Emagreci 3 quilos no tempo em que o Lucas ficou no hospital. Vejam bem: 3 kg em 6 dias. Eu deveria aparecer na capa daquelas revistas Dieta Mais, Boa Forma, dando a receita do meu sucesso: “foi tão simples. Meu filho de 6 anos teve um derrame no pulmão esquerdo e eu fiquei sem comer e sem dormir por alguns dias”. Claro que emagrecer foi a parte boa de tudo isso e eu agradeci muito ao Luquinhas depois, porque juro que estava tentando perder uns quilinhos há uns bons 12 meses.
Mas não comer e não dormir não foram opcionais. Vieram no pacote das preocupações, das angústias, da parte mais difícil de ser mãe. Do nó que fica na garganta, do bolo no estômago, da comida não digerida desde o momento em que a médica anunciou o derrame no pulmão. E das enfermeiras maníacas que te acordam de meia em meia hora na madrugada para a inalação, o antibiótico, o antiinflamatório, o digestivo, o corticóide, bater um papinho, falar da novela, te contar do casamento da Sandy.
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O plano de saúde do Luquinhas é um plano muito bom e justamente por isso arranjaram um quarto para ele na maternidade. Caso contrário, era bem capaz de sermos transferidos de hospital comigo levando o Lucas de cavalinho e o pobre do garoto assoprando dentro de um saquinho de pão para conseguir oxigênio. O seguro nos deu direito a ficarmos em um quarto cujo horário de visita começava às 8h da manhã e terminava às 21h.
Às 8h da manhã do sábado meus pais entraram pela porta daquele quarto carregados de doces, revistinhas, brinquedos, além do videogame do Luquinhas, vários jogos, uma porção de DVDs, roupas limpas, agasalhos, a pantufa de tigrinho do meu filho, enfim. Tudo o que avós como meu pai e minha mãe conseguiriam carregar, além do coração apertado.
Lá pelas 9h, o pai do Lucas chegou com a namorada Thaís, também carregando mais um quilo de chocolate, um super trunfo e ainda mais revistas e mais preocupações. O Lucas fez um tour com todo mundo pelo quarto, apresentou o banheiro chiquérrimo, a geladeirinha, mostrou as funções da cama e disse como estava adorando tudo aquilo e como gostaria de morar no Hospital São Camilo pelos próximos anos.
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Na primeira visita da médica, a previsão de alta ainda era bastante incerta:
- Para sair daqui, o Lucas precisará eliminar todo o líquido do pulmão esquerdo. Até terça-feira, no mínimo.
Longos dias.
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Consegui ligar para meia dúzia de amigos, mandei meia dúzia de mensagens, avisei minha chefe, falei com a família. E concluí que a palavra derrame choca mais do que um palavrão cabeludo pronunciado por um padre durante uma missa.
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Os remédios do Lucas eram todos intravenosos e durante os primeiros dias ele teve de tomar penicilina. Ação: penicilina queima. Reação: Lucas grita.
- Doeu pra cacete!
- LUUUUUUUUUUUUUUUUUCAS!
- Ai, desculpa. Mas é sério, mãe. Doeu pra cacete mesmo.
- Tudo bem…
Bom, se a gente não vai liberar os palavrões para os nossos filhos nessas circunstâncias, quando é que vamos fazê-lo, né?
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Quando a fisioterapeuta entrou no quarto, Lucas olhou para a sua foto do crachá e disparou:
- Nossa, você está muito mais feia hoje do que quando tirou esta foto. O que aconteceu?
Eu queria me enfiar debaixo daquele sofá marrom e nunca mais sair.
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O principal problema de ficar na ala da maternidade foi a falta de tato de algumas enfermeiras para lidar com criança. Elas estão acostumadas a cuidar de mãe, que é o que sobra da mulher depois que ela sai da sala de parto. Mas uma, em especial, merece todo o meu empenho no Kung Fu, rumo à faixa preta. Juro, fiz até respiração cachorrinho para não dar um faca do pé na mulher.
