* Enquanto nada de muito interessante acontece na minha vida, aproveito para inaugurar uma nova categoria. Na “Vale a pena ler de novo?” postarei histórias mais antigas já escritas, tanto no finado Subversiva, quanto no finado e enterrado Indecências. Essa debaixo foi escrita em 23 de Agosto de 2007, nem faz tanto tempo assim.
Eu nunca acreditei muito nesse papo de que criança é um bicho puro, indefeso e ingênuo, visto que sempre fui uma criança zoada até aprender a zoar todas as outras. No pré, as menininhas mais patricinhas riam de mim por causa do meu nome ou porque, desde cedo, eu não era fofucha e rosada. Nem tão boa na aula de religião.
Depois eu estiquei demais, emagreci demais, perdi os dois dentes da frente e entrei naquela fase medonha e disforme da pré-adolescência, onde todos merecem ser zoados. Além do que, eu sempre usei roupas de meninos herdadas do meu irmão e do meu primo, nunca quis fazer ballet, era fã de futebol e colocava taturanas na cabeça.
Fui a última da turma a ter peitinhos, vivia com as canelas roxas, usava uma maria chiquinha de lado nos anos oitenta e, já na adolescência, vestia roupas largas e camisetas de banda de rock. Na fase grunge, escondia a falta de bunda com camisas xadrezes de flanela amarradas na cintura e na fase mais punk rock guardava as canelas finas em coturnos pretos que iam até o meio da perna.
Quando fazia muito frio, vestia uma touquinha do Timão e matava a minha mãe de desgosto, que me apelidou carinhosamente, naquela época, de “mulamba girl”.
Aí entrei na minha fase piqueteira-Che-Guevara e eu tinha certeza que a revolução estava próxima. Eu acho que até hoje não sou muito convencional, o que faz as pessoas torcerem um pouco o nariz assim que me conhecem. E todo mundo só não sai correndo de vez porque, no fim das contas, eu sou até divertida.
Por causa de todo esse histórico, eu tive de aprender cedo a técnica do zoe-antes-que-te-zoem, que consiste em achar o ponto fraco alheio e fazer com que ele vire uma piada. E contá-la em público assim que o fulano reparar nas suas canelas finas. É o tal do bullying que, se feito de forma exagerada e humilhante, pode levar o fulano a entrar atirando em repartições públicas ou em salas de aula do ensino médio.
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Luquinhas, outro dia, contava a mim e ao Daniel que tem um amigo com sobrepeso (vamos usar termos menos agressivos) em sua sala de aula.
- Ele fica bravo quando todo mundo começa a rir e a chamá-lo de bolo de almôndega.
Na hora eu quis rir, mas quando se é mãe tudo muda e é a sua vez de dar o exemplo:
- Que coisa feia, Lucas. Não pode chamá-lo assim. Você gostaria que te chamassem de perninha de sabiá (Lucas é magrinho)? Ou de lobinho (Lucas é peludinho)?
Mas parece que o sermão não adiantou muito. Outro dia fui levá-lo na escola e estávamos esperando o portão abrir quando encostou uma perua escolar:
- É a perua do baleinha!
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Na sala do Lucas também há um menino que vive fazendo cocô na calça. Não é tão normal nessa idade, afinal, com quase seis anos, as crianças saíram das fraldas faz tempo e já conhecem tudo sobre o vaso sanitário.
Parece que é um trauma que o menino tem de descarga e, ao invés de cagar e não dar descarga, ele se borroca todo, tadinho. E os coleguinhas de classe, ao invés de dizerem que vai ficar tudo bem e fazerem um cafuné em sua cabeça, isolam o menino no canto da sala (deve feder, gente) e cantam músicas como:
“O peido é um aviso
Mandado pelo intestino
Avisando o chefe bunda
Que o trem bosta já vem vindo”
Um bando de canalhinhas. Não foi uma, nem duas vezes que cheguei na escola para buscar o Lucas e encontrei o Thiago chorando, sem amigos. É quase todo dia e nem preciso mais perguntar para o meu filho qual é o motivo:
- Fez cocô na calça, mãe!
E eu explico todos os dias que tem que dar uma força para o Thiago porque quanto mais eles riem, pior fica a situação do menino. O trauma vai aumentando e eu imagino o Thiago chorando no canto do escritório e tendo que passar pelo RH para dar baixa na carteira de trabalho pela centésima quinta vez em menos de um ano, afinal é preciso fazer cocô todos os dias.
Mas a Bia costuma afirmar que a Roda da Fortuna nunca falha, seja lá o que isso quer dizer. Outro dia eu estava no trabalho e minha mãe me chamou no google talk para contar que o Luquinhas tinha feito cocô na calça. Eu fiquei surpresa, mas imaginei que o desenho animado devia estar divertido à beça, que a preguiça foi maior do que a vontade e que isso pode acontecer com todo mundo (não, gente, não acontece comigo. Nem quando vejo Bob Esponja).
Lembrei do Thiago imediatamente e decidi que quando buscasse o Lucas na escola ia usar o episódio da manhã como exemplo para que ele nunca mais zoasse o cagãozinho coleguinha. E também pensei em me redimir de todos os meus pecados, da infância até os dias de hoje, e comprar para o baleinha outro menininho uma daquelas camisetas “Sou gordo e posso emagrecer. E você que é feio?”, mas nenhum deles ainda sabe ler.Só que eu não podia dizer para o Lucas que a mamãe tinha me contado o episódio porque ia soar como fofoca e ele ficaria envergonhado. Precisava arranjar uma maneira de fazer com que ele me contasse.
Quando fui buscá-lo, no fim da tarde, esperei um tempo para ver se me contava espontaneamente e nada. Aí resolvi perguntar sobre o Thiago:
- E aí, Lucas? Como está o Thiago? Ele melhorou ou fez cocô na calça hoje de novo?
- Fiz!