Eneaotil

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Gratidão filial

9 Março, 2009 · 23 Comentários

Quando minha mãe viaja, sou eu quem pilota o fogão lá em casa. Cá para nós, eu herdei a mão da família Martin para a culinária e cozinho bem. Não tão bem quanto minha mãe, que cozinha maravilhosamente bem, mas não tão bem quanto minha avó cozinhava, que cozinhava não tão bem quanto minha bisavó cozinhava e por aí vai. Mas isso não significa que a minha comida não seja de lamber os beiços.

Já a família Macedo não tem muita tradição na cozinha. Meu pai sabe fazer um arroz não tão empapado quanto o que a minha avó fazia, que não era tão empapado quanto o que a minha bisavó fazia e por aí vai.

Enfim, a minha mãe foi viajar. Teve que ir às pressas para o interior de São Paulo, cuidar do meu tio que não anda muito bem de saúde. E sobrou lavar a roupa, arrumar a casa, acordar meu pai, me acordar e cozinhar, entre outras coisas.

Então hoje, às 7h15 da manhã, lá estava eu preparando um filé de frango a parmegiana, um arroz e batatas antes de ir para o trabalho. Fiz o molho com tomate de verdade, cortei os filés com destreza e temperei-os com tempero caseiro que eu mesma fiz. Ralei mussarela para colocar em cima dos filés. Preparei um arroz soltinho como nunca. Piquei as batatas em palitos milimetricamente calculados e iguais. Ou seja, botei pra foder no almoço.

Quando estava tudo prontinho, fumegando nas panelas, o Lucas, que brincava na sala, perguntou:

- Mãe, está sentindo esse cheiro?

Eu dei um sorriso largo e imaginei ele correndo em minha direção, me abraçando e me rodopiando na cozinha enquanto gritava que me amava e que eu era a melhor mãe que ele podia ter. Depois imaginei a Ana Maria Braga me convidando para ensinar a receita do meu almoço incrível na televisão e a produção do Globo Repórter invadindo a minha casa e me entrevistando para o especial: “Como é difícil a vida de uma jovem linda, chique e elegante mãe que trabalha fora e ainda consegue preparar o melhor almoço do País”. E me vi na capa daquelas revistas de pais e filhos sob a manchete A MÃE DO ANO!

- Que cheiro, filhinho? hihihihihihi – e eu já abri os braços esperando o abraço mais apertado do mundo.

- Esse bruta cheiro de feijão queimado! Quem será que vai comer essa porcaria?

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Adivinha quem é?

5 Março, 2009 · 26 Comentários

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Traduzindo melhor a última linha: “queria que eu tivesse QUINQUILHÕES de reais”. Eu nem preciso. Com um filho desse, é melhor que ganhar na loteria.

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Gabi Gabriela

27 Fevereiro, 2009 · 39 Comentários

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Todo mundo que entra no Eneaotil e deixa aqui o seu comentário com um link tem sua página visitada. Mesmo que seja uma visitinha de médico, que eu entre correndo e passe os olhos rapidamente, que eu leia um ou dois posts para voltar depois. Assim, quando a Gabriela Barreto me escreveu um e-mail dizendo que era fotógrafa, eu já sabia.

“Leio sempre seu blog e comento algumas vezes. Gosto muito das coisas que você escreve. Sou fotógrafa recém formada em imagem e som pela UFSCAR e moro em Campinas.”

Já tinha entrado no site dela depois de um comentário e devorado todas as fotografias porque, além de eu ter certa fascinação por fotos, as que são captadas pela Gabriela são incríveis.

E ela me escreveu justamente oferecendo todo o seu talento depois de ler no Eneaotil a idéia do livro para e sobre o Luquinhas.

“Lembro de ter lido aquele post seu dizendo que está guardando tudo que escreveu sobre o Lucas para fazer um livro para ele. Quando li, pensei que seria legal se tivesse fotos também. Bom, minha proposta é a seguinte:
vou para Sampa num final de semana e passo o dia fotografando vocês. Não te cobraria nada porque sei bem como é a vida de quem resolve fazer comunicação social (caí nessa besteira também).

(…)

E te dou as fotos pra você guardar. O que você me diz?”

A gente pergunta para o macaco se ele quer banana? Lógico que aceitei. Porque, mesmo nunca tendo visto a Gabriela antes, eu sabia que uma pessoa com a sensibilidade que ela tem para congelar a vida em uma imagem não seria nenhuma maníaca seqüestradora de criancinhas. E; sem contar a minha coleção de armas brancas e o Kung Fu; tenho certeza de que se alguém levar o Luquinhas embora, o devolverá em 20 minutos.

A idéia da Gabriela era a mais legal de todas as idéias que eu já tinha ouvido sobre fotografias de mães e filhos porque não implicava ficar em um fundo branco fazendo poses, colocando dedinho na boca, dando beijo na testa, olhando fixamente para os olhos uns dos outros. Isso não funcionaria comigo e com o Lucas porque nenhum de nós dois (e talvez ninguém em toda a galáxia) se sente confortável quando tem uma câmera apontada para a fuça.

Parece que quando a gente está diante de uma câmera não se lembra daquela fotografia que saiu bonita e que enfeita a mesinha logo na entrada da casa da mãe. Eu, pelo menos, me lembro de todas as vezes que saí mais feia que o Tevez, das fotos da família inteira reunida em que só eu saí de olhos fechados, ou daquelas em que o ângulo desfavorável me deixa mais gorda que a Jô manicure (era esse o nome de uma mulher muito gorda dos anos 80 que só saía de casa com ajuda do Corpo de Bombeiros?).

Fora que se o Lucas percebesse que estava sendo fotografado, faria sua careta clássica em todas as aparições. E não quero que aquele que ler seu livro no futuro pense que ele tem lábios leporinos ou estrabismo.

Enfim, a idéia era que a Gabriela pudesse nos fotografar no dia-a-dia: vendo um jogo do Corinthians em que o resultado era inesperado (amém ganhou!), comendo macarrão e sujando a roupa de molho, tomando um tombo de patins, não cabendo em cima da bicicleta, dando e tomando bronca, conversando em família, recebendo cafuné no sofá, bocejando, espirrando, com olheiras, descabelada, enfim. Sem que a gente nem se desse conta de que ela estava ali.

O caso é que não deu muito certo. Não as fotos, que ficaram lindas, mas o fato de fingir que a Gabriela não estava ali, nos observando e vivendo um domingo conosco. Porque no momento em que passou da porta para dentro do pequeno apartamento de 80m² na Pompéia a Gabriela virou Gabi. Recebeu uma cerveja, comeu o macarrão da Dona Rose, jogou videogame, ensinou o Lucas a andar de bicicleta. Emprestou sua lente para o meu e o olhar do Lucas, nos deu sua simpatia e amizade. Fez o Lucas pedir que eu a contratasse como sua babá, já que ela mora longe e não teria como ser sua amiga todos os dias (e ele até disse que abriria mão de comprar um brinquedo no fim de ano para pagar os serviços da Gabi como babá com a quantia acumulada de R$ 100). Misturou-se e se tornou uma de nós.

Foi assim que eu e o Lucas ganhamos muito mais do que fotos lindas para um livro. Foi assim que eu e o Lucas (e a mamãe e o papai) ganhamos a Gabi para a vida.

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Ela também escreveu sobre nosso encontro em seu blog. Vão lá conferir!

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Algumas das cerca de 500 fotos que nosso domingo rendeu:

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Lucas, os capangas e a minha vontade de socá-los todos

20 Fevereiro, 2009 · 20 Comentários

Parece que André, ex-melhor amigo do Lucas, se tornou seu maior desafeto. Tudo por causa de uma partida de futebol.

- Mãe, nunca mais quero olhar para a cara do André.

- Ué, mas ele não era o teu melhor amigo?

- Acho que nunca foi meu amigo, mãe. Ele me sacaneou na aula de educação física.

- O que ele fez?

- Eu estava jogando futebol e era o goleiro do meu time. Ele estava no outro time. Então ele ficava com a bundona na minha frente para me atrapalhar e não me deixava ver a bola.

Então eu me lembrei que não fazia nem uma semana que o Lucas tinha me dito, todo orgulhoso, ter feito a mesma coisa com outro menino no futebol.

- Ué, você não me disse que fez a mesma coisa com outro menino no futebol, na semana passada? E ainda por cima achou o máximo?

- Mas, mãe, o menino não era meu amigo! E o André dizia que era.

**

Aí ontem eu fui buscar o Lucas na escola e ele me disse:

- Mãe, não tenho mais com o que me preocupar. Contratei três seguranças para bater no André.

- QUE?

- É. Basta ele me encher o saco para o João Gabriel, o Lian e o Rafael entrarem em ação.

- Mas não eram esses três que você odiava?

- É, mas agora eles são meus seguranças.

- Lucas, você precisa parar com isso. O André é super bonzinho e esses três são umas pestes. E a professora disse na reunião que na sua turma só tinha brigão e que ela ia começar a colocar de castigo!

- Ah, ela já começou.

- Já? Você já ficou de castigo?

- Opa se já! – e ele começou a rachar o bico.

- Que beleza, hein?! E você ainda dá risada?

- Mãe, é o maior barato. Eu fiquei sem recreio e todos os meus amigos também ficaram. Aí a gente ficou na sala de aula, todo mundo junto brincando.

Que professora burra, my god.

- Então eu vou escrever um bilhete para a sua professora pensar em outra forma de castigo já que esse você adora.

- Não vai não!

E ele começou a fazer uma espécie de sapateado flamenco na Avenida Pompéia.

- Lucas, pára com esse show. Quando chegar em casa a gente vai conversar.

- Ah não, pelo amor de Deus, odeio conversar!

- Então cala a boca.

Fomos em silêncio o resto do caminho. Entrei no prédio e apertei os botões do elevador com violência. Aí ele resolveu quebrar o silêncio:

- Eita, o que que foi, mãe? Quer um tempinho para esfriar a cabeça? Se precisa de um tempinho para pensar e relaxar é só me pedir. Tudo bem. Quando estiver bem calminha, me chame. Estarei lá na portaria.

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Luquinhas, o sexo e a lógica

29 Janeiro, 2009 · 38 Comentários

Lembrei de uma outra.

Terça-feira fui buscar Luquinhas na escola e voltamos conversando sobre seus novos coleguinhas de sala.

- E aí, Lu?! Está gostando dos novos amiguinhos?

- Estou sim. Ainda não arranjei nenhuma namorada nova.

- Mas foi só o segundo dia! Sossega o pito.

- Ah, mãe. Um dia eu vou arranjar 3 namoradas e elas vão gostar de mim e eu vou ficar pelado com elas.

- Putaqueopariu Lucas! Você só poderá ficar pelado com UMA namorada quando for grandão.

- Grandão quanto?

- Assim, do tamanho do seu tio! – foi a primeira coisa que eu pensei porque meu irmão tem 1,96 cm.

- Mas, mãe, o titio já ficou pelado com a namorada dele?

Ai, meu deus.

- Lucas, não sei.

- Pergunta para ele, mãe.

- Lucas, seu tio está no Rio de Janeiro.

- Liga pra ele, mãe. Liga! Liga! Liga!

- Pára com isso.

- Pergunta! Pergunta! Pergunta!

Meu irmão namora há 5 anos e eu sabia a resposta, mas lá fui eu mandar um SMS para o Digo.

“Digão, o Lucas quer saber se você já ficou pelado com sua namorada”

“QUÊ?”

- Mãe, o que foi que ele respondeu????????

- Ficou indignado, Lucas. Mas não respondeu nem que sim nem que não.

- Pergunta de novo! PERGUNTA! PERGUNTA!

Acho que ele até babava.

“É isso mesmo que você leu, Digo”

“Mas ele perguntou isto do nada?”

- E agora? O que ele respondeu???

- Ainda nada, Lucas. Vou perguntar pra ele se sim ou se não.

- Ai, por favor, SIM, SIM, SIM, SIM – e juro que ele fez figuinhas, torcendo para que meu irmão não fosse mais casto.

Então eu mandei uma outra mensagem explicando tudo e meu irmão só respondeu:

“Hahahahahahahahahahaha”

Mostrei para o Lucas e ele disse:

- Olha, mãe. Se o meu tio não quer responder eu só posso concluir que ele já ficou pelado mais de 20 vezes.

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Chantagista

29 Janeiro, 2009 · 10 Comentários

Lucas me pediu para ficar com ele na cama até dormir.

- Filho, você é um menino grande. Dorme sozinho desde piquitico. Não começa com essas frescuras, hein?

- Que droga! Eu queria uma mãe que ficasse comigo o tempo todo.

- Mas, Lucas, já pensou que chato vai ser quando você crescer, começar a namorar e eu ficar ali, grudadona do seu lado?

- Ah, mãe. Eu deixo. Por exemplo, quando eu quiser namorar no seu quarto, você pode ficar lá…

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Creuzado

26 Janeiro, 2009 · 26 Comentários

Hoje o Lucas voltou para a escola e começou sua segunda série do Ensino Fundamental. Não chorou nem uma lágrima e arrisco dizer que sequer sentiu vontade. Foi todo seguro para dentro da sala, sentou junto com novos amiguinhos, reviu outros e praticamente se esqueceu de dar tchau para mim.

Então eu fiquei tentando lembrar da minha segunda série e comecei a ter calafrios. O ano era 1990 e eu troquei o ensino particular pelo público. Fui do pequeno Colégio São Domingos para a grande Escola Municipal de Primeiro Grau Tenente José Maria Pinto Duarte. Ficava (fica, porque ela ainda existe) no alto de um morro e as janelas davam para a barulhenta Avenida Sumaré. As paredes eram todas pichadas e atrás da escola crescia um matagal gigante, onde espécies peçonhentas se proliferavam para, posteriormente, grudar nos nossos cabelos, na hora da fila.

Eu estudava de tarde, porque de manhã eram as classes de 5ª à 8ª série. E era de manhã que acontecia o batismo feito pelos alunos da 8ª nos pré-adolescentes da 5ª. Um tipo de rito de passagem, que marcava o momento em que a gente deixava a infância e já podia ser espancado por gente mais velha durante a hora do recreio. Quem me contou isso foi meu irmão, quando ele fez a 5ª série e passou um ano todinho se escondendo no banheiro durante o intervalo das aulas.

O máximo da agressão que acontecia de tarde entre os alunos mais novinhos era guerra de pão de mel, distribuído de merenda pela Prefeitura. E o pão de mel era tão duro, mas tão duro, que eu tenho certeza que a diretoria da escola abafou todos os casos de traumatismo craniano que ocorreram ao longo dos meus dois anos no Tenente. Graças à Virgem Santíssima, mamãe me tirou destea inferno escola quando terminei a 4ª série.

**

Mas eu não descobri tudo isto no primeiro dia. No primeiro dia de Tenente, na 2ª série, eu descobri que teria aula com a Professora Creuza. Isto mesmo, CREU-ZA. No próprio nome da minha professora já tinha erro de português. Porque, me desculpem as Creuzas, é a mesma coisa que falar probrema.

A Professora Creuza tinha os dentes separados, as unhas compridíssimas e usava um batom vermelho borrado. Era loira tingida do cabelo palha de aço e em seus dedos cabia cerca de 175 anéis pendurados. E a bicha era mais brava que o capeta na andropausa. Se eu precisasse contratar alguém para assustar uma casa com dois cômodos, certamente eu começaria minha pesquisa de preço pela Professora Creuza.

Eu vim para o Tenente toda catita, pequenininha, com minhas canelas finas e minha franjinha reta, falando baixinho e com um nó na garganta. Eu tinha tido na primeira série aulas de educação musical, ensino religioso e ciências com a Tia Marta. Aí meus pais me colocaram para estudar com o demo.

- Tia Creuza, posso ir ao banheiro?
- Eu já andei de calcinha na sua casa? Já empurrei carroça com a sua mãe? Então, puta que pariu, não sou sua tia. Me chama de PRO-FES-SO-RA.

Nem sei se foi nesse momento em que mijei nas calças na sala de aula.

**

O caso é que com o passar o tempo eu fui me transformando nesse monstro e a Professora Creuza começou a gostar de mim. Não sei se era cumplicidade por causa de nossos nomes, ou se ela realmente admirava meu desempenho. Enfim, eu virei o xodó da Professora Creuza e há quem diga que ela gostaria que eu a chamasse de tia.

Até que em um certo dia, sei lá porque cargas d’água, eu esqueci de fazer a lição. Era uma redação simples, mas vagabundiei e não fiz. A professora sempre chamava meia dúzia para ler a redação, por isto todos tinham que fazer porque nunca sabiam quando seriam chamados.

Eu respirei fundo e comecei a rezar. Se eu tivesse muita sorte não seria escolhida justo naquele dia. Só que eu não tenho nem pouca sorte, que dirá muita. E adivinha qual foi o primeiro nome que a Professora Creuza chamou?

- Leonor!

Lógico que foi o meu.

O fato é que desde pequena eu sei contar histórias e naquela tarde abri meu caderno, olhei para a página em branco e inventei uma historinha emocionante sobre o Lumbo: um elefantinho orelhudo que era tirado dos braços da mãe para fazer um número de circo e um dia conseguiu voar.

Causei uma comoção geral na sala de aula e chegou até a escorrer uma lágrima de sangue dos olhos de Creuza. Todo mundo aplaudiu de pé.

- Muito bom, Leonor. Agora traga a redação para mim, sim?
- O que?
- Traga a redação que você escreveu aqui na minha mesa.

Me fodi.

- Não pode ser depois do recreio?
- Não. Qual é o problema de me entregar agora?
- É que… é que… eu não fiz.

Chego a acreditar que a Professora Creuza já sabia que eu não tinha feito a redação, mas quis ver até onde eu iria aquele dia. E eu fui até o “e eles viveram felizes para sempre”. E perdi o direito de descer para o recreio, porque tive que inventar uma nova história, desta vez no papel.

Pensando melhor em tudo isto, nos pães de mel, no batismo, nos bichos peçonhentos e no Tenente, acho que vou procurar a Professora Creuza para agradecer por ela não ter me deixado descer àquele dia. No fim das contas, ela foi bem mais que uma tia.

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Lucas pela primeira vez no avião

21 Janeiro, 2009 · 39 Comentários

Eu não fui, mas estava lá.

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Observações gerais:

  • O empolgado que filmou o Lucas foi meu irmão. Valeu, Digo, por compartilhar esse momento comigo e com mais tanta gente que ama o Luquinhas.
  • O vídeo é grande, tem mais de 10 minutos.

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Sobre como a gente descobre que o filho não tem nadado pelado no Rio de Janeiro

15 Janeiro, 2009 · 9 Comentários

Pelo telefone:

- E aí, Luquinhas? Vai voltar negão de tanto ir na praia?

- Ah, mãe. Só a minha bunda que não.

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A primeira vez a gente nunca esquece

9 Janeiro, 2009 · 18 Comentários

Na primeira vez que voei de avião e vi o céu bem de pertinho, eu já tinha um filho. E meu filho já andava, falava e já tinha tomado sete pontos no supercílio. O Brasil já era pentacampeão mundial de futebol, o Corinthians tri do brasileirão e primeiro campeão do mundo reconhecido pela FIFA (não discutam).  O Neto já tinha parado de jogar há bastante tempo e até já tinha emagrecido. O homem havia chegado na lua há mais de 30 anos (ou não), um aparelho de DVD já custava menos de R$ 200 e o videocassete estava devidamente aposentado (não para mim, que ainda tenho uma coleção de fitas antigas de vídeo).

Quando eu viajei pela primeira vez de avião, já vivíamos em pleno século XXI e tínhamos sobrevivido ao bug do milênio. Não existia mais Transbrasil e pouco tempo depois a Varig seria comprada pela Gol. Já se comemorava o centenário da Dercy, eu tinha quase 22 anos e trabalhava com jornalismo. Ou seja, parece que foi ontem que eu viajei pela primeira vez de avião. E foi quase ontem mesmo.

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Por isso que proporcionar a primeira viagem de avião para o Luquinhas aos 7 anos me encheu de orgulho. Eu sei que para uma criança voar nos anos 80 era preciso raspar toda a conta poupança e ainda vender a mobília da casa. Hoje, não precisei desembolsar nem R$ 80, incluindo a taxa de embarque. Mas me encheu de orgulho assim mesmo, dá licença?

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Começou assim: meu irmão, que mora no Rio, veio passar as festas de fim de ano aqui em casa. Ele voltaria para o Rio de Janeiro no dia 5 e depois, lá pelo dia 8, meus pais levariam o Luquinhas para passar 10 dias. E viajariam de ônibus, como fazem todas as férias.

- Puta que pariu! A passagem de ônibus está custando R$ 88 para o Rio de Janeiro – falou Dona Rose em uma manhã de sol.

Aí lá pelo dia 2, o Lucas acordou com uma caraminhola na cabeça:

- Mãe, me deixa ir com o titio antes para o Rio?

- Lucas, seu tio já comprou passagem de avião e nessa altura do campeonato já não tem mais passagem promocional para o dia 5.

- Não custa dar uma olhadinha, né?

E não custava. Aí meu irmão entrou na internet e viu que no mesmo vôo ainda tinha uma porção de lugares vagos. E que a passagem para criança custava R$ 56. Com a taxa de embarque R$ 76, ou algo do tipo. Ainda mais barato que o ônibus. E a poltrona ao lado do meu irmão estava vaga. Bom, uma coisa leva à outra e pimba!

- Lucas, você vai viajar de avião.

E foi assim que toda a vizinhança acordou cedinho naquela manhã ensolarada das férias.

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A partir desse dia, o Lucas não falou de outra coisa. Perguntava para todo mundo se já tinha andado de avião porque ele ia andar pela primeira vez. No mercado, na piscina, no açougue, no shopping, na família. Ninguém escapou das indagações do Lucas. Ele teve até um papo com o pai dele, de homem para homem:

- Pai, me fale sobre aviões.

- Mas o que você quer saber?

- Não sei, vai me falando as coisas. Tipo comida, sobremesa. Você é mais experiente.

E as perguntas não paravam nunca:

- Será que terão muitos amiguinhos para eu brincar?

- Que roupa eu devo ir?

- Quantos dias vou ficar dentro do avião?

E nem tive coragem para dizer que eram só 30 minutos.

**

No dia anterior à viagem, Luquinhas queria dormir às sete da noite para o tempo passar mais rápido, embora ele só fosse viajar às sete da noite do dia seguinte.

Separou todo o seu “kit de sobrevivência em aviões”: máquina fotográfica, um papel e uma caneta para “escrever tudo o que acontecer dentro do avião”, DVD do Kung Fu Panda e uma lupa. Colocou tudo na mochila e já sabia o que era bagagem de mão.

Antes de dormir, ele me chamou no quarto e disse:

- Mãe, me fale mais sobre aviões.

Putaquel.

- Do que mais você precisa saber?

- Assim, eu sei que para viagens mais longas; tipo Estados Unidos, Nova Iorque, Santos; os aviões tem primeira classe…

- Lucas, dá para ir a pé para Santos.

- Tá, tá. Continuando, eu queria saber se na primeira classe existe espaço para fazer algumas coisas…

- Que tipo de coisas?

- Tipo tocar piano.

Alguém sabe o telefone de um bom psiquiatra infantil?

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Aí chegou o grande dia: segunda-feira, dia 5 de janeiro de 2009, primeira viagem de avião do Luquinhas. Eu fui trabalhar e prometi que voltaria lá pelas 16h para levá-lo ao aeroporto. Passei o dia com o coração apertado e acho que descobri que não tenho medo de voar, mas tenho medo de que meu filho voe.

- É só por meia horinha, Lelê – falou o meu estagiário.

- Meia horinha, mas é alto do mesmo jeito.

Quando cheguei em casa, ele tinha passado até perfume. Estava com o topetinho armado, com a calça do Batman e uma jaquetinha jeans. Então eu derreti e escondi todo o meu medo. Ele merecia aquilo.

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Aqui cabe um parêntese muito importante: se for possível, proporcione isso para sua criança quando ela ainda é pequenina porque ninguém dentro do avião achará estranho reações do tipo apertar todos os botões, espremer a cara na janelinha o tempo todo, fotografar de cinco em cinco minutos as nuvens do céu, chamar a aeromoça 100 vezes para pedir água, querer conhecer o banheiro e ficar preso no cinto de segurança na hora que todo mundo está desembarcando. Foi bem constrangedor tudo isso para mim aos 22 anos.

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A primeira coisa que você faz quando chega ao aeroporto é mandar o seu filho parar de gritar. Depois, vai enfrentar a fila do check-in. Enquanto eu e meu irmão retirávamos as passagens, o Lucas começou a conversar com um outro cara que estava despachando as bagagens:

- E aí? Você já andou de avião? – meu filho perguntou, embora esse não seja o tipo de pergunta que se faz para um cara que está despachando as bagagens.

- Já sim – respondeu o homem.

- Ah tá. Eu vou viajar de avião hoje – Luquinhas resolveu situar o cara, embora esse não seja o tipo de informação que você dá para uma pessoa na fila do check-in.

- Para onde você vai?

- Vou para o Rio de Janeiro. Sobrevoar Copacabana, ver a praia, a mulherada de biquíni…

- Hahahaha. Eu sou do Rio de Janeiro, mas vou mais longe que você. Vou para Olinda.

- Ô, tio! Por que só eu não vou para esses lugares legais?

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Na hora de ir para a sala de embarque, tive que me despedir. O Lucas fez daquelas cenas de voltar correndo para me abraçar quando estava chegando no portão de embarque e eu respirei fundo para não chorar, porque eu não sou mãe bundona, mas é difícil saber que ele ficará longe por mais de 10 dias.

Paguei o estacionamento do aeroporto, entrei no carro e liguei o rádio:

- Um avião perdeu a asa e…

E não sei o que aconteceu porque eu desliguei o rádio. E também bati o carro na pilastra no estacionamento, mas aí é outra história.

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O Luquinhas chegou bem e amou a viagem. Fez amizade com as aeromoças, comeu nhoque oferecido pela GOL (arght!) e conheceu a cabine do piloto, coisa que eu ainda não fiz. Mas na minha próxima viagem, pedirei para a aeromoça me levar lá, nem que eu tenha que mentir a idade.

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7 Janeiro, 2009 · 9 Comentários

Tô moribunda. Morrendo de saudade do meu filho que está no Rio de Janeiro enquanto eu fico trabalhando. Embarcou segunda (e vou escrever ainda sobre sua primeira experiência aérea) deixando meu coração apertadinho. E eu já sei como vai ser: nos 3 primeiros dias perderei a vontade de viver. Depois ficarei 7 dias aproveitando a vida loucamente e lá pelo décimo dia estarei terrivelmente sensível. Chorando com criança artista na TV, mensagem de paz da Ana Maria Braga, casais que se formam em programa de namoro. Beijomeligaapartirdesextaatéquintaquevem.

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Metrossexual

12 Dezembro, 2008 · 10 Comentários

Lucas se tornou um menino vaidoso. Gosta de sair bem arrumado, de cabelo penteado e com um perfume de criança nada exagerado. Ontem íamos ao shopping e eu o arrumei bem bonitinho. Quando ele chegou na sala, minha mãe foi logo elogiando:

- Lucas, como você está lindo!

- E posso ficar ainda melhor. Mãe, me traz uma gravata!

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Lucas e as notícias de sua família imaginária

8 Dezembro, 2008 · 20 Comentários

Lucas resolveu dar notícias de sua família imaginária.  Estão todos passando quatro semanas em Nova Iorque. Parece que ficarão por lá nas festas de fim-de-ano.

- Lucas, mas você não ficará triste por não estar com sua família no Natal e no Ano novo?

- Não, mãe. A bebezinha ficou comigo.

- Por que você não deixou ela ir para Nova Iorque, Lucas???????

- Porque ela já tinha ido para o acampamento, ué.

Graças a Deus, eu nasci mãe do Lucas e não filha.

