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Bronze Brasil 2008

2 Setembro, 2008 · 27 Comentários

O comunismo venceu!

Nesse fim-de-semana, fiz duas coisas que jamais achei que conseguiria: cheguei em São Bernardo do Campo sem me perder e corri 10 km sem morrer. Mas uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, porque eu não fui para São Bernardo correndo. Só resolvi contar a glória de ir à festa da Bia sem me perder, embora esteja aqui para falar da Nike10k.

É bom contextualizar o outro feito: apesar de praticar Kung Fu e fazer um treino bem pesado pelo menos três vezes por semana, eu não costumo correr nem para pegar o ônibus.

Não sei quem foi o filho da puta que me incluiu nessa história de correr 10 km, mas desconfio que tenha sido o Júlio em um momento de bebedeira. Ou seja, às 10h da manhã de uma segunda-feira. E eu, péssima em matemática, achei que 10km fossem o equivalente a dois quarteirões e topei.

Acontece que a Lilian trabalhou na campanha da corrida e a inscrição saiu de graça. Custaria 70 paus se tivéssemos que pagar e, como jornalistas, eu e Júlio não custamos recusar absolutamente nada gratuito. De assinatura da Revista Seleções a convite para bar mitzvah. E como amigo que é amigo nunca deixa o outro se foder sozinho, a Gabi e o Eric também se inscreveram.

Hoje eu sei que 10km é o equivalente a ir até o Sol. E voltar.

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Na semana passada, comprei um tênis da Adidas (vejam só que ironia fina) próprio para a prática esportiva e preparei no meu celular uma seleção de hits para ouvir e enganar o meu cérebro durante a corrida. A Gabi diz que ela só consegue fazer exercício físico se o seu corpo pensar que está fazendo outra coisa e comigo funciona exatamente da mesma maneira. Lá no Kung Fu, por exemplo, eu me imagino na refilmagem de Operação Dragão.

Meu único treino para a prova foi na quinta-feira, quando combinei com o Júlio de correr na Avenida Sumaré depois de um dia exaustivo de trabalho. Nos dois primeiros metros, ele teve cãimbras. Não, não estou exagerando.

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Ontem, meu celular me despertou às 6h da manhã. Seis da manhã de um domingo. Nem o Padre Marcelo tinha acordado para rezar o terço. Fora do meu edredom fazia 13º graus. Como no folheto explicativo da Nike10k não dizia nada sobre correr com edredons, tive de abandoná-lo e foi, sem dúvida, a parte mais difícil do meu dia.

Mandei uma mensagem para o Júlio: “a gente tem merda na cabeça”, e considerando o tamanho da cabeça dele, tem muita merda. Me troquei e meu celular tocou:

- Olha agora pela sua janela. Tem um homem fantasiado de branca de neve abraçado com um anão.

- Júlio, o que você tomou? Vai ser pego na porra do antidoping.

Mas eu abri a janela e realmente tinha um homem vestido de branca de neve e abraçado com um anão passando bem em frente ao meu prédio. E eu nem moro na ZL.

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A Gabi e o Eric passaram lá na porta do prédio vestidos de branca de neve e de anão em um mau humor completamente compreensível. Paramos para tomar uma cachaça café na padoca e nos atrasamos horrores. A corrida começava às 8h e já eram 7h53. E foi assim que a Nike Corre começou dentro de um Celta.

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Antes da corrida, fizemos um pit stop nos banheiros químicos devidamente instalados na Cidade Universitária. Eu, claro, escolhi a porta errada e não ganhei meu dynavision. No banheiro químico que entrei alguém tinha dado um cagote federal antes. E limpado o rabo nas paredes.

Saí completamente atordoada de lá de dentro e isso influenciou no resultado da corrida, certamente. Só não sei se para melhor ou para pior.

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Já eram 8h28 quando passamos com o chip em cima da largada e começou a contar o tempo da corrida. De umas caixas de som saía um barulho ensurdecedor chamado de música pela organização e eu comecei a correr para me afastar o mais rápido possível dali.

Coloquei o meu fone de ouvido e:

Jet – Are you gonna be my girl…

Acelerei o máximo que pude e quando cheguei a dois kilometros por hora vi que o Júlio ainda estava do meu lado. Era um bom sinal porque ele ainda não tinha tido cãimbras nem um AVC.

… Well, so 1,2,3, take my hand and come with me

Na calçada, centenas de crianças escravas vietnamitas pessoas do Staff aplaudiam e diziam palavras de incentivo: “Liberteeeeeeeeeeeeem-nos, por favor Vamô lá, pessoal. É isso aí. Vocês conseguem” e se não fosse o mico de desistir na frente de um desses eu não teria chegado ao KM 1.

