Eneaotil

Deus não fez a gente peixe

Desde priscas eras, desde que o mundo é mundo, desde que um meteoro se chocou contra o Planeta, desde sempre, o Homem vive em terra firme. TER-RA FIR-ME.

Bom, talvez há milhões de anos nós não vivêssemos em terra firme. Éramos micropartículas dispersas no ar. Depois nos tornamos amebas, depois girinos, depois ornitorrincos, depois galinhas, depois macacos (ok, creio que houve algo entre a galinha e o macaco), depois Homens e depois Homens que sabem programar o videocassete. Assim diz a teoria evolucionista da qual eu sou adepta.

Enfim, desde o tempo das galinhas, nós cacarejamos e ciscamos em terra firme, dormimos em terra firme e só precisamos voltar para água porque nossa concepção de diversão e alegria envolve churrasco, piscina e férias no litoral com a família inteira apertada em uma kitnet.

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Já faz um tempo que tenho pensado em me matricular na natação. Eu sei, é um tanto quanto ridículo tentar aprender a nadar aos 27 anos, mas a minha vida toda foi assim. Aprendi tudo muito tarde. Se eu fosse contar com a coordenação motora da família, eu ainda estaria engatinhando pelas ruas do bairro da Pompéia ou tropeçando nos meus cadarços desamarrados. Mas eu sou uma pessoa esforçada e aprendi a amarrar os cadarços aos 15 anos. Aos 17, ganhei uma bicicleta da minha prima e tive que aprender a pedalar. Aos 24, aprendi a dirigir. E aos 27 anos, decidi que ia aprender a nadar.

Acho que foi depois de ver o Lucas aos 4 anos sabendo nadar bem direitinho. Ou depois de começar a namorar o Rafael, que evoluiu, é bem verdade, mas tem um avô ornitorrinco com certeza. Ou depois que tive o click: só não uso bóia de braço ainda porque a piscina aqui do prédio dá pé.

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Eu nasci com algum defeito de fabricação e meu cérebro funciona de maneira esquisita das 6h às 9h da manhã. Uma autodefesa do meu corpo é provocar um sono intenso a ponto de não me deixar levantar da cama, mas desde que o Lucas trocou de turno na escola e agora estuda bem cedinho, eu não tenho mais desculpas para ficar embromando debaixo da coberta e não consegui um laudo médico que me autorizasse a fazer isso por uma questão de saúde.

Pois bem, eu tomo decisões esdrúxulas das 6h às 9h. Amém as lojas abrem às 10h porque senão eu voltaria com um carro zero da escola do Lucas em dia de chuva. Tenho certeza que se um dia eu quiser casar, pedirei a mão do Rafael por um SMS às 7h15 da matina. E três anos depois pedirei o divórcio enfiando três bisnaguinhas com nutella na boca ao mesmo tempo, em pleno café da manhã.

Foi assim que eu me matriculei na natação. Antes, quando eu tinha vontade de aprender a nadar eu sentava e esperava a vontade passar. Depois eu era feliz o resto do dia. Mas por esses dias deixei o Lucas na escola e desci a rua da Companhia Paulista de Natação. Nos dois minutos seguintes, eu saí de lá segurando três papéis amarelos que eu troquei por dez folhas de cheques no valor de R$ 464 cada uma. Um papel amarelo era meu, outro da minha mãe e outro do Lucas. Porque eu me fodo, mas levo todo mundo junto.

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De noite, naquele mesmo dia, eu já estava arrependida. Principalmente porque me vi na Centauro tendo que experimentar maiôs de corpo inteiro. O P não entrava, o M não fechava e o G me deixava parecendo uma mortadela Ceratti. Comprei um pretinho básico de um fabricante italiano, o que quer dizer que eu estou com corpo daquelas Mamma. Aí, como se não bastasse, tive que desembolsar mais dinheiros com uma touca e um par de óculos (que fui trocar no dia seguinte porque comprei tamanho Junior).