Veja bem, o Lucas estava tomando remédios fortíssimos na veia e doía. Então, bastava uma enfermeira entrar no quarto para que ele entoasse o mantra do Aiai Uiui, seguido de uma manha incrível, mas, assim como o palavrão, as manhas estavam liberadíssimas durante o tempo do hospital. A hora do remédio era o único momento em que Luquinhas lembrava que não estava em um acampamento de férias.
- Aiai, está doendo, está doendo…
- NÃO ESTÁ DOENDO! – disse, delicadamente, a babá do Hitler a enfermeira Mônica.
- Não está doendo porque não é em você – tive de intervir, ué.
- Lucas, com essa manha você vai acordar todos os bebezinhos da maternidade – ela chantageou.
Cadê o palavrão, Luquinhas?
- Nós queríamos uma vaga na pediatria. Foram vocês que nos colocaram aqui na maternidade – respondi pelo Lucas mais uma vez.
- Mas na pediatria também tem bebezinhos – falou a enfermeira.
- Só que o Lucas não seria a única criança a gritar, tenho certeza.
Bom, é claro que quando todos saíram, às 21h, essa mulher me fodeu. Era ela a enfermeira do plantão da madrugada de sábado para domingo e eu não pude pregar os olhos a noite toda. Ela não deixou e sequer teve a dignidade de vir conversar comigo sobre o casamento da Sandy.
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Às 21h30 do sábado, com o Lucas já dormindo, apaguei a luz e capotei. Comecei a sonhar com o Ivan quando, dez minutos depois, a Rebecca de Mornay acendeu uma luz na minha cara. Eu abri os olhos e vi aquela cara em cima da minha dizendo:
- Vou colocar o antibiótico no Lucas e você não vai poder dormir até parar de pingar.
Meu coração saltou pela boca. Nessa cena só faltou a faca na mão direita da enfermeira e ela segurando a cabeça do Lucas com a mão esquerda. Juro que rolou até uma risada malévola no final da frase e eu me belisquei cem vezes para ver se não estava tendo um pesadelo.
Olhei gotinha por gotinha e o remédio parou de pingar lá pela meia noite. Desliguei a luz e consegui dormir por meia hora, mais ou menos. Perto de uma hora da manhã, senti tapinhas em minhas costas. Era a maldita:
- Segura a inalação para o seu filho?
- Segura na minha e balança?
Não, gente, não falei. Eu só pensei.
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Meus amigos são incríveis e o domingo ficou agitadíssimo lá no hospital. Durante o dia todo, ficou um entra-e-sai de gente e de presentes e de chocolates naquele quarto. Se a gente tivesse feito uma pesquisa Ibope para saber quem era o mais prestigiado daquele andar, o Luquinhas teria ganhado disparado de qualquer outra mãe recente e seu pequeno feto.
- Tio, isso aqui está o máximo. É tipo o meu aniversário. Todo mundo que vem aqui me traz um presente – ele contou para o meu irmão pelo telefone.
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Quando avistei pelo hospital uma placa escrita “INTERNET”, dei um twist duplo carpado de tanta felicidade. Eu estava há dois dias sem ver o meu e-mail e precisava urgentemente de algum contato com o mundo exterior para além do as enfermeiras me contavam.
Cheguei naquilo que o Seu São Camilo chamava de internet e eram quatro computadores 386, sem absolutamente nenhum sinal de conexão. Tinha um interfone lá, que parecia ser o tal do contato com o mundo exterior. Fiquei pensando que do outro lado um menino com conexão ia atender, ia perguntar qual site nós queríamos que ele acessasse:
- Por favor, o gmail.
- Qual é seu login e senha?
- Bláblábláblá.
- Você tem 175 novos e-mails.
- Leia para mim os e-mails de números primos, então.
Foi quase isso.
- Bom dia, informática.
- É da informática? Como eu faço para conectar a internet nessa carroça?
- Estamos sem internet desde quinta-feira, minha senhora.
- Tem previsão de quando volta?
- Não temos previsão, senhora.
Meu deus, será que alguém ia conseguir me dar previsão de alguma coisa nesse hospital?
- Então vou perguntar para a médica se ela tem alguma previsão de quando a internet volta. Mas será que você poderia me dizer que dia que meu filho terá alta?
Não perguntei para ele, mas deveria ter perguntado, né?