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Tears For Fears – Break Down Again…

Quando passei a placa do KM 1, o Júlio ainda estava do meu lado, o Eric estava no quarteirão detrás e a Gabi estava na padaria. A trajetória do KM 1 para o KM 2 talvez tenha sido a mais difícil porque na corrida você pensa que vai morrer nos dois primeiros quarteirões e depois perde os sentidos e continua correndo. Aí tudo vai na base da inércia.

…When it’s all mixed up better break it down

Eu devia ter ouvido o Tears For Fears e ter acabado logo com tudo, mas quando vi já estava subindo na porcaria da ponte Cidade Universitária e passando em cima do Rio Pinheiros. Para minha surpresa, os atletas de verdade já estavam voltando para cruzar a linha de chegada. Nesse ponto eu quis sentar e chorar segurei a respiração porque eu tenho um problema com cheiros. Meu nariz é extremamente sensível e certos cheiros, como o do cagote federal, me fazem desmaiar. Isto associado a uma embolia cerebral que eu já estava tendo pelo cansaço físico poderia ser fatal, então me recusei a respirar.

Jorge Ben Jor – Cinco Minutos…

Aí você vai dizer: “Por que não respirou pela boca?” e eu te respondo que entre respirar pelo nariz o cheiro do Rio Pinheiros e respirar pela boca, eu prefiro a asfixia. Porque quando eu respiro pela boca eu tenho a sensação de engolir o cheiro e seria a mesma coisa que comer merda.

… Pois você não sabe quanto vale 5 minutos, 5 minutos na vida

Eu sei e já estava ficando roxinha quando a ponte acabou.

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Libertines – Death On The Stairs

Quando eu estava chegando perto do KM 3, vi Jesus Cristo oferecendo água bem na minha direita, porque às vezes Jesus Cristo se disfarça de pessoal do Staff para testar a nossa fé. Rezei por dois minutos para que quando chegasse na barraquinha de água ele já tivesse transformado tudo em vinho, mas nada. E como eu não recuso nada gratuito, peguei três.

… So baby please kill me

O primeiro copo desceu rasgando, um sumiu misteriosamente e o outro eu entreguei para o Júlio, que resistia bravamente do meu lado. Aí acho que ele parou debaixo de um coqueiro para tomar porque não o encontrei mais.

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R.E.M – Everybody Hurts…

Até o KM 4 passei por uma banda que tocava Franz Ferdinand, um grupo de escoteiros e umas velhas na calçada, em plena Praça Panamericana, esperando um milhão de corredores passarem para atravessar a rua.

…Don’t let yourself go ’cause everybody cries and everybody hurts, sometimes

E toda vez que eu pensava em desistir, eu via um gordo gigante correndo na minha frente. “Não, não vou perder para ele”, e dava aquela aceleradinha.

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R.E.M – Is The End Of The World…

Apesar de parecer, o mundo não acaba no KM 5. Aliás, é nele que você percebe que se chegou até a metade viva conseguirá ir até o final. Eu até sorri quando cheguei no KM 5.

… And I feel fine

Mentira.

Dave Matthews Band – Grace is Gone

Contei meu tempo e percebi que estava fazendo um kilometro em pouco mais de cinco minutos. E isso me fez ter vontade de parar um pouco para tirar uma soneca de meia hora porque ainda assim eu chegaria antes do Júlio, se é que ele ainda estava vivo.

… Excuse me, please, one more drink. Could you make it strong cause I dont need think

Aí, já na porta do Parque Villa Lobos, eu aceitei uma água e caminhei para bebê-la, sem pressa. Até ver uma gorda gigante.

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Aretha Franklin – I say a little prayer

Como incentivo, além do Roque e do Liminha animando a platéia, a Nike decidiu colocar uns totens com os outros lugares do mundo onde estavam ocorrendo a Nike10k. Nova Iorque, Japão, China. Tanto lugar para correr e eu estava ali, perto da Marginal Pinheiros.

No KM 6, estava escrito Buenos Aires. Lembrei das carnes, dos vinhos, das pessoas bonitas, de uma vida feliz que parecia tão, tão distante. Pelo menos, mais 4 km.

… I run for the bus, dear

Cala a boca, Aretha.

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Rolling Stones – Let It Loose

O KM 7 era bem em cima da ponte de novo. Lá fui eu ficar roxinha. E foi nesse exato momento que tiraram a única foto minha que está na página da Nike.

- Ai, comi merda…


… Let it all come down tonight

Cala a boca, Mick.

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The Kinks – Strangers

Ah, o doce KM 8 te faz pensar em toda a sua vida. Quais os caminhos que você percorreu para chegar até ali.

…I’ve killed my world and I’ve killed my time

E a resposta é uma só: Cidade Universitária – Ponte – Praça Panamericana – Parque Villa Lobos – Praça Panamericana e Ponte.