Outra autodefesa do nosso corpo que a gente insiste ignorar é o custo de praticar esportes. Sentar na Avenida Paulista, engolir fuligem de ônibus e tomar uma lata de cerveja custa só a lata de cerveja. Mas 50 minutos de natação por dia custam R$ 149 + R$ 100 do maiô italiano + R$ 49,90 dos óculos + R$ 19,90 da touca vermelha que te deixa parecendo um pinto cabeçudo.

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Fui fazer a minha primeira aula de natação na terça-feira passada, às 7h30, aproveitando a minha falta de bom senso matinal. Eu era a única adulta na piscina infantil, usada também para exercitar criancinhas de 0 a 5 anos e velhinhos de 90 a 130 anos.

Precisei da ajuda de duas professoras: uma para segurar minha cabeça e meus braços e outra para segurar as minhas pernas. Eu achava que estava indo bem nos cinco primeiros minutos porque tinha conseguido não tomar um tombo na escadinha, mas quase desisti quando tive que aprender a respirar debaixo da água. Gente, eu não sou o Bob Esponja. Deus quis que a gente passasse de ornitorrincos a galinhas por algum motivo que nós não deveríamos ignorar. Não deveríamos.

A cada exercício que eu conseguia concluir, uma das professoras comemorava efusivamente. Me aplaudia com fervor e todo mundo da academia olhava a idiota aqui aprendendo a nadar aos 27 anos.

– Muito bem, Leonor! Muito bem, Leonor!

Apesar da vergonha inicial, eu comecei a me empolgar e até cheguei a pensar que eu tivesse algum futuro como atleta de alguma categoria máster. Aí a professora teve que segurar nas minhas pernas enquanto eu tentava sobreviver desesperadamente debaixo da água:

– Nossa, tive que segurar sua perna com as minhas duas mãos. Não estou acostumada com uma panturrilha tão firme e grossa.

E eu pensei:

Nasce um talento paraolímpico! Essa vaca tá me cantando!

FIM.

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Mentira, não é FIM. A saga continua (afinal, já paguei um ano inteiro).

21 comentários em “Deus não fez a gente peixe

  1. Rebiscoito
    7 junho, 2010

    Suas decisões matinais são firmes mesmo heim? Já pagou o ano inteiro, hahaha boa sorte na sua saga!
    Sempre dou risada te lendo.

  2. Roberta Nina
    7 junho, 2010

    Aaaaahhhhh, eu beeem sei como é isso. Ô se sei!!!
    Comecei a nadar ano passado também, sofro da falta de cordenação de bater braço, bater perna, prender respiração com a boca e soltar pelo nariz embaixo d’agua.
    Tbm sofri com o bolso. É tudo muito caro mesmo! Sem contar que tem que estar sempre com a depilação em dia, né?!
    Mas vc vai curtir, eu gostei de aprender um pouco. A única diferença (gritante) é que eu fiz um pacote de 3 meses e já parei. Falta de tempo, sabe como é.
    Mas ó, vai fé… foda mesmo vai ser nadar de costas sem atropelar o companheiro da raia do lado, mas a gnt aprende!

    Beijooo!

  3. Bruno Ribeiro
    7 junho, 2010

    videocassete, Leonor?!?! O que é videocassete mesmo? :-)

  4. Simone Miletic
    7 junho, 2010

    fiquei matriculada na CPN por exatos 45 dias, aí fui lá, sustei oss cheques e deixei para lá… e olha que é só uma quadra e meia até em casa….
    no meu caso era hidro e meus quilos a mais….

  5. Chay
    7 junho, 2010

    Tive dores no maxilar de tanto rir…. mas vai fundo… brasileiro que é brasileiro nao desiste nunca…

  6. Geraldo Maciel
    7 junho, 2010

    Tenha fé. Um dia vc vai ficar feliz de ficar seguindo a faixa preta no fundo da piscina. :)

  7. Cris
    7 junho, 2010

    ahahahahah acho que eu sei qual é a professora sapa que te cantou.

  8. Érika Roberta
    7 junho, 2010

    Pena que você mora em Sampa quero muito aprender a nadar mas com 25 anos sem companhia me falta coragem….kkkkkk
    Boa sorte!!

  9. Airo
    7 junho, 2010

    A melhor garantia para não fugir dos esportes é pagar o ano inteiro.

