Eneaotil

Creuzado

Hoje o Lucas voltou para a escola e começou sua segunda série do Ensino Fundamental. Não chorou nem uma lágrima e arrisco dizer que sequer sentiu vontade. Foi todo seguro para dentro da sala, sentou junto com novos amiguinhos, reviu outros e praticamente se esqueceu de dar tchau para mim.

Então eu fiquei tentando lembrar da minha segunda série e comecei a ter calafrios. O ano era 1990 e eu troquei o ensino particular pelo público. Fui do pequeno Colégio São Domingos para a grande Escola Municipal de Primeiro Grau Tenente José Maria Pinto Duarte. Ficava (fica, porque ela ainda existe) no alto de um morro e as janelas davam para a barulhenta Avenida Sumaré. As paredes eram todas pichadas e atrás da escola crescia um matagal gigante, onde espécies peçonhentas se proliferavam para, posteriormente, grudar nos nossos cabelos, na hora da fila.

Eu estudava de tarde, porque de manhã eram as classes de 5ª à 8ª série. E era de manhã que acontecia o batismo feito pelos alunos da 8ª nos pré-adolescentes da 5ª. Um tipo de rito de passagem, que marcava o momento em que a gente deixava a infância e já podia ser espancado por gente mais velha durante a hora do recreio. Quem me contou isso foi meu irmão, quando ele fez a 5ª série e passou um ano todinho se escondendo no banheiro durante o intervalo das aulas.

O máximo da agressão que acontecia de tarde entre os alunos mais novinhos era guerra de pão de mel, distribuído de merenda pela Prefeitura. E o pão de mel era tão duro, mas tão duro, que eu tenho certeza que a diretoria da escola abafou todos os casos de traumatismo craniano que ocorreram ao longo dos meus dois anos no Tenente. Graças à Virgem Santíssima, mamãe me tirou destea inferno escola quando terminei a 4ª série.

**

Mas eu não descobri tudo isto no primeiro dia. No primeiro dia de Tenente, na 2ª série, eu descobri que teria aula com a Professora Creuza. Isto mesmo, CREU-ZA. No próprio nome da minha professora já tinha erro de português. Porque, me desculpem as Creuzas, é a mesma coisa que falar probrema.

A Professora Creuza tinha os dentes separados, as unhas compridíssimas e usava um batom vermelho borrado. Era loira tingida do cabelo palha de aço e em seus dedos cabia cerca de 175 anéis pendurados. E a bicha era mais brava que o capeta na andropausa. Se eu precisasse contratar alguém para assustar uma casa com dois cômodos, certamente eu começaria minha pesquisa de preço pela Professora Creuza.

Eu vim para o Tenente toda catita, pequenininha, com minhas canelas finas e minha franjinha reta, falando baixinho e com um nó na garganta. Eu tinha tido na primeira série aulas de educação musical, ensino religioso e ciências com a Tia Marta. Aí meus pais me colocaram para estudar com o demo.

– Tia Creuza, posso ir ao banheiro?
– Eu já andei de calcinha na sua casa? Já empurrei carroça com a sua mãe? Então, puta que pariu, não sou sua tia. Me chama de PRO-FES-SO-RA.

Nem sei se foi nesse momento em que mijei nas calças na sala de aula.

**

O caso é que com o passar o tempo eu fui me transformando nesse monstro e a Professora Creuza começou a gostar de mim. Não sei se era cumplicidade por causa de nossos nomes, ou se ela realmente admirava meu desempenho. Enfim, eu virei o xodó da Professora Creuza e há quem diga que ela gostaria que eu a chamasse de tia.

Até que em um certo dia, sei lá porque cargas d’água, eu esqueci de fazer a lição. Era uma redação simples, mas vagabundiei e não fiz. A professora sempre chamava meia dúzia para ler a redação, por isto todos tinham que fazer porque nunca sabiam quando seriam chamados.

Eu respirei fundo e comecei a rezar. Se eu tivesse muita sorte não seria escolhida justo naquele dia. Só que eu não tenho nem pouca sorte, que dirá muita. E adivinha qual foi o primeiro nome que a Professora Creuza chamou?

– Leonor!

Lógico que foi o meu.

O fato é que desde pequena eu sei contar histórias e naquela tarde abri meu caderno, olhei para a página em branco e inventei uma historinha emocionante sobre o Lumbo: um elefantinho orelhudo que era tirado dos braços da mãe para fazer um número de circo e um dia conseguiu voar.