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Agradecimentos

20 Novembro, 2008 · 12 Comentários

Pessoal, muito obrigada para cada um que deixou comentário no post debaixo. Para os amigos de sempre, para os leitores fiéis e para aqueles que estão sempre aqui, mas que nunca tinham deixado uma palavra. Os comentários serão impressos e colocados no álbum dele. Obrigada também para quem leu e não escreveu, mas desejou tudo de bom para o Luquinhas. Beijos a todos.

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Sete

12 Novembro, 2008 · 79 Comentários

1

Filho, hoje você faz 7 anos. E, apesar da memória da mamãe não ser lá essas coisas, me lembro de cada detalhe daquela segunda-feira chuvosa, quando você nasceu. Me lembro de ter levado a mala de internação para a sala e ligado a televisão pela manhã antes de ir ao hospital. E ouvir a Ana Maria Braga dizendo que aquele era um dia muito especial para ela porque era como nascer de novo. Naquele dia, ela apresentava o programa ao vivo pela primeira vez depois de muito tempo, porque tinha ficado afastada tratando um câncer. Acho que essa é a única coisa que tenho em comum com a Ana Maria Braga: nascemos de novo no dia 12/11/2001.

2

Só estou te contando essa história da apresentadora horrorosa daquele programa ruim para mostrar o quanto me lembro de tudo. Entrei no carro com a maior barriga do mundo e cheguei na Maternidade Santa Joana antes das dez da manhã, embora o parto estivesse marcado para às duas da tarde. Do meu lado, sempre a vovó e o vovô. Seu pai estava lá também.

3

Me deram para vestir aquelas roupas de hospital que deixam a bunda de fora, pantufas descartáveis e aquela touquinha ridícula. Eu não estava lá muito bonita para esperar sua chegada, é bem verdade. E me encaminharam para a sala pré-parto, longe de todo mundo, onde só as grávidas e seus filhos prontos para nascer podiam ficar. Tinha uma televisão por lá que só exibia o canal rural. Fiquei horas assistindo peões em seus cavalos, parto de bezerros, corte de gado, adubo de pastagem.

4

Na sala, era um entra e sai de mães aflitas. A cada dez minutos, aparecia um médico na porta e perguntava: “Preparada?” para uma de nós. Confesso que não me lembro das respostas, mas acho que nunca ninguém estará preparada para o que é ser mãe, por mais que a gente pense que esteja. Acho que quando o Dr. Daurizio apareceu, atrasado, lá pelas três da tarde, eu disse que estava, mas minha resposta hoje seria outra.

5

Quando me deitei naquela mesa gelada da sala de parto, me lembro de ter sido apresentada ao auxiliar do obstetra, o Dr. Rogério, e de respirar fundo quando o o anestesista me mostrou o tamanho da agulha que entraria nas minhas costas em muito pouco tempo. Só por você eu tomaria uma injeção daquele tamanho, filho. Por ninguém mais.

6

O Dr. Rogério era corinthiano e o Dr. Daurízio, com quem fiz meu pré-natal, era anti. Acho que se ele soubesse que você se tornaria esse corinthiano tão apaixonado teria te colocado de volta na minha barriga. Mas tinha como não ser? Além do sangue, falamos sobre futebol o parto todinho. Tomei uma bronca do médico porque engoli ar e provavelmente teria cólicas terríveis, mas faz parte da natureza da nossa família a teimosia. No fim das contas, nem tive uma colicazinha sequer.

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Depois de muito penar, o Dr. Daurízio conseguiu te trazer para o lado de cá. Sofremos um pouco porque eu era pequena, com meus 19 anos recém-completados, e você já era um gigante. Nasceu com quatro quilos e cem gramas. E se recusou a chorar quando nasceu. Você tossiu, filho. Deu uma tossidinha meio blasé e fez os médicos e os enfermeiros rirem. E fez a mamãe chorar. No seu primeiro minuto de vida, quem estava ali já sabia: você tinha vindo para fazer todo mundo muito mais feliz.

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Foi assim que você nasceu, Lucas. E daqui para a frente, é bem provável que você se recorde de tudo quando tiver seus 26 anos, igual a mamãe. Vai se lembrar da sua formatura de alfabetização, exatamente como eu me lembro de cantar aquelas músicas no Colégio São Domingos. E não vai esquecer do aniversário em que ganhou todos os bonequinhos do Star Wars, nem do dia que a mamãe te levou para andar de cavalo, aquele pangaré cheio de carrapatos do Parque da Água Branca. Se lembrará dos amigos e de quem estiver por perto. Das músicas que ouvia quando criança, das roupas que usava. Em 2027, falará com nostalgia do ano 2008, dos desenhos que assistia, dos livros que lia, das paixões da infância.

71

E aquilo que não lembrar, mamãe estará sempre aqui para contar. Como aquele dia em que você dançou com uma odalisca, ou rachou a cabeça na mesinha da sala.

8

Sua primeira palavra, seu primeiro dente perdido, seu primeiro amigo.

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Todos os planos para novas artes, as manhas, as malcriações. Os carinhos, os afagos, os colos quando a mamãe está chorando.

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Os papos, os parques, as viagens. Os cinemas, os filmes na televisão, os doces antes do almoço. Quando você aprendeu a escrever seu nome.

911

Sua família imaginária, suas namoradas imaginárias. A semana toda de internação no hospital e o susto que você deu na gente.

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Quando você foi ao circo pela primeira vez (e odiou).

11

Quando começou na natação.

12

Os desenhos bonitos que fazia.

13

As coisas inteligentes que sempre disse.

14

As brincadeiras.

15

Os sonhos.

151

As dúvidas.

152

O futebol.

16

As zoeiras.

161

A escola.

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Enfim, tudo o que quiser saber. Porque a mamãe, Luquinhas, estará sempre aqui. Do primeiro ao último dia. Para sempre.

Feliz aniversário!

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Sobre família

5 Novembro, 2008 · 16 Comentários

- Lucas, no sábado, depois da sua formatura, o sonho da sua vida será realizado. Eu e seu pai vamos te levar para almoçar. Todo mundo junto!

- Mãe, o sonho da minha vida sempre foi andar de cavalo.

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Formatura de alfabetização. #q?

31 Outubro, 2008 · 34 Comentários

No sábado que vem é a formatura de alfabetização do Lucas. Alguém já tinha ouvido falar disso? Vejam bem, não é formatura de pré, porque isso já foi no ano passado quando ele saiu do pré. É formatura da primeira para a segunda série. Vou ser antiga agora e dizer que na minha época não tinha nada dessas coisas. Quando saí do Pré III, cantei meia dúzia de músicas para envergonhar a mamãe e só fui fazer isso de novo na 8ª série. Depois no 3º colegial e depois na universidade. Quatro vezes na vida já não eram suficientes?

Mas não. Agora a escola do Lucas inventou que eu tenho que ir no sábado, às 9h da manhã, em um auditório na Rua Augusta ver o meu filho ler “inconstitucionalissimamente” escrito em um pedaço de cartolina. Claro que eu vou me emocionar, vou ficar orgulhosa, vou chorar, abraçar meus parentes e vou gritar para todo mundo ouvir ter você é o meu desejo de viver que o Lucas é a criança mais inteligente do mundo. Mas eu acho essas coisas todos os dias, mesmo quando ele escreve “o omem é çimpáticu”. Ninguém precisava ter me cobrado 300 e tantos dinheiros para isso.

**

Aí chegaram três convites para a formatura e eu fiquei indignada:

- Como assim só três????

Só lá em casa somos em três. E o pai dele? E a Thaís? E a madrinha? E meu primo? E o meu irmão? E minha tia? E meu tio? E os vizinhos todos? E o Tobby?

Liguei na escola com o discurso já na ponta da língua:

- Bom dia, meu nome é Leonor, sou mãe do Lucas do primeiro ano e ele terá a formatura de alfabetização na semana que vem, gente, que que é essa formatura de alfabetização?, e por sinal eu paguei muitos reais pra isso, bem, mas voltando ao assunto, eu só recebi três convites! Três convites!!! Isso é um absurdo. Que modelo é esse de família que vocês estão tentando ensinar para o meu filho? Mamãe, papai e irmãozinho? Isso é coisa do século passado, minha senhora. Ele é criado por mim e pelos avós maternos. Só nós somos em 3. Mas nem por isso o pai deixa de ser presente e deixa de ter o direito de ir na formatura do próprio filho. E ele namora há muitos anos com a Thaís, que também tem o direito de ir na formatura do enteado dela. E meu filho também tem os padrinhos, talvez meu irmão venha do Rio para isso. E se meu namorado estivesse em São Paulo ele ia querer ir também. E o que eu faço com esses míseros 3 convites??? Sorteio entre todo mundo que gosta do meu filho? Eu paguei uma fortuna. Vocês, no mínimo, deveriam ter alugado o Pacaembu para a cerimônia. E agora, minha senhora?

- Oi, Leonor. Bom dia. Esses convites são simbólicos para a senhora guardar como recordação. Pode entrar quem quiser na formatura.

- Ah tá, obrigada.

E desliguei.

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Lucas no acampamento

24 Outubro, 2008 · 15 Comentários

Uma das vantagens dos filhos de pais separados é não passar pelo vexame de ver sua mãe na porta da escola se descabelando só porque você vai passar uma noite fora, em um acampamento. Isso porque as mães solteiras se acostumam desde cedo com o fato de não ter seus filhos consigo pelo menos uma vez a cada 15 dias. E chega uma hora que fica um tanto quanto ridículo chorar toda vez que seu filho leva o travesseirinho para dormir na casa do pai.

Hoje pensei que o ônibus do Lucas não conseguiria partir porque alguns pais o cercaram e apertaram seus narizes contra as janelas para um “último adeus”, pelo menos até amanhã, quando as crianças retornarão.

- ME LIGA!!!!!

- ME ESCREVE, FILHO!!!

- MANDA UM POSTAL!!!

- NÃO ESQUECE DA MAMÃE, POR FAVOR!!!

- A MAMÃE TE AMA E VAI TE AMAR PARA SEMPRE, NUNCA ESQUEÇA DISSO!!!

Claro que na hora que o ônibus parte, do mesmo jeito que na hora que a porta se fecha de 15 em 15 dias, dá um aperto no fundo peito, mas daí a achar que seu filho vai esquecer do seu amor só porque ele foi passar meio fim-de-semana em um acampamento já é demais. Fico pensando que é até bom que ele esqueça da mãe em alguns momentos do dia, para evitar anos a fio de culpa e terapia.

Enfim, a preocupação existe, mas se eu chorasse seria muito mais de inveja por ele ir e eu não. E eu bem queria que ele me escrevesse um postal, embora não desse tempo de chegar antes de ele voltar, porque meu filho é semi-alfabetizado (ou seja, semi-analfabeto) e escreve coisas como “Espidi Racer”.

Imaginaram? Na frente, uma foto de um sítio barrento em Mairiporã. Atrás:

“Oi, manhe. Aqui no çitiu istá tudo bem. Istou si divirtinu muintu. Amu vosse. Lucas”

Uma fofura que eu ia guardar para o resto da vida só para zoá-lo diante das novas namoradas.

**

Na verdade, o que tem me preocupado muito é que o Lucas saiu sem deixar nenhum bilhete para a família imaginária. O pior é que eu não sei onde eles estão para tentar avisá-los. Ficarão desesperados quando derem pela ausência do chefe da família e da bebezinha.

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“Fui comprar cigarros. Levei a menor”*

23 Outubro, 2008 · 17 Comentários

Lucas vai para um acampamento com a escola amanhã e está incrivelmente empolgado. Faz uma semana que ele só fala nisso. Hoje fui tirá-lo do banho e ele disse:

- Mãe, sabe que todo esse tempo eu fingi que tinha uma família?

- Como assim, Lucas? Durante o banho, você diz?

- Não, mãe. A vida toda. Durante a minha vida toda eu fingi que tenho filhos e uma esposa. Imaginários.

- Ah, sim. E daí?

- E daí que amanhã vou viajar e queria ajuda para escrever um bilhete avisando que eles não vão e que eu só levarei a bebezinha!

*título dado pelo meu irmão quando soube da história

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“Nossos jedays”: a coisa mais feia do mundo

1 Outubro, 2008 · 23 Comentários

Meu filho tem um amiguinho no prédio chamado Felipe. O Felipe é gente boa, passa a tarde lá em casa vez ou outra. Ele é fã de Star Wars igual ao Luquinhas e os dois lutam com seus sabres, uma graça. O Felipe tem uma mãe que também tem orkut. E ela achou legal pegar uma foto do rosto do Lucas e outra do rosto do Felipe e fazer uma montagem.

Tô indo ali zoar mais duas horas com a cara do Luquinhas e já venho.

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Luquinhas no hospital – Parte II

29 Setembro, 2008 · 35 Comentários

Emagreci 3 quilos no tempo em que o Lucas ficou no hospital. Vejam bem: 3 kg em 6 dias. Eu deveria aparecer na capa daquelas revistas Dieta Mais, Boa Forma, dando a receita do meu sucesso: “foi tão simples. Meu filho de 6 anos teve um derrame no pulmão esquerdo e eu fiquei sem comer e sem dormir por alguns dias”. Claro que emagrecer foi a parte boa de tudo isso e eu agradeci muito ao Luquinhas depois, porque juro que estava tentando perder uns quilinhos há uns bons 12 meses.

Mas não comer e não dormir não foram opcionais. Vieram no pacote das preocupações, das angústias, da parte mais difícil de ser mãe. Do nó que fica na garganta, do bolo no estômago, da comida não digerida desde o momento em que a médica anunciou o derrame no pulmão. E das enfermeiras maníacas que te acordam de meia em meia hora na madrugada para a inalação, o antibiótico, o antiinflamatório, o digestivo, o corticóide, bater um papinho, falar da novela, te contar do casamento da Sandy.

**
O plano de saúde do Luquinhas é um plano muito bom e justamente por isso arranjaram um quarto para ele na maternidade. Caso contrário, era bem capaz de sermos transferidos de hospital comigo levando o Lucas de cavalinho e o pobre do garoto assoprando dentro de um saquinho de pão para conseguir oxigênio. O seguro nos deu direito a ficarmos em um quarto cujo horário de visita começava às 8h da manhã e terminava às 21h.

Às 8h da manhã do sábado meus pais entraram pela porta daquele quarto carregados de doces, revistinhas, brinquedos, além do videogame do Luquinhas, vários jogos, uma porção de DVDs, roupas limpas, agasalhos, a pantufa de tigrinho do meu filho, enfim. Tudo o que avós como meu pai e minha mãe conseguiriam carregar, além do coração apertado.

Lá pelas 9h, o pai do Lucas chegou com a namorada Thaís, também carregando mais um quilo de chocolate, um super trunfo e ainda mais revistas e mais preocupações. O Lucas fez um tour com todo mundo pelo quarto, apresentou o banheiro chiquérrimo, a geladeirinha, mostrou as funções da cama e disse como estava adorando tudo aquilo e como gostaria de morar no Hospital São Camilo pelos próximos anos.

**

Na primeira visita da médica, a previsão de alta ainda era bastante incerta:

- Para sair daqui, o Lucas precisará eliminar todo o líquido do pulmão esquerdo. Até terça-feira, no mínimo.

Longos dias.

**

Consegui ligar para meia dúzia de amigos, mandei meia dúzia de mensagens, avisei minha chefe, falei com a família. E concluí que a palavra derrame choca mais do que um palavrão cabeludo pronunciado por um padre durante uma missa.

**

Os remédios do Lucas eram todos intravenosos e durante os primeiros dias ele teve de tomar penicilina. Ação: penicilina queima. Reação: Lucas grita.

- Doeu pra cacete!
- LUUUUUUUUUUUUUUUUUCAS!
- Ai, desculpa. Mas é sério, mãe. Doeu pra cacete mesmo.
- Tudo bem…

Bom, se a gente não vai liberar os palavrões para os nossos filhos nessas circunstâncias, quando é que vamos fazê-lo, né?

**

Quando a fisioterapeuta entrou no quarto, Lucas olhou para a sua foto do crachá e disparou:

- Nossa, você está muito mais feia hoje do que quando tirou esta foto. O que aconteceu?

Eu queria me enfiar debaixo daquele sofá marrom e nunca mais sair.

**

O principal problema de ficar na ala da maternidade foi a falta de tato de algumas enfermeiras para lidar com criança. Elas estão acostumadas a cuidar de mãe, que é o que sobra da mulher depois que ela sai da sala de parto. Mas uma, em especial, merece todo o meu empenho no Kung Fu, rumo à faixa preta. Juro, fiz até respiração cachorrinho para não dar um faca do pé na mulher.

Veja bem, o Lucas estava tomando remédios fortíssimos na veia e doía. Então, bastava uma enfermeira entrar no quarto para que ele entoasse o mantra do Aiai Uiui, seguido de uma manha incrível, mas, assim como o palavrão, as manhas estavam liberadíssimas durante o tempo do hospital. A hora do remédio era o único momento em que Luquinhas lembrava que não estava em um acampamento de férias.

- Aiai, está doendo, está doendo…
- NÃO ESTÁ DOENDO! – disse, delicadamente, a babá do Hitler a enfermeira Mônica.
- Não está doendo porque não é em você – tive de intervir, ué.
- Lucas, com essa manha você vai acordar todos os bebezinhos da maternidade – ela chantageou.

Cadê o palavrão, Luquinhas?

- Nós queríamos uma vaga na pediatria. Foram vocês que nos colocaram aqui na maternidade – respondi pelo Lucas mais uma vez.
- Mas na pediatria também tem bebezinhos – falou a enfermeira.
- Só que o Lucas não seria a única criança a gritar, tenho certeza.

Bom, é claro que quando todos saíram, às 21h, essa mulher me fodeu. Era ela a enfermeira do plantão da madrugada de sábado para domingo e eu não pude pregar os olhos a noite toda. Ela não deixou e sequer teve a dignidade de vir conversar comigo sobre o casamento da Sandy.

**

Às 21h30 do sábado, com o Lucas já dormindo, apaguei a luz e capotei. Comecei a sonhar com o Ivan quando, dez minutos depois, a Rebecca de Mornay acendeu uma luz na minha cara. Eu abri os olhos e vi aquela cara em cima da minha dizendo:

- Vou colocar o antibiótico no Lucas e você não vai poder dormir até parar de pingar.

Meu coração saltou pela boca. Nessa cena só faltou a faca na mão direita da enfermeira e ela segurando a cabeça do Lucas com a mão esquerda. Juro que rolou até uma risada malévola no final da frase e eu me belisquei cem vezes para ver se não estava tendo um pesadelo.