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No fim da tarde, aproveitei que o quarto ainda estava cheio de amigos e decidi ir para a casa por uma hora, para tomar um banho decente sem nenhuma cortina de plástico escrita São Camilo grudando na minha bunda, conseguir acessar meus e-mails e comer alguma besteira. E o Seu São Camilo tinha me mandado alguma maldição porque em casa também não tinha conexão. Mas tinha água e uma caixa de Chicken Pop Corn. Chupa essa manga, Seu São Camilo!
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Na noite de domingo, Luquinhas foi transferido para um quarto na pediatria. Lindo de verdade, pintadinho em tons pastéis, uma TV de tela plana, um sofá laranja, uma poltrona moderna daquelas que esticam os pés, um banheiro super equipado e até uma varandinha para receber as visitas. Agora quem queria morar ali era eu.
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Lá pelas duas da manhã de domingo para a segunda, eu olhei a mão do Lucas onde estava o catéter e vi que ela tinha se transformado em um panetone, graças a deus sem as frutas cristalizadas. Chamei a enfermeira correndo, que nem nos filmes:
- Somebody help meeeeeeeeeeeeeeeee!
Mostrei a mão do Luquinhas (ambos estavam dormindo) e a reação dela não foi das melhores:
- Minha nossa! Perdemos a mão.
Quase desmaiei.
- Q-QUE????
- Quer dizer que vamos ter que tirar o catéter dessa mão e colocar na outra. Essa veia já não agüenta mais nada.
E eu já pensando em amputação.
- Na hora do antibiótico eu venho para furar a outra veia do seu filho.
Olhei o Lucas ali, dormindo, sem saber o que estava acontecendo, sonhando com alguma coisa boa e nem imaginando que ia ter que furar a outra mão logo mais. Pedi desculpas.
Às 5 da manhã, Luquinhas acordou sobressaltado:
- O que vocês vão fazer?
- Desculpa, filho, mas a enfermeira vai ter que colocar o catéter na sua outra mão.
E foi assim que o Lucas acordou todos os bebezinhos da pediatria e da maternidade também. Chupa essa manga, enfermeira Mônica!
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Durante a semana, as visitas diminuiram porque esse é um país sério e quase ninguém trabalha em ONG. Os dias ficaram mais longos, comigo acessando a internet do celular de cinco em cinco minutos, Luquinhas tentando comprar personagens novos no Lego Star Wars e meus pais tentando achar algum programa decente na TV a cabo.
De segunda à sexta-feira, das 14h30 às 16h, funciona no hospital uma brinquedoteca. Luquinhas ficou sabendo disso e lá pelas 9h da manhã começou:
- Falta muito para as 14h30?
- Sim.
Cinco minutos depois:
- E agora?
- Sim.
Mais cinco minutos depois:
- E agora?
Juro, lá pelas 11h eu estava com vontade de me atirar da varandinha.
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Na terça-feira, eu comecei a arrumar tudo na expectativa de que o Lucas seria liberado, mas a médica disse que ainda havia água em seu pulmão e que teríamos que ficar por mais um tempo. Talvez um dia, talvez mais. Eu quis sentar e chorar. Na hora da brinquedoteca, deixei o Lu com meus pais um pouco e saí pela Alfonso Bovero. Comprei o filme Debi & Lóide e voltei toda empolgada para assistir com meu filho.
- Lucas, comprei um filme para vermos. Mas é de adulto!
- Tem mulher pelada? – os olhinhos dele brilharam.
- Não, acho que não. Não me lembro.
Não tem mulher pelada, mas o fato de eu não lhe dar certeza de que não tinha o encheu de esperança e o fez ficar vidrado no filme do começo ao fim. Já descobri como fazer então da próxima vez.
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- Não quero ir embora, mãe.
- Lucas, você quer ir embora!
- Não quero. Em casa não tem uma brinquedoteca.
- Lucas, em casa tem um trilhão de brinquedos.
- Mas isso não é uma brinquedoteca.
O Lucas, em boa parte do tempo, é muito inteligente. Mas tem vezes que é burrinho demais.
