Eneaotil

A primeira vez a gente nunca esquece

Na primeira vez que voei de avião e vi o céu bem de pertinho, eu já tinha um filho. E meu filho já andava, falava e já tinha tomado sete pontos no supercílio. O Brasil já era pentacampeão mundial de futebol, o Corinthians tri do brasileirão e primeiro campeão do mundo reconhecido pela FIFA (não discutam).  O Neto já tinha parado de jogar há bastante tempo e até já tinha emagrecido. O homem havia chegado na lua há mais de 30 anos (ou não), um aparelho de DVD já custava menos de R$ 200 e o videocassete estava devidamente aposentado (não para mim, que ainda tenho uma coleção de fitas antigas de vídeo).

Quando eu viajei pela primeira vez de avião, já vivíamos em pleno século XXI e tínhamos sobrevivido ao bug do milênio. Não existia mais Transbrasil e pouco tempo depois a Varig seria comprada pela Gol. Já se comemorava o centenário da Dercy, eu tinha quase 22 anos e trabalhava com jornalismo. Ou seja, parece que foi ontem que eu viajei pela primeira vez de avião. E foi quase ontem mesmo.

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Por isso que proporcionar a primeira viagem de avião para o Luquinhas aos 7 anos me encheu de orgulho. Eu sei que para uma criança voar nos anos 80 era preciso raspar toda a conta poupança e ainda vender a mobília da casa. Hoje, não precisei desembolsar nem R$ 80, incluindo a taxa de embarque. Mas me encheu de orgulho assim mesmo, dá licença?

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Começou assim: meu irmão, que mora no Rio, veio passar as festas de fim de ano aqui em casa. Ele voltaria para o Rio de Janeiro no dia 5 e depois, lá pelo dia 8, meus pais levariam o Luquinhas para passar 10 dias. E viajariam de ônibus, como fazem todas as férias.

– Puta que pariu! A passagem de ônibus está custando R$ 88 para o Rio de Janeiro – falou Dona Rose em uma manhã de sol.

Aí lá pelo dia 2, o Lucas acordou com uma caraminhola na cabeça:

– Mãe, me deixa ir com o titio antes para o Rio?

– Lucas, seu tio já comprou passagem de avião e nessa altura do campeonato já não tem mais passagem promocional para o dia 5.

– Não custa dar uma olhadinha, né?

E não custava. Aí meu irmão entrou na internet e viu que no mesmo vôo ainda tinha uma porção de lugares vagos. E que a passagem para criança custava R$ 56. Com a taxa de embarque R$ 76, ou algo do tipo. Ainda mais barato que o ônibus. E a poltrona ao lado do meu irmão estava vaga. Bom, uma coisa leva à outra e pimba!

– Lucas, você vai viajar de avião.

E foi assim que toda a vizinhança acordou cedinho naquela manhã ensolarada das férias.

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A partir desse dia, o Lucas não falou de outra coisa. Perguntava para todo mundo se já tinha andado de avião porque ele ia andar pela primeira vez. No mercado, na piscina, no açougue, no shopping, na família. Ninguém escapou das indagações do Lucas. Ele teve até um papo com o pai dele, de homem para homem:

– Pai, me fale sobre aviões.

– Mas o que você quer saber?

– Não sei, vai me falando as coisas. Tipo comida, sobremesa. Você é mais experiente.

E as perguntas não paravam nunca:

– Será que terão muitos amiguinhos para eu brincar?

– Que roupa eu devo ir?

– Quantos dias vou ficar dentro do avião?

E nem tive coragem para dizer que eram só 30 minutos.

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No dia anterior à viagem, Luquinhas queria dormir às sete da noite para o tempo passar mais rápido, embora ele só fosse viajar às sete da noite do dia seguinte.

Separou todo o seu “kit de sobrevivência em aviões”: máquina fotográfica, um papel e uma caneta para “escrever tudo o que acontecer dentro do avião”, DVD do Kung Fu Panda e uma lupa. Colocou tudo na mochila e já sabia o que era bagagem de mão.

Antes de dormir, ele me chamou no quarto e disse:

– Mãe, me fale mais sobre aviões.

Putaquel.

– Do que mais você precisa saber?

– Assim, eu sei que para viagens mais longas; tipo Estados Unidos, Nova Iorque, Santos; os aviões tem primeira classe…

– Lucas, dá para ir a pé para Santos.

– Tá, tá. Continuando, eu queria saber se na primeira classe existe espaço para fazer algumas coisas…

– Que tipo de coisas?

– Tipo tocar piano.

Alguém sabe o telefone de um bom psiquiatra infantil?