Olhei gotinha por gotinha e o remédio parou de pingar lá pela meia noite. Desliguei a luz e consegui dormir por meia hora, mais ou menos. Perto de uma hora da manhã, senti tapinhas em minhas costas. Era a maldita:

- Segura a inalação para o seu filho?
- Segura na minha e balança?

Não, gente, não falei. Eu só pensei.

**

Meus amigos são incríveis e o domingo ficou agitadíssimo lá no hospital. Durante o dia todo, ficou um entra-e-sai de gente e de presentes e de chocolates naquele quarto. Se a gente tivesse feito uma pesquisa Ibope para saber quem era o mais prestigiado daquele andar, o Luquinhas teria ganhado disparado de qualquer outra mãe recente e seu pequeno feto.

- Tio, isso aqui está o máximo. É tipo o meu aniversário. Todo mundo que vem aqui me traz um presente – ele contou para o meu irmão pelo telefone.

**

Quando avistei pelo hospital uma placa escrita “INTERNET”, dei um twist duplo carpado de tanta felicidade. Eu estava há dois dias sem ver o meu e-mail e precisava urgentemente de algum contato com o mundo exterior para além do as enfermeiras me contavam.

Cheguei naquilo que o Seu São Camilo chamava de internet e eram quatro computadores 386, sem absolutamente nenhum sinal de conexão. Tinha um interfone lá, que parecia ser o tal do contato com o mundo exterior. Fiquei pensando que do outro lado um menino com conexão ia atender, ia perguntar qual site nós queríamos que ele acessasse:

- Por favor, o gmail.
- Qual é seu login e senha?
- Bláblábláblá.
- Você tem 175 novos e-mails.
- Leia para mim os e-mails de números primos, então.

Foi quase isso.

- Bom dia, informática.
- É da informática? Como eu faço para conectar a internet nessa carroça?
- Estamos sem internet desde quinta-feira, minha senhora.
- Tem previsão de quando volta?
- Não temos previsão, senhora.

Meu deus, será que alguém ia conseguir me dar previsão de alguma coisa nesse hospital?

- Então vou perguntar para a médica se ela tem alguma previsão de quando a internet volta. Mas será que você poderia me dizer que dia que meu filho terá alta?

Não perguntei para ele, mas deveria ter perguntado, né?

**

No fim da tarde, aproveitei que o quarto ainda estava cheio de amigos e decidi ir para a casa por uma hora, para tomar um banho decente sem nenhuma cortina de plástico escrita São Camilo grudando na minha bunda, conseguir acessar meus e-mails e comer alguma besteira. E o Seu São Camilo tinha me mandado alguma maldição porque em casa também não tinha conexão. Mas tinha água e uma caixa de Chicken Pop Corn. Chupa essa manga, Seu São Camilo!

**

Na noite de domingo, Luquinhas foi transferido para um quarto na pediatria. Lindo de verdade, pintadinho em tons pastéis, uma TV de tela plana, um sofá laranja, uma poltrona moderna daquelas que esticam os pés, um banheiro super equipado e até uma varandinha para receber as visitas. Agora quem queria morar ali era eu.

**

Lá pelas duas da manhã de domingo para a segunda, eu olhei a mão do Lucas onde estava o catéter e vi que ela tinha se transformado em um panetone, graças a deus sem as frutas cristalizadas. Chamei a enfermeira correndo, que nem nos filmes:

- Somebody help meeeeeeeeeeeeeeeee!

Mostrei a mão do Luquinhas (ambos estavam dormindo) e a reação dela não foi das melhores:

- Minha nossa! Perdemos a mão.

Quase desmaiei.

- Q-QUE????
- Quer dizer que vamos ter que tirar o catéter dessa mão e colocar na outra. Essa veia já não agüenta mais nada.

E eu já pensando em amputação.

- Na hora do antibiótico eu venho para furar a outra veia do seu filho.

Olhei o Lucas ali, dormindo, sem saber o que estava acontecendo, sonhando com alguma coisa boa e nem imaginando que ia ter que furar a outra mão logo mais. Pedi desculpas.

Às 5 da manhã, Luquinhas acordou sobressaltado:

- O que vocês vão fazer?
- Desculpa, filho, mas a enfermeira vai ter que colocar o catéter na sua outra mão.

E foi assim que o Lucas acordou todos os bebezinhos da pediatria e da maternidade também. Chupa essa manga, enfermeira Mônica!

**

Durante a semana, as visitas diminuiram porque esse é um país sério e quase ninguém trabalha em ONG. Os dias ficaram mais longos, comigo acessando a internet do celular de cinco em cinco minutos, Luquinhas tentando comprar personagens novos no Lego Star Wars e meus pais tentando achar algum programa decente na TV a cabo.

De segunda à sexta-feira, das 14h30 às 16h, funciona no hospital uma brinquedoteca. Luquinhas ficou sabendo disso e lá pelas 9h da manhã começou:

- Falta muito para as 14h30?
- Sim.

Cinco minutos depois:

- E agora?
- Sim.

Mais cinco minutos depois:

- E agora?

Juro, lá pelas 11h eu estava com vontade de me atirar da varandinha.

**

Na terça-feira, eu comecei a arrumar tudo na expectativa de que o Lucas seria liberado, mas a médica disse que ainda havia água em seu pulmão e que teríamos que ficar por mais um tempo. Talvez um dia, talvez mais. Eu quis sentar e chorar. Na hora da brinquedoteca, deixei o Lu com meus pais um pouco e saí pela Alfonso Bovero. Comprei o filme Debi & Lóide e voltei toda empolgada para assistir com meu filho.

- Lucas, comprei um filme para vermos. Mas é de adulto!
- Tem mulher pelada? – os olhinhos dele brilharam.
- Não, acho que não. Não me lembro.

Não tem mulher pelada, mas o fato de eu não lhe dar certeza de que não tinha o encheu de esperança e o fez ficar vidrado no filme do começo ao fim. Já descobri como fazer então da próxima vez.

**

- Não quero ir embora, mãe.
- Lucas, você quer ir embora!
- Não quero. Em casa não tem uma brinquedoteca.
- Lucas, em casa tem um trilhão de brinquedos.
- Mas isso não é uma brinquedoteca.

O Lucas, em boa parte do tempo, é muito inteligente. Mas tem vezes que é burrinho demais.

**

Na quarta-feira, a médica passou bem cedinho no quarto e deu alta para o Luquinhas. O pulmão ainda tinha água, portanto o tratamento fora do hospital continua. Apesar da brinquedoteca, o Lucas comemorou a alta. Ganhou mais dois dias de folga na escola, o que fez com que os gritos de “VIVA” e “HIPI HIPI HURRA” ficassem ainda mais altos. Eu voltei no dia seguinte para o trabalho, mas dormi a tarde toda de quarta-feira, sem nenhuma enfermeira para me dar tapinha nas costas de meia em meia hora. É bom estar em casa.

**

Dia desses, antes de dormir, perguntei para o Lucas:

- Cinco lugares onde você queria estar agora, filho.
- Parque, praia, piscina, shopping e hospital.

Putaquel. Morri.

**

Ver o filho doente nunca é fácil, mas em um caso desses é difícil pra caraleo. E, muito provavelmente, eu estaria chorando naquele sofá marrom até agora se não fosse a ajuda de algumas pessoas, além do pensamento positivo, das rezas e da torcida de muita gente. Por isso, agradeço especialmente:

Ao Luquinhas, esse menino forte e corajoso, que me ensina um monte de coisas novas todos os dias, mas a principal delas é saber olhar a vida com olhos cheios de alegria. Tenho muito orgulho em ser a mãe do menino mais legal do mundo.

Aos meus pais, que são os avós que todo mundo deveria ter tido na vida e que estiveram lá comigo todos os dias, das 8h às 21h, no horário que lhes era permitido (e tenho certeza de que se pudessem, eles dormiriam por lá e acordariam todos os dias do meu lado e do lado do Luquinhas, mesmo que tivessem só uma almofadinha laranja para apoiar a cabeça na parede).

Ao meu irmão, que ligou todos os dias, mas tenho certeza que se morasse aqui estaria no hospital o tempo todo também (junto com a Ira).

Ao Ricardo (pai do Lucas) e à Thaís (mãedrasta), que também ficaram por lá pelo tempo que puderam, cuidaram do Lucas e de mim, e fizeram com que o meu carinho pelos dois só aumentasse.

Ao Ivan, namorado lindo que me ligava de cinco em cinco minutos para saber se estava tudo bem. Se preocupou, cuidou de mim e me devolveu a chance de sonhar e planejar um futuro tudo de novo.

Aos meus tios e primos que também estiveram por lá e encheram o Lucas de carinho e chocolate. À Silvia e ao Reinaldo também.

Aos melhores amigos do mundo: Júlio, Silveira, Daygo, Maurício, Elaine e Amber, que jogaram videogame com o Luquinhas, levaram presentes, histórias divertidas, papo furado, colo, cafuné, risadas, livros repetidos (até eu ganhei presente) e trufas.

Ao Gravataí, que também me ligou uma centena de vezes para saber do Luquinhas.

