Eneaotil

Capítulo 4: o fim

– Mãe, como se termina um namoro?

Não dá para não dizer que o Lucas perguntou para a pessoa certa. De todos os 175 namoros que eu tive, 174 terminaram. O que não terminou é o atual.

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Deitada na cama ao lado do Lucas quis explicar para ele que não há um jeito certo de terminar um namoro. Que o fim nunca é numa boa, que sempre alguém sai mancando e de olho roxo na história. E que se tem algo que aprendi é que em uma relação meio a meio, realmente um dos dois sai perdendo 75%.

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Fiz uma passagem rápida em minha cabeça dos fins dos meus namoros, até porque o Lucas estava ali, esperando uma resposta. Alguns foram bem traumáticos, outros foram como tomar um grande porre de vodka porque, por mais que eu force a memória, eu não consigo me lembrar. Eu já gritei, eu já chorei, eu já mantive a calma, eu já fui extremamente fria, já esperneei, já cuspi e já até bati. Eu já quis matar e já quis morrer.

Já terminei namoro pessoalmente, por SMS, por MSN, por gtalk, por e-mail, por telefone, por pombo-correio. Acho que se a tecnologia está aí ao seu dispor, a gente deve usufruir não só para ter uma geladeira que apita quando o refrigerante está gelado. Até porque eu tenho absoluta certeza que o Seu Graham Bell* inventou o telefone para não ter que terminar pessoalmente com uma garota.

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Existem alguns mitos nesta história de terminar um namoro e este papo de não terminar pessoalmente ser considerado uma sacanagem é um deles. É um bocado novelesco ter que acabar com um relacionamento olhando nos olhos da pessoa, como se isto fosse evitar o fim. Como se a pessoa que vai terminar um namoro fosse voltar atrás porque olhando nos olhos da outra conseguiria perceber que tudo não está ruim, está ótimo. Que ainda há muito amor e que o fim, escrito todos os dias há uns seis meses, foi um equívoco.

Porque o fim nunca vem de uma hora para a outra. Mesmo a gente achando que é para sempre, o fim nunca chega de surpresa em um relacionamento. Ele se coloca entre o casal deitado lado a lado na cama, ele passeia de mãos dadas no shopping, aparece de repente para jantar, senta na cadeira detrás no cinema, te espirra água na piscina e, no caso do Lucas, beija a sua namorada debaixo da escada da escola.

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Outro mito é de que terminar é pior do que “ser terminado”. Terminar é mesmo ruim, é como um pêlo encravado nas partes baixas, um espinho enterrado no saco (e eu nem tenho saco), um caco de vidro na garganta, um palito quebrado debaixo da unha. Terminar é um incomodo. Mas quando terminam contigo, por mais babaca que o cara seja e você saiba disso, sua auto-estima já era. Eu prefiro sempre bater a apanhar e nunca entendi quem diz que terminar um namoro é pior.

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O terceiro mito é que só se termina com alguém quando não existe mais amor. Eu tive um relacionamento onde só existia amor. O resto tinha ficado em alguma dessas viagens que a gente fazia para tentar salvar o namoro. Escondido debaixo de um aerólito. Não tínhamos respeito, não tínhamos mais carinho, paciência, cumplicidade, tolerância, não tínhamos mais nada. Só amor. E aí em uma das nossas inúmeras brigas, eu terminei. Entupida de amor, que logo transformei em ódio e depois mágoa, de tanto que o filho da puta me sacaneou com gestos, palavras e tudo aquilo que se transforma em ferramenta para machucar o outro. Por uns meses, pensei que fosse morrer. Taí um outro mito porque a verdade é que a gente nunca morre.

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Acho que o último mito, pelo menos o que me vem à cabeça enquanto o Lucas espera uma resposta, é de que não dá para ser amigo de ex-namorado. Eu sou amiga de todos. Bem, de quase todos, exceto o cara do parágrafo anterior. Mas todos os outros são meus amigos. O meu primeiro ex namorado não é amigo porque sumiu e não trocamos mais idéias, mas tenho absoluta certeza de que ele se lembra de nós dois com carinho. Tudo tem seu tempo e é clichê, mas é verdade: os dias, os meses e os anos são capazes de curar todas as feridas. Até aquelas que a gente acha irreversíveis. Se bobear, até aquelas do parágrafo anterior. Mas coloca uns 100 anos aí.

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– E aí, mãe? Como se termina?

Ele é criança e vai ter muito tempo para descobrir.

– Como o seu terminou, Lucas?

– Ah, acho que não gosto mais dela.

– Por conta do que ocorreu com o Enzo?

– Também…

Pensei em dizer para ele colocar a culpa toda nisto, falar que ela agiu mal, que o Enzo agiu mal, que foi um absurdo o que aconteceu, que ela arrebentou o coração dele etc etc, porque eu também já terminei desta maneira, colocando a culpa toda no outro. Se existem mitos ao acabar um relacionamento, existe também uma verdade absoluta: quem conta a história do fim tem sempre razão.

– Então fala a verdade, Lucas. Diz para ela que o que aconteceu fez você se desinteressar pelo namoro e que agora você não gosta mais dela. Dói ouvir que alguém não gosta mais de você, mas ela não vai morrer, pode acreditar.

– É, vou dizer isso. E vou investir na Morgana…

– Isto você não diz!

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Parece que hoje eles vão conversar pelo MSN e vão resolver as coisas. Conhecendo o Lucas, eu tenho absoluta certeza de quem é que foi que saiu perdendo 75% nesta história, curta, mas para sempre.

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* Escrevendo este post, eu descobri que o Graham Bell não inventou o telefone, mas sim Antônio Meucci, italiano, que vendeu a patente pro tal do Bell. Lê lá: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexander_Graham_Bell.

