Consta que sou eu, chorando porque não queria tirar photographia. A foto está amarelada, eu costumava andar mais limpinha.

Consta que sou eu, chorando porque não queria tirar photographia. A foto está amarelada, eu costumava andar mais limpinha.

Aí ontem, levando o Lucas para a escola, comecei a contar a ele como tinha sido a minha primeira série. E ele se mostrou tão interessado, que perguntou sobre a segunda:
- Ah, filho. Na segunda série eu mudei de colégio e fui estudar em um chamado Tenente José da Silva Pinto Duarte. Nome comprido, né?
- É sim. Opa, mas o Tenente é onde um pessoal da minha antiga escola vai estudar!
- É, Lu. Mas eu não gostava de lá não – respondi, tentando desencorajá-lo a querer mudar de escola.
- Por causa do pinto, né, mãe?
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Foi o primeiro dia do Luquinhas na primeira série. Isso mesmo: primeira série. Dá para acreditar? Nem saiu da minha memória ainda as maria-chiquinhas que eu usava no cabelo enquanto escrevia e pintava um desenho mal traçado no fim da lição. E nem a Vanessa Pasquevitchius, a Ana Elisa, o Rafael Castejani, o Flávio, o Antônio, o Diego, a Mariana Dantas, a Paulinha. Estão todos ali, na minha cabeça, sentados um atrás do outro naquelas cadeiras duras do colégio São Domingos.
Mas hoje, além deles todos e da chata da professora Marta, me lembrei de outra coisa quando vi os olhos grandes e esverdeados do Luquinhas me fitando na porta do colégio. Daquela sensação que me esmagava o peito e tampava a garganta com um nó toda vez que eu mudava de escola. E mudava de amigos, de professora, de hábitos, de geografia, de caminhos. E me via diante de tanta novidade que dava uma vontade de me esconder debaixo da escada e chorar até dormir. Então eu respirava fundo, abanava a mão para a mamãe no portão e seguia em frente. Sempre deu certo.
Quase 20 anos depois, naquela escola da Vila Madalena, vi meu filho fazer exatamente igual. Só que agora eu estava do outro lado. Abanando a mão e sentindo o mesmo nó e o mesmo coração apertado que minha mãe sentia quando me deixava, enquanto o Lucas gritava que ia morrer de saudades subindo a escada, sem conseguir me ver e sem conseguir ser visto. Batendo nos degraus que pareciam infinitos a mochila de rodinhas dos Padrinhos Mágicos.
Acordei com a notícia de que Beto Carrero tinha comprado um paletó de madeira. E eu digo aqui que nunca simpatizei com o fulano. É claro que a gente fica chocada com a morte do cowboy brasileiro que construiu um-dos-maiores-parques-temáticos-do-mundo-
que-nenhuma-criança-sonha-em-conhecer, mas não é porque morreu que virou santo.
Nem é porque o cara era infame, porque ser sem-graça é um direito. Acontece que lá pela minha quinta série ginasial eu tinha como colega de classe uma menina que tingia os cabelos de loiro. Loreal nº Mari Alexandre anã de 11 anos. E ela queria ser cantora, atriz, modelo, manequim, estudante de jornalismo e apresentadora de programa infantil. Ou seja, uma criança artista e, como toda criança artista, sem nenhum talento e insuportável. Certeza que se já existisse o programa de calouros do Raul Gil naquela época eu ia ver a Talita puxando um “boa tarde, auditóóóóóóóóóóório”.
Mas, enfim, vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com o Beto Carrero e eu respondo: o que levava Talita a pensar que um dia seria uma artista global era o homem sertajeno. Parece que a mãe da menina era amiga BEM íntima do “Tio Beto”, como Talita o chamava, e era ele quem abria caminhos (e outras cositas) para que a pobre pudesse alcançar o estrelato.
Ela até fez um comercial do Beto, naquela época em que surgiu o jingle “Beeeeeeeeeeeeeeeto Carreroooooooooooooooooooooooo, pititiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, pitititititiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu (isso foi um barulho de chicote)”. E tive pesadelos até bem pouco tempo com a Talita ao lado do cowboy, atirando umas cartas para cima, sorteando quem ia passar o dia na Fazenda do Betinho e cantando “What Wonderful World”.
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Além de essas mortes nos servirem para reviver histórias macabras do passado, nos servem também para descobrir a real idade dos fulanos. Quem diria que aquele homem tinha 70 anos??? O que nos leva a pensar qual seria a verdadeira face de Beto Carrero sem a tonelada de plástica que ele deve ter feito na vida.
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Puxando um pouco mais pela memória, parece que a mãe da Talita cativava subcelebridades. Também me lembro da minha coleguinha de classe mencionar um “Tio Marcos”, se referindo ao Marcos Manzano, aquele homem que ficou famoso (?) por ser o apresentador de um Clube das Mulheres em uma novela das 8.
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Soube há pouco tempo que a Talita virou cantora em uma boate, lá em Miami. Talentosíssima.
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