Aos e-mails, ligações e comentários de: Débora, Erika, Teka, Wawa, David, Amanda, Tatá, Laryssa, Ruy, Gabriela Barreto, Adriano, Ju Saad, Nat, Mandioca, Jú, Renata, Filipe, Vanessa, Marília, Bruno, Juju, Wladimir, Ana Carol Moreno, Carol, BZ, Uli, Paula Mirella, Rozzana, Felds, Gisele, Orlando Carvalho, Bruno Ribeiro, Fabrício Vicentim, Andrea Nunes, Ulisses Adirt, Bruno Mazzotti, Eduardo Sena, Leo Giardini, Érica Santos, Aline Cortes, Diego Jock, o pessoal da academia de Kung Fu, ao Gabriel Louback, Marcelo Nóbrega, ao Fabrício Z/S, Mayara, Samuel, Danilo Prates, Leo Godoy, Dani Doduti, Ana Bia, Beth, Pati Carvoeiro, Paulinho, Fábio, Zander, Jô, Carol Canossa, Carol Souza, readymymind (cujo nome eu não sei, desculpe), Adriana, Vinícius, Mawá, Vanessa, Fabrícia, Dede, Rachel Juraski, Doris, Luciana, João Pedro, Bruninha, Emerson, Bia Levischi.

A todas as mensagens que chegaram via twitter (e que foram apagadas pelo tempo).

E a todo mundo que, de alguma forma, torceu a favor. Sem vocês, teria sido mais difícil.

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Luquinhas no hospital – Parte I

18 Setembro, 2008 · 44 Comentários

Foram 6 dias no hospital, logo vou dividir a saga médica do Luquinhas em duas partes.

**

Quando a médica me disse que o Luquinhas tinha tido um derrame na pleura, eu pensei que fosse derreter bem ali, no meio daquela sala gelada do hospital São Camilo. E daí que eu não sabia muito bem o que era pleura? O nome é feio e a palavra derrame me deu tremedeira.

Como é que o meu pequenino tinha passado de um simples resfriado para um derrame no pulmão? Afora o fato de morarmos em São Paulo e o ar daqui ser transgênico, só podia ser culpa do meu inferno astral. Porque, vejam bem, ele ficou terça e quarta com o nariz escorrendo, como uma criança remelenta absolutamente normal. Na quinta-feira, reclamou de dor de ouvido e eu o deixei faltar na escola, mas pensei que fosse pura pilantragem para não estudar, já que de noite ele estava ótimo e fomos até no shopping pegar um autógrafo do Maurício de Sousa. Na sexta-feira, ele foi para a aula, teve uma febre de 38°, o levamos ao hospital e de lá ele só saiu ontem. Se vivêssemos em um seriado, até o Doutor House teria aceitado o caso, de tão bizarro.

**
Enfim, a médica não era tão charmosa quanto o Doutor House, o que tornou tudo ainda pior. Depois de um raio-x do peito do Lucas, ela me disse que ele estava com uma pneumonia forte e com água (pouca) no pulmão, que é o que “derrame na pleura” quer dizer.

- Provavelmente terá que ficar internado, mas vamos repetir o exame.

A palavra “internado” me fez respirar ainda mais fundo porque eu estava a ponto de chorar. Só queria o colo da minha mãe, mas ali a mãe que tinha que dar o colo era eu. Repetimos o raio-x e Luquinhas juntou as mãos em cima da mesa da médica e começou a rezar, pedindo para que não tivesse nada e não ficasse internado. Aí que eu me dei conta: como é que ele sabia rezar o que era “ficar internado”?

**
O segundo exame foi pior:

- A pneumonia dele aqui apareceu ainda maior. Vou consultar a minha colega do lado.

E quando ela voltou, anunciou a receita:

- Internação.
- Tudo bem, amanhã volto para casa – disse o Luquinhas, super confiante.
- Amanhã nada, Lucas. Vai ter que ficar uns dias por aqui – respondeu a médica.
- Quantos dias? – perguntei.
- Não sei.

Sem o charme do House, mas com o mesmo coração gelado. Agora sim, parecia grave.

**
Lucas foi encaminhado para a sala de observação enquanto checavam em qual quarto nós ficaríamos pelos próximos sei lá quantos dias. Estava lotada de crianças de todas as cores, tamanhos, idades e bactérias, e meu filho foi colocado em um berço, todo espremido. Mas aí ele já estava achando tudo o máximo. Até ter que colocar o catéter nas costas da mão para tomar a penicilina. Meu filho vai ser tenor.

**
Quando me chamaram na internação, fui respirando fundo, que nem a gente aprende no Kung Fu para recompor os sentidos:

- Não tem vaga nesse hospital. Ele será transferido de ambulância para algum outro. Só que há uma recomendação médica de sair daqui apenas em uma ambulância com oxigênio.

Ok, foi demais pra mim. Quão grave era aquilo que meu filho só poderia sair do hospital com um tubo de oxigênio do lado? O que é que o Maurício de Sousa tinha passado para ele, meu pai amado?

Nesse minuto, o Ivan me ligou:

- Oi, Lê. Como estão as coisas? Tudo bem?
- Nããããããããããããããããããããão – e desabei, de tanto chorar.

Dei cinco minutos no banheiro para não chegar toda vermelha e inchada na sala de observação e não assustar o Luquinhas, porque quando eu choro fico monstruosa. Ele não percebeu nada, mas a enfermeira fez questão de falar do lado dele:

- Que houve? Estava chorando?

Minha Nossa Senhora dos Estúpidos Profissionais da Saúde.

- Por que está chorando, mãe?
- Tô cansada, filho.
- Ai, tadinha. Você vai dormir sentada aí nessa cadeira de plástico? Vem dormir aqui no berço e eu durmo aí. É mais justo.

Derreti de vez.

**
Cinco minutos. Foi esse o tempo que o Lucas demorou para conquistar todas as enfermeiras da observação e mais uma dúzia de amiguinhos. No berço do lado, estava a Bianca, uma menininha de 5 anos que teve um piriri e foi internada para tomar soro.

- Faz quanto tempo que você está aqui? – perguntou o Lucas.
- MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃEEEE, há quanto tempo estou aqui?
- Você chegou hoje, filha. Já já vai embora.
-  Mãe, quero ir embora hoje também – disse o Luquinhas para mim.
- É que a gente vai para a Disney na segunda-feira – contou a menininha.
- Mãe, eu quero ir para a Disney também.

Quando a Bianca foi embora, eles combinaram de brincar um na casa do outro qualquer dia, se despediram e nunca mais vão se ver. Juro, às vezes eu queria ser criança de novo.

**
- Lucas, talvez você tenha que mudar de hospital.
- Ah, não. Não quero. Quero ficar aqui.
- Mas, Lucas, vai ser demais. Você vai de ambulância! – eu precisava usar algum argumento que parecesse divertido.
- Ambulância? Nem quero.
- Ah, não. Eu nunca andei de ambulância! Me deixa andar, vai? Pelo menos uma vez só. Imagina? Todos os carros te dando passagem e ambulância correndo muito no meio da Avenida Paulista?
- Avenida Paulista?
- ÉÉÉ! A gente pode ficar em um hospital lá.

Pronto. Quem é que nunca quis andar de ambulância pela Avenida Paulista? Meu sonho de infância.

**
Na frente do berço do Lucas tinha uma salinha fechada e lá dentro uma menina gritava muito. Muito mesmo. Toda vez que a portinha se abria, o Lucas tentava olhar lá para dentro para ver porque estavam esquartejando a pobre da garotinha.

De 10 em 10 minutos, a mãe dela saía de dentro da sala segurando uma comadre cheia de xixi e ia esvaziar no banheiro. Então uma médica apareceu, colocou a cara na porta e falou para a menininha:

- Tem que fazer mais xixi. Senão o bicho não vai sair.

Socorro. Lucas arregalou os olhos e eu fiz a mesma coisa. Pelo menos, meu filho nem tentou olhar mais para dentro da portinha.

**
- Lucas, cinco lugares que você queria estar agora?

Sim, estou sob influência de Alta Fidelidade, que terminei de ler na semana passada.

- Minha casa, Rio de Janeiro, Florianópolis, Petrópolis e Paquetá.

Paquetá, gente. Até Paquetá. Realmente, qualquer coisa era melhor do que estar naquele hospital.

**
No fim da sexta-feira, quando eu já estava fazendo o Lucas dormir na sala de observação, me chamaram na internação:

- Conseguimos um quarto na maternidade. Ele ficará por lá até ser transferido para a pediatria.

Eu respirei aliviada porque o Hospital São Camilo fica do lado de casa e seria mais fácil para meus pais irem e voltarem quando quisessem. Mas eu já tinha convencido o Luquinhas de que seria legal demais andar de ambulância. E agora?

- Luquinhas, você vai ficar por aqui e não vai mais andar de ambulância.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Que saco.
- Mas vai andar de cadeira de rodas! VIVA!
- VIVAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

**
- Lucas, você é solteiro? – perguntou a enfermeira preenchendo o prontuário médico e tentando descontrair o ambiente.
- Eu não!
- Como assim você não é solteiro, Lucas? – fiquei indignada.
- Mãe, você que vive me dizendo que eu sou de escorpião.

**
Então, ao ser transferido para o quarto, ele subiu na cadeira de rodas e falou:

- Gente, eu nunca pensei que fosse andar de cadeira de rodas. Eu nem sou velhinho. ACELERA, MÃE!

Ele já estava ótimo.

**
Criança tem uma capacidade de sempre ver o lado bom da coisa e a gente tem muito o que aprender com elas. E o Luquinhas parece que tem essa capacidade redobrada. Ao entrar naquele quarto antigo do hospital, super mequetrefe, ele ficou encantado:

- Gente, que quarto mais chique.

