“Puta balada louca!”
Renatinho, mestrando na USP
Faz parte do projeto “Tocando a Vida pra Frente” aceitar diferentes tipos de propostas para sair vindas das mais variadas pessoas. Exatamente por isso que eu me enfiei na Praça da República com o Júlio e o Junior, uma da manhã, para ver o Paul Dianno, na Virada Cultural.
Paul Quem? Dianno. Ex-vocalista do Iron Maiden, que apostou na sua carreira solo e decidiu deixar a banda para o Bruce Dickinson, pouco antes de ela se tornar um dos maiores grupos de Heavy Metal de todos os tempos.
- Ah tá.
E eu não sei o que é mais Putaqueopariu nessa história: se foi a decisão infeliz desse velho rockeiro, se foi ter ido na Praça da República à uma da manhã, ou se foi ter ido na Praça da República à uma da manhã para ver esse velho infeliz que não sabe tomar decisões na vida.
Enfim, eu fui. Não sem antes separar o meu kit sobrevivência: uma touquinha do Timão e um treis-oitão e o meu celular que vale R$ 10. Só que esqueci a touquinha em casa, então tive de contar com meus parcos conhecimentos de três semanas de Kung Fu.
Passamos na Paulista, enchemos a cara de Guinness (porque eu sou fina), encontramos umas pessoas e descemos de metrô para o centro. Três malditas baldeações depois, descemos na Praça. O Paul Dianno já se esgoelava no microfone, mas eu e Júlio precisávamos entrar em algum lugar para fazer xixi.
Paramos em uma pizzaria em frente e o garçom sorriu um sorriso malévolo quando pedimos para usar o toilette:
- Claro! Siga em frente, à direita.
Em frente, à direita, tinha uma fila de semifinal de Libertadores (que foi até onde eu já cheguei), unissex, porque havia um único banheiro para homens e mulheres. E quem já viveu mais de 8 anos sabe o que isso significa: chão e paredes pintados de pelo menos três cores diferentes – vermelho, amarelo e marrom.
Dentro do banheiro, tinha três portas para tentarmos achar o Dynavision escolhermos onde fazer xixi. Atrás da Porta de número um, tinha um sanitário sem privada com a pia vomitada. Atrás da Porta de número dois, tinha uma monga privada cuja descarga não funcionava. E atrás da Porta de número três, tinha umas pessoas presas, porque a fechadura emperrava e não abria mais.
Não sei qual seria a decisão de vocês, mas eu decidi que nunca vou pedir uma pizza nesse lugar.
***
Quem já passou pela Praça da República durante o dia sabe que lá não é um lugar onde se senta para namorar e apreciar a natureza por pelo menos três motivos:
- os batedores de carteira;
- o cheiro de cocô e xixi daquele lugar;
- o cheiro insuportável de cocô e xixi daquele lugar.
Isso quando a Praça só é habitada pelos moradores de rua, então pensem em um lugar assim, de madrugada, com a presença de uns 300 mil metaleiros, que já não são tão cheirosos por natureza. Respirei fundo, derrubei uma lágrima pelo meu sapatinho de cristal all star branco e velho, fiz o sinal da cruz e pisei na República.
Alguns mendigos olhavam tudo do lado de fora, sem entender muito bem o que tinha acontecido com sua casa. Vi uns casais trepando na grama que eu não ousaria sentar nem se tivesse passado o dia em pé e de salto. Vi uma menina com uma tiara de chifrinhos que acendia. Vi o Slash e o Axel Rose, cada um em cima de uma árvore diferente. Vi o Paul Dianno. Enfim, vi tantas coisas em uma só noite que foi difícil dormir quando cheguei em casa e talvez seja difícil dormir pelos próximos meses.
***
- Você é melhor que o Dickinson! – gritou o Júlio.
- Você é pior que o Blaze! – eu fui cruel.
Porque ninguém é pior que o Blaze cantando, nem eu.
***
O show foi até bastante divertido. O som estava uma bosta, mas talvez não fosse o som, fosse o Paul Dianno mesmo. Ele cantou as músicas do Killers, que é um bom álbum, mas não faz parte da trilha sonora da minha vida. E o público só foi ao delírio quando ele tocou Ramones (!!!).
Contando tudo isso, parece que Paul Dianno na República à uma da manhã nem de graça, né? Mas, juro, se tiver de novo, eu volto. Só pelo Ramones.
***
No domingão, depois do almoço, passei na casa do Renatinho, meu amigo sambista, da Ala de Compositores do Camisa, do finado Clube do Dendê, enfim, o Renatinho. Fui dar uma volta com ele pelos palcos montados no Centro.
Às 16h, o Lobão ia tocar também na República e eu queria ver o Ministro de Minas e Energia nematelminto botando pra quebrar. E ele não decepcionou: tocou todos os seus seis clássicos, xingou a minha mãe e agradeceu pela “paudurecência” dos presentes na República.
- Mãe, o que é paudurecência? – perguntou um menininho do meu lado para sua progenitora.
- Pergunta para o papai – ela respondeu.
Ainda bem que o Lucas não foi.
A certa altura do campeonato, Lobão largou a guitarra e fez uma versão acústica de todos os seus quatro maiores sucessos mela-cuecas:
“A chuva dá saudades
De um lugar que eu nunca fui
E o vento vai soprando
Um choro tão distante”
- Putaqueopariu!
“Aonde está você?
Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama!…”
- Ai, cacete!
“Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você esta me convidando
Menina quer brincar…”
- Vou ali cortar os pulsos, Rê. Me dá uma licença.
“E depois,
A luz se apagou
E eu não consigo mais ficar sozinho aqui
Sem você é tão ruim, não tem sentido, prazer
Não há nada
Por favor,
Não me interpreta mal
Eu não queria nem devia te magoar
O vento vem, o tempo vai
Passa por mim meio assim, meio assim devagar
Vou dormir sentindo
O que a solidão pode fazer
A um ser ferido, por saber que o erro era meu (só meu)
Já passou,
Agora já passou
Mas foi tão triste que eu não quero nem lembrar
Ver você, ter você
E querer mais de nós dois não tem nada demais
E pensar
Você aparecer
Pela janela tão bonita de manhã
Vem pra mim e não vai mais
Me abraça, me abraça, me abraça
Por tudo que for…
Ouh ouh ooouuuhhhh”
- Socorro, Dianno!
***
Depois o Lobão teve piedade dos fodidos que terminaram seus relacionamentos há três semanas e tocou Vida Bandida: Sangue e porrada na madrugada!
***
Claro que a organização da Virada Cultural pensa em tudo, até nos fodidos que terminaram seus relacionamentos há três semanas. Em seguida ao Lobão, subiu no palco o Ultraje a Rigor.
“Já não sei se quero, acho que não quero, me cansei de namorar”
- Yeah!
“Filho da puuuuuuuuuuuuuuuuuuuuta, é tudo filho da puta!”
- Yeahhh!
“Eu não sou seu, eu não sou de ninguém, você não é minha, eu não tenho ninguém”
- Yeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!
“Bum Bum Bundão!”
- Yeahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Nem precisou tocar Eu Me Amo. Saí da Virada Cultural absolutamente de alma lavada (só de alma, gente, porque o resto vai ter que ficar de molho por dez dias na cândida). Feliz demais com a minha paudurecência!