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Aí chegou o grande dia: segunda-feira, dia 5 de janeiro de 2009, primeira viagem de avião do Luquinhas. Eu fui trabalhar e prometi que voltaria lá pelas 16h para levá-lo ao aeroporto. Passei o dia com o coração apertado e acho que descobri que não tenho medo de voar, mas tenho medo de que meu filho voe.

– É só por meia horinha, Lelê – falou o meu estagiário.

– Meia horinha, mas é alto do mesmo jeito.

Quando cheguei em casa, ele tinha passado até perfume. Estava com o topetinho armado, com a calça do Batman e uma jaquetinha jeans. Então eu derreti e escondi todo o meu medo. Ele merecia aquilo.

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Aqui cabe um parêntese muito importante: se for possível, proporcione isso para sua criança quando ela ainda é pequenina porque ninguém dentro do avião achará estranho reações do tipo apertar todos os botões, espremer a cara na janelinha o tempo todo, fotografar de cinco em cinco minutos as nuvens do céu, chamar a aeromoça 100 vezes para pedir água, querer conhecer o banheiro e ficar preso no cinto de segurança na hora que todo mundo está desembarcando. Foi bem constrangedor tudo isso para mim aos 22 anos.

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A primeira coisa que você faz quando chega ao aeroporto é mandar o seu filho parar de gritar. Depois, vai enfrentar a fila do check-in. Enquanto eu e meu irmão retirávamos as passagens, o Lucas começou a conversar com um outro cara que estava despachando as bagagens:

– E aí? Você já andou de avião? – meu filho perguntou, embora esse não seja o tipo de pergunta que se faz para um cara que está despachando as bagagens.

– Já sim – respondeu o homem.

– Ah tá. Eu vou viajar de avião hoje – Luquinhas resolveu situar o cara, embora esse não seja o tipo de informação que você dá para uma pessoa na fila do check-in.

– Para onde você vai?

– Vou para o Rio de Janeiro. Sobrevoar Copacabana, ver a praia, a mulherada de biquíni…

– Hahahaha. Eu sou do Rio de Janeiro, mas vou mais longe que você. Vou para Olinda.

– Ô, tio! Por que só eu não vou para esses lugares legais?

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Na hora de ir para a sala de embarque, tive que me despedir. O Lucas fez daquelas cenas de voltar correndo para me abraçar quando estava chegando no portão de embarque e eu respirei fundo para não chorar, porque eu não sou mãe bundona, mas é difícil saber que ele ficará longe por mais de 10 dias.

Paguei o estacionamento do aeroporto, entrei no carro e liguei o rádio:

– Um avião perdeu a asa e…

E não sei o que aconteceu porque eu desliguei o rádio. E também bati o carro na pilastra no estacionamento, mas aí é outra história.

**

O Luquinhas chegou bem e amou a viagem. Fez amizade com as aeromoças, comeu nhoque oferecido pela GOL (arght!) e conheceu a cabine do piloto, coisa que eu ainda não fiz. Mas na minha próxima viagem, pedirei para a aeromoça me levar lá, nem que eu tenha que mentir a idade.

18 comentários em “A primeira vez a gente nunca esquece

  1. Rodrigo
    9 janeiro, 2009

    Mais do Lucas…

    Gritar SOCOOOORRROOOO! quando o avião tava pousando.

    Falar para o cara que estava indo para Olinda: “eu, um menino de 7 anos viajando de avião pela primeira vez”, cheio de orgulho…

    Falar de 5 em 5 minutos que tava com medo de perder o avião.

    Falar quando está para pegar a bagagem: “Tio, qual a sua mala?”. “É uma mochila verde”. “Aquela?”. “Não não…”. “Bem, se aquela não for de ninguém daqui, é nossa…”

  2. Glauce
    9 janeiro, 2009

    Eu imagino a gritaria sem fim dele em diversos momentos dessa história! Eu voei de avião a primeira vez quando era muito pequena, ou seja, não lembro de nada. Depois voei quando era grande (leia-se velha) demais, ou seja, ninguém merece lembrar. A idade que o Lucas viajou é muito boa porque ela permite que ele lembre de tudo e não se envergonhe dos micos. E claro que depois vamos querer ler as anotações dele, se é que ele conseguiu fazer alguma ;o)

  3. Ana Beatriz
    9 janeiro, 2009

    Gentchi, como eu sou manteiga derretida. Queridona, você devia copiar a sua história da primeira viagem de avião. Que eu me lembre teve post, não?

  4. Ricardo Silveira
    9 janeiro, 2009

    Ah, Lelê, você nunca foi a Disney com a Tia Stela Barros?
    Todo mundo foi.

  5. camila
    9 janeiro, 2009

    Olha, na minha primeira viagem aérea eu já tinha passado dos 30.. Agora adorei e só quero ir de avião. Pena que a minha conta bancária não sabe disso!!!