  10. Dona Lô
    7 junho, 2010

    Hahahahaha…. Pinto cabeçudo foi ótima…
    Bom, eu aprendi a nadar ainda criança, e era convidada prá competições, embora nunca tenha acietado porque eu nadava por diversão, não por obrigação ou prá competir. Mas com anos de sedentarismo e tabagismo, hoje em dia me certifico que tem sempre um salva-vidas gostosão por perto… Vai que eu preciso, né?
    Parabéns pela iniciativa, linda!

  11. Caminhante
    7 junho, 2010

    Vou ficar torcendo pra que a novela evolua pra um “estou realizada e competirei nas próximas olimpiadas”. Quem sabe assim eu animo o maridão, que não sabe nadar nem andar de bicicleta. (gente sem infância é fogo)

  12. Ira
    7 junho, 2010

    Eu, pelo contrário, se pudesse, morava dentro da água, onde tudo é mais suave, mais relaxante e mais gostoso.

    Tive que aprender a nadar na marra depois que me afoguei na piscina de casa com 1 ano de idade, fui salva por um tintureiro que passava na rua e fiquei em coma por uma semana.

    Mas foi a partir do trauma que posso contar a história fofa de como ensinei meu irmão a nadar e os amiguinhos do colégio a perder o medo da piscina. E se eu tivesse dado sequência aos treinamentos e competições no Flamengo, a enfeitar meu discurso de medalhista das olimpíadas com essa história comovente.

    Porém estou aqui para confirmar o DNA da família. Tentei com o Rodrigo diversas tecnicas e ele continua afundando como pedra e batendo perna e braço de forma descordenada e desesperada. Isso porquê, segundo ele “a natação dele é melhor que a de toda a minha família”.

    Vc vai adorar com o tempo.

    Bjs e qd for aí a gente pode treinar.. ahahahaaha

  13. bruna farias
    7 junho, 2010

    suas histórias são sempre maravilhosas… que bom que vc divide isto conosco. bjs

  14. dede
    8 junho, 2010

    Lele, adorei!

    Depois que vc aprender, me ensina a respirar debaixo d’agua tambem?

    beijos

  15. Sabrina
    8 junho, 2010

    chorei de rir! obrigada!

  16. Marcos
    8 junho, 2010

    Lelê, vc é demais…rsrsrsrsrsrs

  17. Uli
    9 junho, 2010

    Vai com fé, garota! Caí na piscina de uma escola de natação aos 5 anos, o cloro fundiu-se ao meu DNA e viciei. O melhor desse esporte é que (depois que vc aprende a não afundar, pelo menos) é só você e a água, o silêncio lá embaixo, ninguém te pedindo, cobrando, trocando idéia. Limpa a mente de verdade.
    Suerte, nada de sustar os cheques!

  18. Éris
    9 junho, 2010

    Não sei nadar, por que sou adepta do “sentar e esperar a vontade passar” – e isso inclui aqueles surtos que dá na gente qdo resolvemos faxinar a casa e como isso é mais sério, prefiro me deitar.
    Mas adorei essa história… como sou MUITO sua amiga posso ir lá filmar uma aulinha vibrar junto com as “tias da natação”?
    beijinhos

  19. Benito
    13 junho, 2010

    kkkkkkkkkkkkkkkkk, rindo muito aqui.

    Tu és ótima escritora. Favoritei.

  20. Caloã
    14 junho, 2010

    Pq eu me fodo mas levo todo mundo junto …. foi hilário demais!!

    Chorei de rir.

    Bjins.

  21. Dilze Lima
    14 junho, 2010

    Doendo as bochechas de tanto rir. Muito boa sua história. Ainda mais comparando com minha própria experiência. Comecei a nadar aos 34, mas juro prá você que escolhi uma piscina que começava rasa,porque me recusei a entrar na de criança. E mais, saía de casa mais cedo que que você, porque assim fazia aulas antes das velhinhas da hidromassagem chegarem. Hoje nado e sou mergulhadora. Mas, essa é outra história.
    Parabéns (ahh, no inverno eu peço férias na academia, porque costumo hibernar e não acordo nem a pau prá ir nadar).

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Publicado em 7 junho, 2010 por em Sem categoria.
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