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Libertines – Tell The King

O momento crucial é o KM 9, sem dúvida. Porque se você chegou até ali nada mais pode dar errado. Você não pode torcer o pé. Você não pode deslocar o joelho. Você não pode ter um AVC. Você não pode, em hipótese nenhuma, ter um infarto. Não no KM 9. Você ultrapassou todos os gordos gigantes que você pode. E uns 20 mancos. E uns dois cegos. E uma mãe que corria levando um carrinho de bebê. Você até deixou para trás um ou outro magrinho pouco mais inabilidoso que você.

…Tell him you know how I feel

Você sente que vai morrer, mas que se dane. Você só pensa em passar por cima da linha de chegada e registrar no chip que você é melhor do que o Júlio. Você não, eu. Mas isso eu já sabia.

Weezer – The Good Life

Ah, como a vida é boa no KM 10. Principalmente quando ainda não começou o show do Seu Jorge.

… It’s time I got back to the good life

1:03′:44” de sofrimento.

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Liguei para minha mãe assim que terminei e ela ficou bastante surpresa porque achou que só fosse dar notícias dali a 3 dias. Depois ganhei um gatorade, um iogurte, um sanduba de chester, uma maçã e uma banana, mas eu trocaria absolutamente tudo por uma cerveja gelada. Mas eram 9h30 da manhã.

E a organização não foi capaz de nos ceder uma só criança escrava para uma massagem!

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- Júlio, onde você está?
- Terminei agora e você?
- Já acabei tem uns minutos. Te encontro debaixo da garrafa de gatorade gigante!

Juro, foi um alívio falar com ele.

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Encontramos o Eric morto na frente do guarda volumes. E nos restou esperar a Gabi, que chegou pouco menos de uma hora depois. Sim, todos terminamos. E vivos.

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Dentre os amigos, eu fui a que chegou em primeiro, seguida do Júlio, depois do Eric e depois da Gabi, embora a Nike tenha feito confusão e trocado o tempo dela pelo tempo de um atleta de verdade. Na página da Nike, a Gabi conquistou o incrível tempo de 00:58′. E o tal de Osvaldo deve estar bem puto.

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Passei o resto do domingo e toda a segunda-feira sentindo dores em partes do corpo que eu nem sabia que existiam. Não recomendo fazer nada parecido, nem de graça, nem pagando, nem hoje, nem nunca, nem com treino, nem sem treino. Mas no ano que vem juro que faço em menos de uma hora.

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Existem relatos bem mais inteligentes e interessantes nos blogs do Júlio e da Gabi.

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A maldição da Nike 10ko celular

25 Agosto, 2008 · 3 Comentários

Eu devia ter ouvido a velha máxima do “Esporte não é droga, então pra quê?”, mas resolvi ignorar todas as previsões do meu falecimento no 3º metro da corrida da Nike, no próximo fim-de-semana, e fui buscar meu kit de inscrição no Parque do Ibirapuera.

Aliás, não há nenhuma recompensa em ser atleta, visto que essas coisas deveriam chegar na porta da sua casa, mas não! Você tem que se abalar até aquele fim de mundo, como se todo atleta morasse ao lado dessa porcaria e corresse diariamente 10km às 5h da manhã. Ratifude.

Enfim, eu fui. Na companhia de Júlio, Eric e Gabi, que quase morreram antes de qualquer exercício físico, quando dei ré na faixa de ônibus na Brigadeiro Luiz Antônio. E chegamos no Ibirapuera faltando cinco minutos para não entregarem mais os kits. Por muito pouco seríamos salvos pelo relógio, mas decidimos dar uma palhinha do fracasso de domingo e corremos. Corremos muito, por cerca de 4 metros e o Júlio acenou com a possibilidade de um infarto.  Mas conseguimos.  Sem dúvida, um momento de superação.

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O kit é composto de:

- um chip que contará quantos dois passos eu darei em toda a prova;

- uma camiseta, que vale como ingresso para o show do Seu Jorge e do Wilson Sideral depois da corrida (veja bem, se você não morrer durante a prova, ainda tem uma chance de morrer depois dela – ou pelo menos de querer a surdez definitiva);

- papéis. Milhares deles.

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Mas toda essa enrolação foi para dizer que nessa corridinha que eu dei no Ibirapuera, perdi meu celular. Meu pretinho capenga, que viveu comigo por pouco mais de um ano. Minha relação mais estável com um celular. Enfim, a fila anda (e já andando, sofre com as cãimbras). Que venha o infarto, digo, o iphone.

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Piada do ano

20 Agosto, 2008 · 16 Comentários

Vou correr a Nike 10k. HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAA
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Eu e o Júlio.
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Morri.

*****

Update:

Gabi diz:
Favor fazer o update do seu post:

Gabi diz:
Você.

Gabi diz:
O Julio.

Gabi diz:
O Eric.

Gabi diz:
E eu.

Leonor Macedo diz:
mentiiiiiiiiiiiiiiiiiiiira!

Leonor Macedo diz:
Juuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuura???????

Leonor Macedo diz:
HAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHA

Gabi diz:
Juro.

Leonor Macedo diz:
então é a piada do século!!!!!!!!!!!!

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