  6. fernando tucori
    9 janeiro, 2009

    putz…. tem uma coisa pra se fazer ao andar de avião que é fantástica.
    funciona assim:
    quando você chegar perto da escadinha que leva pra dentro do avião, imagina que, lá no aeroporto, tem um monte de fãs seus que vibram cada vez que vc acenar pra eles.
    por isso, acene.
    acene a cada degrau.
    ao chegar no topo, quando a aeromoça pedir a passagem, acene mais uma vez. desta vez, com a mão que carrega sua passagem. a mesma passagem que a aeromoça espera ansiosamente recolher, mas, a cada tentativa, você levanta a mão e acena mais uma vez.
    aprendi com o benicio del toro em “medo e delírio”.
    vale cada segundo.
    ainda mais porque os pratos vem todos fechados e nenhuma aeromoça pode cuspir dentro deles.
    :D

  7. anarina
    9 janeiro, 2009

    Melhor post do ano! Já votei em você!

  8. Ju Saad
    10 janeiro, 2009

    pode me dar o credito porque fui eu que falei pro moleque ir na cabine do piloto! E a melhor de todas foi “se essa mala nao for de ninguem daqui eh nossa…” kkkkkkkkklkkkkkkkkkkkk me amarrota que eu to passada com esse figura! E que saudade mesmo!!

  9. Bia Bomfim
    10 janeiro, 2009

    Ih, nem precisa mentir a idade. Eu visitei a cabine com 28 anos na cara, parecia criança olhando aquele monte de botões (rídiculo, diga-se de passagem), mas foi muito legal. O segredo é pedir com a nave em solo ainda, pq depois q decola não pode.

    Leio sempre seu blog e minha parte favorita é , claro, as aventuras do Lucas. Parabéns!

  10. dede
    10 janeiro, 2009

    Poxa, fiquei um bom tempo sem fazer minhas visitas frequentes aqui. Como eh bom ler e saber de vcs! Ele conseguiu proporcionar mais coisas inusitadas com seu irmao! ahahaha

    Adorei a descricao da viagem do Lucas, me lembrei da minha primeira, aos 16.

    Que bom que as criancas podem fazer coisas que eram caras quando nos eramos criancas.

    beijos para ambos.

  11. Meio Aéreo
    12 janeiro, 2009

    Muito legal sua história e experiência! voar de avião é muto bom, né?!

    Portal Meio Aéreo | Aviação Civil

  12. nat
    12 janeiro, 2009

    Adorei! Até hoje tenho vontade de pedir para visitar a cabine – embora já tenha visitado uma vez e conheça cabine de outros aviões – mas dá uma vergonha, né?!

  13. Talita Godoy
    12 janeiro, 2009

    Pôxa, acho que vou pedir algumas dicas ao seu filho… afinal de contas, tenho quase 1/4 de século de idade (rs) e vou viajar de avião pela 1ª vez no próximo dia 25… tô que não me agüento!!!…rsrs… será que ele tem alguma idéia boa prá eu utilizar na hora do medo?!?!…rsrs

  14. atruculenta
    12 janeiro, 2009

    ODEIO voar. Sorte do Luquinhas que começou cedo e ainda tem a coragem das crianças.
    É uma pena não poder ir a pé pra NY, afinal, vamos combinar, pra Santos ninguém quer ir.

  15. Tati
    12 janeiro, 2009

    “- Eu queria saber se na primeira classe existe espaço para fazer algumas coisas…
    – Que tipo de coisas?
    – Tipo tocar piano.”

    eu morro de rir! moooooorro de rir!

    beijos.

  16. Kosmidis
    13 janeiro, 2009

    Simplesmente espetacular…E essa semana eu levei meu cunhado de 6 anos pela primeira vez ao cinema….E as reação são ultra parecidadas mesmo….Como criança fala ssrsrsrsr

  17. Lady Rasta
    14 janeiro, 2009

    Ano passado Leozinho (aka lordrastajr) foi para a Inglaterra sozinho e escreveu no avião uma carta para o melhor amigo dele. Vou mandar para vc, pois é de chorar de rir. A melhor parte é a que ele explica as classes: a turística (para os normais), a executiva (para os ricos) e a primeira classe (para os Bill Gates da vida). Eu chorava de rir.
    Mas chorei de soluçar quando deixei ele na porta da receita federal – e claro, ele nem olhou pra trás…

  18. FabioTNT
    15 janeiro, 2009

    hueahuea Morri de rir aqui!!!
    Adorei que seu filho gosta de piano!!! \o/

    Bjos!

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Publicado às 9 janeiro, 2009 por em Sem categoria e marcado , .
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