20 comentários em “Capítulo 4: o fim

  1. dede
    17 fevereiro, 2010

    nao sei nem o que dizer.

    passei por todas as fases ja descritas ali, e estou passando novamente neste momento.

    =(

  2. Ricardo Taves
    17 fevereiro, 2010

    Faz parte. Um ponto interessante é que ele não agiu com impulsividade. Digeriu a história e depois resolveu terminar. Além do mais quis buscar uma forma correta. Vai longe o moleque! rs

  3. papis
    17 fevereiro, 2010

    Meu netinho querido, deu vontade de chorar, Se eu pudesse proteger teu coração como prometi proteger-te, meu neto eu faria, mas esse eu não posso.

  4. L.
    17 fevereiro, 2010

    Dede, um super duper hiper abraço apertado em você! =*

  5. Alessandro Max
    17 fevereiro, 2010

    Muito bom Lele, muito bom mesmo. No fim é sempre um novo começo.

    beijo

  6. Lu
    17 fevereiro, 2010

    Que bacana a atitude do Lucas… mesmo numa situação dificil, procurou uma forma legal de fazer as coisas… ponto pra ele!
    Passo por isso e apesar de agora achar que vou morrer, sei que no fim com tempo tudo se ajeita!

  7. Fabio
    17 fevereiro, 2010

    é.
    Meu primeiro namoro terminou com minha ex tomando 6 dormonids tentando se matar e o pai dela depois me culpando por eu ter terminado com ela.
    Resultado, ela ficou mais retardada ainda e eu um completamente traumatizado torcendo para que ela se recuperasse pois o pai dela iria me quebrar na porrada se acontecesse algo a ela.
    Seu Lucas não se abate com pouco.
    Coisa de criação, boa mãe, boa casa, muito carinho… já ví isso uma vez lá na academia. Paraabéns.
    um beijo leonora.

  8. Marta
    17 fevereiro, 2010

    Concordo com tudo sobre os ex. Não entendo essa frescura de “tem de ser pessoalmente”, sendo que palavras são palavras em qualquer meio, de qualquer distância.

    Duas frases me ocorreram

    “Já vi o fim do mundo algumas vezes e na manhã seguinte tava tudo bem”, dos Engenheiros, numa música cujo refrão é “Melhor pra você se ela for embora”.

    e

    “Você é jovem ainda”, como minha mãe sempre diz.

    Vai ficar tudo bem, Lucas :)

  9. November Juliet
    17 fevereiro, 2010

    Nossa.. ler isso tudo foi como abrir uma agenda.. ou uma gavetinha.. desde o primeiro fora aos 7 anos, passando por todos términos traumáticos ou não até o hoje.
    Muito maduro o Lucas de “esperar a poeira baixar”….
    E genial a exposição dos mitos..

  10. Nathalie
    17 fevereiro, 2010

    Olha, faz pouco tempo que acompanho o seu blog, mas já vejo tudo o que rola por aqui, e independente do tempo, leio com carinho e atenção…

    E hoje, lendo esse texto ai em cima, mais uma coisa me chamou a atenção… Algo que eu imaginava que só eu entendia…
    O mito três, sabe? Aquele que acaba tudo e só sobra amor? Um gigante e fdp amor… Mas ninguém consegue entender quando eu falo que tudo foi por agua abaixo, menos o amor…
    Muito bom saber que pelo menos uma pessoa no mundo pensa da mesma maneira que eu nesse assunto…

  11. paulo franco
    17 fevereiro, 2010

    Não preciso dizer que estava torcendo pela morgana desde o início, né?

  12. Nina
    17 fevereiro, 2010

    Ôh meu Deus, imagino o qto deve ser ruim ver um filho sofrer de amor. Mas tb deve confortar ao saber que ele tem um “paralelo ativo” e tá indo pras cabeça investir na Morgana.
    Nominho de bruxa, mas vá lá, ela pode ser gente boa, né?!
    Beijo queridona ;)

  13. Bruna FC
    18 fevereiro, 2010

    Carai….
    Eu venho aqui para acompanhar a vida amorosa do sr. Lucas e acabo lucrando um montão…

    Sobre o mito 1…pode até ser vdd..mas quando o ser ‘terminado’ via msn é ainda pior…sei lá, parece que vc é ainda mais insignificante e descartavel para a pessoa……

  14. Franz
    18 fevereiro, 2010

    É isso aí Lucas, aprenda uma coisa… Vai uma vem cem! (na verdade isso é só um truque pós finais traumáticos, costuma amenizar)

  15. Thais
    18 fevereiro, 2010

    Ah, eu sou muito fã do Lucas cara. Que menino bacana!

  16. Vivs
    18 fevereiro, 2010

    Vou roubar a mãe do Lucas para dar conselhos para mim!

    Dói. Como dói. Terminar ou ser terminado… sinceramente? Nenhuma posição é pior do que a outra. Na escala “não quero mais viver”, as duas estão em pé de igualdade.

  17. mariasso
    20 fevereiro, 2010

    E mais uma vez esse garoto me surpreende! Deu o pé e ja vai pra cima da outra.

    Mas uma coisa é bem verdade, esse lance de terminar é complicado, independente se vc entra com pé ou com a bunda rola uma chateação. Mas o tempo cura tudo. Mesmo!

    Bjs

  18. MaWá
    24 fevereiro, 2010

    Lucas fofo mor. Só queria dizer isso.

  19. Jaque
    25 fevereiro, 2010

    Adorável como sempre. :)

  20. Juju D'Alcantara
    25 fevereiro, 2010

    Lucas muito fofo e tenho certeza que será um grande homem. E vc, tá maravilhosa “desfiando” e analisando seus fins de namoro….

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Publicado às 17 fevereiro, 2010 por em Sem categoria e marcado .
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