Causei uma comoção geral na sala de aula e chegou até a escorrer uma lágrima de sangue dos olhos de Creuza. Todo mundo aplaudiu de pé.

– Muito bom, Leonor. Agora traga a redação para mim, sim?
– O que?
– Traga a redação que você escreveu aqui na minha mesa.

Me fodi.

– Não pode ser depois do recreio?
– Não. Qual é o problema de me entregar agora?
– É que… é que… eu não fiz.

Chego a acreditar que a Professora Creuza já sabia que eu não tinha feito a redação, mas quis ver até onde eu iria aquele dia. E eu fui até o “e eles viveram felizes para sempre”. E perdi o direito de descer para o recreio, porque tive que inventar uma nova história, desta vez no papel.

Pensando melhor em tudo isto, nos pães de mel, no batismo, nos bichos peçonhentos e no Tenente, acho que vou procurar a Professora Creuza para agradecer por ela não ter me deixado descer àquele dia. No fim das contas, ela foi bem mais que uma tia.

28 comentários em “Creuzado

  1. Glauce
    26 janeiro, 2009

    Que medo da PROFESSORA Creuza. Sabe, eu mudei do interior para Belo Horizonte quando começava a 2a série e não lembro de absolutametne nada. Deve ser uma amnésia traumática porque duvido que tenha sido bom. E algumas pessoas me chamam de Grauce. Ou melhor, Gráucia, que é o “mais comum, né, Gráucia?!”

  2. dona Rose,
    26 janeiro, 2009

    pior q ser Creuza, Gráucia, é ser chamada de Rosiméri, minha gente!!!!!Por isso,pra não dar probrema, aboli parte do nome e hj sou conhecida só por Rose…E pq diabos eu não me lembro dessa porfessora????

  3. anarina
    26 janeiro, 2009

    Heroína!!!

  4. Teco
    26 janeiro, 2009

    Lumbo?

    O.o

  5. nat
    26 janeiro, 2009

    Lumbo foi ótimo, e embora acreditar seja o máximo, aposto que a história que você inventou não foi essa, sempre que eu acho que é verdade, vc diz que não foi também EXATAMENTE assim e me desiludo!

    Poxa, não sabia que o Rodrigo apanhou (ou melhor, escondeu-se) no colégio… pobrezinho!

  6. dan
    26 janeiro, 2009

    tb. estudei em escola pública em são paulo. e foi sensacional. os 3 anos anteriores tinha estudado em uma escola particular tão, tão ruim, que as únicas coisas que me lembro de ter aprendido, foram palavrões e a forma correta de mostrar o dedo pra alguém!

  7. Vi
    26 janeiro, 2009

    Lumbo foi sensacional. Ela deveria ter te dado um ponto positivo só pelo talento na improvisação.

  8. Genésio
    26 janeiro, 2009

    A grafia “Creuza” é a correta. Por motivos de hipercorreção, surgiu o termo “Cleuza”. Mas a original é a com R.

  9. Lelê
    26 janeiro, 2009

    Viu, gente burra?

  10. juli
    27 janeiro, 2009

    oi seria gente bulla?

    mas, tá, eu morri de rir com a parte da calcinha e da carroça, frases corriqueiras jogadas assim, em uma resposta sutil e delicada para um chamativo ingênuo da pequena garota de pernas de gambito.

    essa mulher merecia uma sulla.
    (miranda, pra chamá-la de tia)

  11. Tico
    27 janeiro, 2009

    O Rodrigo se escondia no banheiro, até no colegial!!!!
    Sacanagem =P

  12. Glauce
    27 janeiro, 2009

    Que me desculpem então as Creuzas, mas no meu caso eu juro que o correto é Glauce (tem o Gláucia também, mas os dois com ‘l’) ;oP

  13. Wladimir
    27 janeiro, 2009

    Jane Simesk.
    Deu aula pra mim no segundo ano, duzentos anos atras, na E.E.P.G. Dr francisco Borges Vieira, na Vila Alpina (ZL). Tenho certeza que quando o capeta nao podia participar de alguma reuniao, mandava ela no lugar.

  14. Rodrigo
    27 janeiro, 2009

    Em minha defesa, não me escondia no banheiro. Porque eles procuravam no banheiro. Eu ficava num banco que tinha no “palco” que ficava em frente à porta da diretoria.