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Na quarta-feira, a médica passou bem cedinho no quarto e deu alta para o Luquinhas. O pulmão ainda tinha água, portanto o tratamento fora do hospital continua. Apesar da brinquedoteca, o Lucas comemorou a alta. Ganhou mais dois dias de folga na escola, o que fez com que os gritos de “VIVA” e “HIPI HIPI HURRA” ficassem ainda mais altos. Eu voltei no dia seguinte para o trabalho, mas dormi a tarde toda de quarta-feira, sem nenhuma enfermeira para me dar tapinha nas costas de meia em meia hora. É bom estar em casa.
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Dia desses, antes de dormir, perguntei para o Lucas:
- Cinco lugares onde você queria estar agora, filho.
- Parque, praia, piscina, shopping e hospital.
Putaquel. Morri.
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Ver o filho doente nunca é fácil, mas em um caso desses é difícil pra caraleo. E, muito provavelmente, eu estaria chorando naquele sofá marrom até agora se não fosse a ajuda de algumas pessoas, além do pensamento positivo, das rezas e da torcida de muita gente. Por isso, agradeço especialmente:
Ao Luquinhas, esse menino forte e corajoso, que me ensina um monte de coisas novas todos os dias, mas a principal delas é saber olhar a vida com olhos cheios de alegria. Tenho muito orgulho em ser a mãe do menino mais legal do mundo.
Aos meus pais, que são os avós que todo mundo deveria ter tido na vida e que estiveram lá comigo todos os dias, das 8h às 21h, no horário que lhes era permitido (e tenho certeza de que se pudessem, eles dormiriam por lá e acordariam todos os dias do meu lado e do lado do Luquinhas, mesmo que tivessem só uma almofadinha laranja para apoiar a cabeça na parede).
Ao meu irmão, que ligou todos os dias, mas tenho certeza que se morasse aqui estaria no hospital o tempo todo também (junto com a Ira).
Ao Ricardo (pai do Lucas) e à Thaís (mãedrasta), que também ficaram por lá pelo tempo que puderam, cuidaram do Lucas e de mim, e fizeram com que o meu carinho pelos dois só aumentasse.
Ao Ivan, namorado lindo que me ligava de cinco em cinco minutos para saber se estava tudo bem. Se preocupou, cuidou de mim e me devolveu a chance de sonhar e planejar um futuro tudo de novo.
Aos meus tios e primos que também estiveram por lá e encheram o Lucas de carinho e chocolate. À Silvia e ao Reinaldo também.
Aos melhores amigos do mundo: Júlio, Silveira, Daygo, Maurício, Elaine e Amber, que jogaram videogame com o Luquinhas, levaram presentes, histórias divertidas, papo furado, colo, cafuné, risadas, livros repetidos (até eu ganhei presente) e trufas.
Ao Gravataí, que também me ligou uma centena de vezes para saber do Luquinhas.
Aos e-mails, ligações e comentários de: Débora, Erika, Teka, Wawa, David, Amanda, Tatá, Laryssa, Ruy, Gabriela Barreto, Adriano, Ju Saad, Nat, Mandioca, Jú, Renata, Filipe, Vanessa, Marília, Bruno, Juju, Wladimir, Ana Carol Moreno, Carol, BZ, Uli, Paula Mirella, Rozzana, Felds, Gisele, Orlando Carvalho, Bruno Ribeiro, Fabrício Vicentim, Andrea Nunes, Ulisses Adirt, Bruno Mazzotti, Eduardo Sena, Leo Giardini, Érica Santos, Aline Cortes, Diego Jock, o pessoal da academia de Kung Fu, ao Gabriel Louback, Marcelo Nóbrega, ao Fabrício Z/S, Mayara, Samuel, Danilo Prates, Leo Godoy, Dani Doduti, Ana Bia, Beth, Pati Carvoeiro, Paulinho, Fábio, Zander, Jô, Carol Canossa, Carol Souza, readymymind (cujo nome eu não sei, desculpe), Adriana, Vinícius, Mawá, Vanessa, Fabrícia, Dede, Rachel Juraski, Doris, Luciana, João Pedro, Bruninha, Emerson, Bia Levischi.
A todas as mensagens que chegaram via twitter (e que foram apagadas pelo tempo).
E a todo mundo que, de alguma forma, torceu a favor. Sem vocês, teria sido mais difícil.