E correu para o banheiro, que mais parecia daqueles hotéis xexelentos de beira de estrada:

-Noooooooooooossa, que chiquérrimo esse banheiro. Vem ver isso, gente.

A cama era daquelas cheias de botõezinhos, que faziam a cabeceira subir e descer. Os olhos dele brilharam:

- Quero morar aqui! Eu sempre quis ter uma cama dessas!

**

- Vou dormir. Boa noite, mãe. Te amo.

Apaguei a luz, me espremi naquele sofá duro de plástico e chorei, chorei, chorei, chorei, até às 4h da manhã. De medo, de pavor. Ser mãe é ter mesmo o coração fora do corpo.

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zzzzzzzZZZZZZZZZzzzz

17 Setembro, 2008 · 11 Comentários

Voltamos para casa: eu, Luquinhas e a alegria! Obrigada pela força, pessoal. Depois conto tudo, porque agora vou dormir.

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Notícias breves, tristes e felizes

15 Setembro, 2008 · 31 Comentários

E daí que o Lucas ainda está morando no hospital depois de ter tido uma pneumonia grave e um derrame na pleura. A boa notícia é que muito provavelmente ele saia amanhã. Conto isso melhor depois. Torçam por aí.

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A criança mais legal do mundo

11 Setembro, 2008 · 16 Comentários

Enquanto a inspiração não vem, esse é um post que escrevi no Indecências, quando o Luquinhas tinha 5 anos. Hoje ele está com quase 7 e já faz natação há um ano e meio. Mas ainda não é lá essas coisas…

**

Se a natureza me desse a oportunidade de escolher quão legal poderia ser meu filho quando ele viesse ao mundo, certamente eu não teria pedido uma criança como o Lucas. O moleque supera todas as expectativas e jamais eu teria imaginado alguém tão legal quanto ele é. Não é coisa de mãe.

Veja bem: decidi colocar o meu filho na natação e comecei a pesquisar preços e escolas da região. Em bairro de burga, duas vezes por semana para uma criança bater os pezinhos na água não sai por menos de R$ 120,00. Isso se você, mãe de primeira viagem, desconsiderar que meninos e meninas pequenos não fazem uma atividade por muito tempo e resolver fechar um plano anual que te dá um desconto. Lá pelo quinto cheque é dinheiro jogado fora.

Enfim, a mais perto de casa, que evita condução de ida e volta, é a mais cara de todas. E não é que o lugar onde moro é o melhor do bairro burga, nem nada. Aqui até alaga. É a Lei de Murphy. E aceitando que a Lei de Murphy é a única que não dá para ser burlada, resolvi fazer lá a inscrição da criança. A atendente logo me alertou:

- A primeira aula é a aula teste! Só para saber qual é o nível do seu filho.

Se ele realmente puxou à família, o nível é baixíssimo. Na água, deixando bem claro. A herança de nadar como um machado sem cabo passa de geração para geração. Foi assim com a vovó, a mamãe e eu.

- E precisa comprar uma touca! E óculos de piscina! E não pode vir com sunga de outra academia!

Tudo bem, tudo bem… Passei o fim-de-semana lembrando meu filho de que segunda-feira era a aula teste.

- A aula em que você tem que mostrar TUDO o que sabe para a professora.

Afundar a cabeça e bater os pés na água. Foi o que chegou mais longe do clã Martin de Macedo. E eu pilhei o menino o dia todo, o fim-de-semana todo e ele realmente ficou bem empolgado para a primeira aula teste.

O meu castigo foi ser acordada às 6h10 da manhã:

- Está na hora da natação?

- Não…

- Amanhã tem aula de natação também?

- Não…

- Eu posso viver debaixo da água para o resto da vida?

- Não…

E de 5 em 5 minutos, Luquinhas ia ao relógio olhar se já estava na hora marcada. Nove da manhã, nos arrumamos: ele colocou a sunga, o chinelo, o roupão de vaca, a toca de silicone e foi para a academia de mãos dadas, pulando, rindo, gritando e com a cabeça toda esmagada e amassada.

Lá, esperou quinze minutos esmagando o nariz contra o vidro para enxergar mais de pertinho as crianças que estavam em aula. Aí a professora fez um sinal e o chamou lá para dentro. Era chegado o grande momento. E ele pulou na piscina com toda a vontade do mundo…

… para exatos dois minutos depois a professora tirá-lo da piscina, dar dois tapinhas em sua bunda e mandá-lo para mamãe. DOIS MINUTOS! DOIS MINUTOS!!!! Tudo o que ele tinha planejado e imaginado e se entusiasmado foi-se em dois minutos. Mais demorado que um espirro, mais rápido que dor de barriga!

Se eu tivesse a idade do Lucas, com certeza eu teria chorado, gritado, esperneado. Não saberia lidar com essa frustração nem se eu tivesse a idade que tenho hoje, se quer saber. Mas ele saiu firme e forte da piscina. Colocou o roupão, calçou o chinelinho, atravessou a ducha e me disse, com o maior sorriso do mundo:

- Muito legal a aula de natação, mamãe!

Humildade é isso aí.

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Desculpa de aleijado é muleta

9 Setembro, 2008 · 14 Comentários

Outro dia Luquinhas aprontou pela manhã e quando fui buscá-lo na escola, minha mãe começou a contar todos os seus podres:

- Porque hoje ele fez isso e aquilo e aquilo outro…

E eu, como mãe responsável e zelosa, comecei a dar-lhe uma bela bronca:

- Poxa, Lucas, não acredito que fez isso. Não quero que isso se repita jamais e…

Então ele me interrompeu e disse:

- Gente, pára. Vamos nos concentrar no futuro!

- Que?

- É, mãe. Isso que eu fiz é passado e o que passou, passou…

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Retrato falado

25 Agosto, 2008 · 6 Comentários

Outro dia o Lucas voltou da escola carregando um desenho lindo, enorme, da Arca de Noé. Pensei em tatuar nas costas todas, mas logo vi que não era dele, porque era realmente bonito. Quer dizer, eu adoro os desenhos do Lucas, mas ele não prima pelas formas, nem pela combinação ideal de cores, nem pela pintura na mesma direção. Enfim, deu para ver que aquele desenho não era dele:

- Gostou do meu desenho, mãe?

- Gostei. Mas não é só seu, né?

- Não, eu fiz junto com a Júlia, mas como ela se escafedeu do planeta, ficou para mim.

- Como se escafedeu?

- Sei lá, mãe. Não faz mais parte desse planeta. Nem vem mais para a escola.

- Quem é ela? Não me lembro.

- Ué, mãe. É a Júlia. Já te falei dela. É uma que eu já gostei, não lembra?

- Lucas, você já gostou de todo mundo. Dela eu não me lembro.

- Ó, vou te descrever a Júlia então: ela tem um laço na cabeça, não tem a cara muito enrugada e não tem peito grande.

Ficou fácil, né?

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“Uma nação se faz com homens e livros”

18 Agosto, 2008 · 12 Comentários

Em uma noite dessas, eu lia para o Lucas um livro novo antes de dormir. Aí ele sentiu aquele cheiro de página nova e disse:

- Nossa, mãe. Esse livro cheira a mulher pelada.

FIM

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Lucas e o namoro

13 Agosto, 2008 · 16 Comentários

Dias atrás, Luquinhas veio me contar um segredo:

- Mãe, estou namorando.

Quase caí para trás, afinal, estou encalhada e é inadmissível que o moleque consiga namorar antes de mim.

- Como assim, Lucas? Namorando? Quem é a vadia que está querendo te tirar da mamãe?

- É a Maria Eduarda.

- Vaca! E aí? Como você namora? Não beijou na boca não, né?

- Tá louca, mãe? Claro que não. Ela nem sabe que a gente namora.

**

Aí nesse fim-de-semana resolvi perguntar:

- E o namoro, Lucas?

- Ah, mãe, a gente terminou – ele fez um cara de lamento.

- Poxa… E ela ficou chateada?

- Não, mãe. Ela ainda não sabia que a gente namorava.

**

Então eu estava contando para minha mãe na frente do Luquinhas que ele tinha terminado com a Maria Eduarda.

- É, vó. Agora eu estou a fim de outra pessoa.

- Da menina nova que entrou agora na sua sala? – minha mãe perguntou.

- Não, vó. Na verdade, é um menino.

Juro, minha perna bambeou, eu comecei a desfalecer, quase cuspi o coração pela boca. Já pensei mil vezes que se meu filho um dia falar que é gay, eu vou abraçá-lo, vou beijá-lo e depois vou zoá-lo eternamente. Só que dizer isso aos 6 anos é demais para minha cabeça.

- O QUE, LUCAS????? VOCÊ ESTÁ A FIM DE UM MENINO?????

_ Que, mãe? Tá louca? Tô dizendo pra vovó que na verdade é um MENINO NOVO que entrou na minha sala agora, não uma menina. Eu estou a fim de outra menina lá da sala.

Quase cheguei em casa e acendi uma vela para Santo Expedito.

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Lucas e a crise financeira

8 Agosto, 2008 · 13 Comentários

Aí o Lucas solta uma dessas e quando eu conto ninguém acredita. Estava eu, contando dinheiro ontem no sofá e separando o salário para pagar as contas.

- Mãe, você vai dividir isso, né?

- Não, Lucas. Isso é para pagar as nossas contas.

- TUDO ISSO É PARA PAGAR AS CONTAS?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?

- Sim…

- Mãe, eu prefiro ficar um mês sem luz.

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