    Para não apanhar, qualquer coisa era só entrar estrategicamente na sala da diretoria… Tá, covarde igual, mas numa escola em que os colegas eram mais velhos e se drogavam, ser covarde era lucro :D

  15. Eric / CHILE
    27 janeiro, 2009

    Caramba Colegio Sao Domingos, que coincidencia….praticamente foi minha vizinha!!! hahaha

    Muito boa a historia….

  16. Anselmo
    27 janeiro, 2009

    Mijei de rir!

  17. Renata
    27 janeiro, 2009

    Todo mundo tem uma professora “Creusa” na vida, neh?
    Eu pelo menos tive uma, a professora Graça (oh, mas que ironia) que dava aulda de História e chamava os meninos de pitt bull. No verão, (um calor dos infernos aqui no Rio)ela entrava na sala e desligava o ar E/OU o ventilador só pra gente ficar na sauna. Só faltava o eucalípto.. o Oh. Eu tinha vários atritos com ela, pq não aproveitei muito bem na época a educação q minha mãe deu, e respondia msm. Ficava de castigo mesmo também… mas respondia.

  18. Eduardo
    28 janeiro, 2009

    Creudo e cruzes!

  19. Cidão!
    29 janeiro, 2009

    O capeta apareceu em forma de Tia de escola pra mim só na 5ª série, Eunice, uma ditadora sequelada da época da ditadura professora de Matematica, arrumava as mesas e carteiras da sala impecavelmente todo santo dia, a carteira tinha que bater na barriga, bem apertado…e as guerras era bolo pullman ou bolacha maizena, tempos sinistros de escola né…vc me inspirou qualquer dia escreverei sobre isso também! Amei o texto! Bejo!

  20. Bruno Mazzotti
    29 janeiro, 2009

    “Porque, me desculpem as Creuzas, é a mesma coisa que falar probrema.”

    Impagável.
    AHAHAHAHAHA.

  21. Pedro
    29 janeiro, 2009

    Hoje o Ian Lucas começou o 2º ano, tb entrou super seguro, feliz da vida com seus livrinhos novos, e nem olhou para trás…

    no curto caminho de volta pra casa lembrei de passagens da minha infãncia tb… revi umas figuras, mas a Creuza e seus probrema é mesmo um caso hilário. rsrsrs

  22. Solimar
    29 janeiro, 2009

    “- Tia Creuza, posso ir ao banheiro?
    – Eu já andei de calcinha na sua casa? Já empurrei carroça com a sua mãe? Então, puta que pariu, não sou sua tia. Me chama de PRO-FES-SO-RA.

    Nem sei se foi nesse momento em que mijei nas calças na sala de aula.”

    Sem comentários… Ri Litros!!!

  23. 2 fevereiro, 2009

    hahahahahaha lumbo foi foda!

  24. @cristalk
    2 fevereiro, 2009

    “Eu já andei de calcinha na sua casa? Já empurrei carroça com a sua mãe? Então, puta que pariu, não sou sua tia. Me chama de PRO-FES-SO-RA.”

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

    adorei essa professora!

  25. Pingback: Mais grosso que um dedo destroncado « Eneaotil

  26. leonardo barroca
    4 fevereiro, 2009

    A professora que fez coisas assim comigo morreu… e nao fui eu quem matou.

  27. Tati
    18 março, 2010

    No mínimo estranho seu relato… Também estudei nesta escola e mais ou menos no mesmo período. Só que as aulas de 1ª a 4ª série aconteciam pela manhã, e nunca de tarde… Fora que brigas entre crianças acontecem em qualquer escola, mas nunca vi, nem meus irmãos viram ou viveram, “trotes” das crianças da 8ª nos mais novos!
    Estudei por 6 anos nesta escola e não virei delinquente juvenil!

  28. Mariana
    4 março, 2011

    Puta merda, eu só tenho uma história idêntica! Sério mesmo!
    Fiz a mesma coisa, no terceiro período. E ela pediu pra ver também. E eu me ferrei, também.
    Mas o capeta da vez era a Tia Kátia, que quando a gente fazia bagunça tirava a nossa cadeira e deixava a gente de pé que nem bobo no meio dos amiguinhos sentados.

    Uma vez ela ficou na minha cola o recreio inteiro, gritando: “Mariaaaaaana, Mariaaaaaaana!” Aí eu corri até ela e disse, do topo dos meus sete anos: “Meu nome não é Mariana, é Abacaxi!”
    E saí correndo.

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Publicado às 26 janeiro, 2009 por em Sem categoria e marcado , , .
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