Eneaotil

Craque da mamãe

Lá em casa, futebol sempre foi uma coisa de fêmea. Foi por causa da mamãe (embora ela nem ligue muito hoje) que papai começou a ir em estádio para torcer pelo Coringão. Já o meu irmão, um verdadeiro craque nos computadores, não servia nem para goleiro do pior time da Liga Infantil dos Índios Mancos de Cabrobó da Serra. Foi uma vez só comigo em jogo, quando o Timão perdeu para o Santos naquela final do Brasileiro (lembra? Primeiro jogo, um toró horroroso e no segundo, as pedaladas do Robinho).

O meu avô materno achava que eram 22 idiotas correndo atrás de uma bola. E o meu avô paterno gostava mesmo era de corrida de cavalos. Enfim, sobrou a mim saber o que é um impedimento e entender porque é que só aquele homem parado debaixo do gol pode segurar a bola com as mãos.

Apesar da minha pouca habilidade com os pés, no ginásio eu era sempre a terceira a ser escolhida para o time no meio de 20 garotas. Depois da Arilma (que tinha nome de craque) e da Fernanda, uma skatista que fazia gols porque todo mundo morria de medo dela e saía correndo toda vez que ela se aproximava. Até joguei na equipe da Universidade, mas aí eu tenho certeza que era por falta de opção.

Então, quando o Lucas nasceu, vi nele a possibilidade de uma companhia para os jogos no estádio e partidas de domingo na televisão. E o pequeno nasceu corinthiano apaixonado porque com pouco mais de dois anos de idade ele pedia para ligar o rádio, sentava em um banquinho e ficava ali em frente ao aparelho pelos 90 minutos seguintes.

Daí para o Luquinhas começar a ganhar bola de futebol de presente de aniversário não demorou muito. As bolas se acumulavam debaixo das estantes e ele nem aí para o brinquedo, porque, apesar de adorar ir aos jogos comigo, assisti-los e ouvi-los, o Lucas tinha ojeriza a jogar futebol. Nos dois primeiros minutos de uma peladinha, ele se irritava, segurava a bola com as mãos, levava-a até o gol, lançava-a, comemorava e pronto: “vamos para casa!”

Isso porque o DNA nunca falha e o horror a jogar futebol sempre foi proporcional ao amor e a habilidade no computador e no videogame, totalmente dominados pelo Luquinhas. Igualzinho ao titio. Com menos de quatro anos, meu filho já sabia para que funcionavam os botões “Scroll Lock”, “Pause Break”, “Insert”, “Home”, “End”, “Page Up” e “Page Down” de um teclado, coisa que eu não faço a menor idéia.

***

Quando o Luquinhas chegou para mim, na semana passada, e pediu para ser matriculado no futebol, eu quase infartei.

– Alguém te ameaçou, filhote?

Mas não. Era de sua livre e espontânea vontade.

A primeira aula foi ontem, logo após o horário normal da escola. Das 17h40 às 19h10. Uma hora e meia inteirinha para aprender que futebol se joga com os pés.

Cheguei na porta da escola dele às 18h30 para pegá-lo, ansiosa por notícias. Mas a porta para os pais só foi aberta dois minutos antes do horário final, para pegarmos as mochilas enquanto as crianças terminavam a aula.

Pude ouvir o fim de uma roda de conversa do professor com os alunos:

– Então, crianças, vamos retomar o que aprendemos hoje! Quantas vezes o Brasil foi campeão da Copa América?

– Duas!!! – gritou um menino.

– Três!!! – chutou outro.

– Uma!!! – respondeu o Lucas.

– Não, oito! – corrigiu o professor – E quantas vezes o Brasil foi campeão da Copa do Mundo?

– Doooooooooooooooze!!!! – falou um.

– Dezesseeeeeeeeeeeeeeeeete!!! – disse o colega.

– Não, cinco! – não desanimou o professor – E quantos gols o Pelé fez em toda sua carreira?

– Deeeeeeeeeeeeez!!! – exclamou o Lucas.

– Quatro!!! – afirmou o amigo.

– O que é carreira? – perguntou um menininho.

– Não!! Foram 1290 – respondeu o professor.

– NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

Um timaço.

**

– Lucas, gostou da aula de futebol?

– Adorei, mãe.

– Vai querer vir toda segunda?

– Sim! Mas, mãe, eu sou pééééééééééééééééééssimo no futebol. Péssimo.

– Eu também, pequeno.

E ele me sorriu um sorriso aliviado de quem não precisa ser bom em tudo. Só precisa ser feliz.

8 comentários em “Craque da mamãe

  1. Júlio
    11 março, 2008

    Ele sabe o que é o Corinthians. Isso é tudo que se precisa para ser craque… =)

  2. Hellen
    11 março, 2008

    Gente, que texto lindo. Mesmo com todas as piadas, trechos engraçados, lindo!

  3. Gabi
    11 março, 2008

    Apresenta o Winning Eleven pro garoto. De repente é essa a saída.

    Ah, e eu deixei uma coisinha pra você lá no blog.

  4. DeMi
    11 março, 2008

    Eu duvido, porque o Lucas não é péssimo em nada. Esse professor que deve ser ruim. Humpf!

    Meu, morri de rir com a criança “O que é carreira?” kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  5. Natália
    11 março, 2008

    Concordo com a Hellen, fechou com chave de ouro.

  6. Teka
    11 março, 2008

    “E ele me sorriu um sorriso aliviado de quem não precisa ser bom em tudo. Só precisa ser feliz.”

    Boa Lele! É a frase que minha mãe espera eu falar até hoje… ao invez de chorar pq nao tirei 10 e sim 8,5 no quinto ano de direito! Ou de ficar de mau humor porque não sei trocar um step e preciso chamar alguem porque a força não vem, ou mias 1 milhão de coisas que eu não me permito errar!

    bjasso!

  7. Monicake
    12 março, 2008

    E feliz eu tenho certeza que ele é!
    Saudade de vc e dele tb!
    Descobri uns joguinhos novos que acho q ele vai gostar hehehe
    bjão!

  8. desconjumina
    12 março, 2008

    puta texto lindo!

    não importa ser bom, importa é ter um ki-chute com o cadarço amarrado na canela (explica isso pra ele)!
    Tem até para vender no mercado livre:
    http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-70938325-tnis-kichute-infantil-29-a-34-_JM
    beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 11 março, 2008 por em Sem categoria e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: