações. Tire a sua comissão daí, sim?
Mas a gente não queria humilhar a moça da mesma maneira que estávamos sendo humilhados.
A terceira vingança foi inspirada no filme O Feitiço do Tempo, que vimos no dia anterior a tudo isto. Eu e meu irmão entraríamos na loja novamente e perguntaríamos as mesmas coisas que havíamos perguntado há cinco minutos.
- Que que rola nesse “Espaço Gourmet” aqui atrás? São aulas de culinária?
- Uau, que fogão bonito!
- Essa linha de inox é espetacular.
E na hora que ela perdesse a paciência e nos mandasse tomar no centro social e urbano do toba, nós chamaríamos o gerente:
- Olha, essa moça está dizendo palavras de baixo calão e não sabemos porquê. Logo hoje que eu gastaria todo o superávit da minha empresa aqui nesta loja. Microsoft Google. Já ouviu falar?
Isso, associado ao bolo de dinheiro da vingança número um, seria perfeito, mas certamente eu e meu irmão rolaríamos de rir ao entrar na loja e já não daria certo.
A quarta vingança era chegar em casa, colocar um vestido fino Versace, fazer meu irmão vestir um terno Armani, pedir peloamordedeus para minha mãe se vestir toda de branco e se comportar como uma babá e repartir o cabelo do Lucas ao meio.
Iríamos até a loja, pediríamos para sermos atendidos pela loira do preconceito e rabo-de-cavalo impecáveis e ela nos mostraria a loja todinha, enquanto o Lucas correria por todo o Espaço Santa Helena. Aí, depois de duas horas, compraríamos um prendedor de guardanapo de cinco reais.
Isso, associado à frase da vingança de número dois, também seria perfeito. Mas eu não tenho um Versace, nem meu irmão tem um Armani.
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Então a gente saiu da loja. Mas cheguei em casa e prometi para o Lucas: vou deixá-lo ficar no Espaço Santa Helena por meia horinha sem tomar nenhuma bronca. E sem cabelo dividido, nem nada. Só chupando um sorvete de massa.
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Esse post não foi patrocinado por nenhuma das marcas aqui citadas. Nem pelo Espaço Santa Helena.