Eneaotil

Capítulo 17 – Mulheres mais velhas

Atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por um professor ou uma professora quando era criança. Agora, abaixa porque lá vai pedrada! Eu NUNCA me apaixonei por um professor.

Primeiro porque, quando eu era criança, só tive professorA. Do maternal até a quarta série, todas foram mulheres. E aí, na quinta série, eu já tinha um pouco mais de discernimento. Segundo porque todos os meus professores eram bêbados, feios, véios e cuspiam enquanto falavam, o que nunca me atraiu. E isso não é uma crítica: se eu fosse professora de escola pública eu também beberia pra caralho – (ok, eu nem preciso ser professora de escola pública pra isso).

Meus colegas de classe sim, se apaixonaram por professoras pelo menos duas vezes. Na quinta série, eu tinha aula de geografia com a Monalisa, uma mulher alta, de cabelos lisos até a bunda, que por sua vez era gigante. Ou seja, tudo o que um pré-adolescente precisava para passar horas no banheiro. E na sétima série, eu tinha aula de educação física com a professora Silvana.

A Silvana renderia pelo menos dois posts aqui no blog (um contando sobre uma suspensão que tomei e outro debatendo sobre a ética profissional), mas não vou me alongar sobre ela. Tudo o que precisamos saber é que ela devia ter uns 20 e poucos anos e dava para os alunos da sétima e da oitava série. Sim, não estou exagerando! Ela pegava a molecada e chegou a se apaixonar loucamente pelo Alemão, um menino de QUATORZE anos na época.

Em 1995, eu não sabia muito bem o que era pedofilia. Achava tudo aquilo um absurdo, principalmente porque ela desvirginou boa parte dos meninos mais bonitos da escola. Para todas nós restava um mero bagaço de uma porção de babacas – os meninos sequer olhavam para nós, pobres meninas despeitadas e de canelas roxas, depois de terem comido a PROFESSORA DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Sei que alguém a denunciou – talvez a própria mãe do Alemão – porque ela não durou seis meses na escola.

NOTA MENTAL: Um ano depois de o Alemão sair da escola, eu o encontrei em uma festa junina do SESC Pompéia. Ele me contou que a Silvana passou um bom tempo o perseguindo, louca, desesperada. Nesse dia, eu peguei o Alemão.

**

Essa não foi uma introdução para dizer que o Lucas está apaixonado pela sua professora. Ela é uma senhora com a idade da minha mãe e não é lá muito atraente, amém. Espero, inclusive, que nenhuma Silvana cruze o caminho do Lucas, embora muitos meninos que estão lendo esse texto desejassem uma professora dessas em suas vidas. Acho perigoso, desequilibrado, doentio e criminoso.

Eu sempre gostei das pessoas da minha idade. Quer dizer, quando entrei na 5ª ou 6ª série, os meninos da 8ª pareciam mais atraentes, mas eles tinham dois anos a mais do que eu. Lembro-me de, aos 13, pensar que eu SEMPRE ia querer namorar os meninos de 14, mesmo quando eu tivesse 30 e poucos. Isso me tornaria uma Silvana, mas não me cabia na cabeça gostar de alguém com bigode, barba e pança. Ainda bem que eu não tinha nenhum problema e, conforme eu fui crescendo, me desinteressei pelos caras de 14 e fiquei a fim dos que estavam na mesma faixa etária do que eu. E hoje, já adulta, curto mesmo é uma barba com pança (embora o meu namorado seja magro e de cara pelada).

**

Ainda no ano passado, o Lucas saiu da escola me contando que algumas adolescentes da escola queriam namorá-lo. No colégio dele, crianças e adolescentes ficam separados: estudam em prédios diferentes e usam até uniformes de outras cores. Nunca me preocupei se isso é bom ou ruim, mas pensando agora ao escrever esse texto, essa separação servirá como um importante rito de passagem. Antigamente, beeeeeem lá nos antigamentes, meninos usavam calças curtas e homens calças compridas. Naquela época, ganhar uma calça comprida devia ser mais legal e libertador do que tirar uma carteira de motorista. Do mesmo jeito que trocar a camiseta amarela pela branca significará ao Lucas – e a mim também – que ele definitivamente cresceu.

Ok, fecha parênteses. Acontece que, lá na escola do Lucas, a cantina e o bebedouro são os mesmos para os grandes e os pequeninos e esses são uns dos poucos momentos de interação entre as duas turmas.

Estava o Lucas lá, todo pimpão, tomando água, quando desviou o olhar e viu três meninas mais velhas olhando para ele. Elas apontaram e disseram que ele era bem bonitinho. Ele até engasgou.

O fato é que ele entendeu tudo errado. Tá certo, o Luquinhas é BEM bonitinho mesmo, mas as três não diziam isso no sentido bíblico da frase. Foi mais um: “nossa, que criança bonitinha”. E aí o inconsciente dele já imaginou um passeio no shopping de mãos dadas, filhos e um lanche apimentado na cantina da escola, enquanto todos os amiguinhos dele o invejavam.

– Elas me querem, mãe!

Nesse dia, tentei explicar para ele que as coisas não eram bem assim, mas o Lucas tem uma auto-estima inabalável e ele encasquetou com aquilo. Eu resolvi não dar muita bola, até porque sabia-se lá quando ele encontraria essas meninas novamente.

**

Nem todos sabem, mas eu saí da casa dos meus pais e agora moro com o Lucas e meu irmão (sim, ainda vou escrever sobre isso). Assim que nos mudamos, poucos dias depois, encontrei uma menina no elevador, voltando do inglês. Troquei meia dúzia de palavras com ela porque descobri que ela morava no apartamento em frente ao meu. No dia seguinte, eu descia o elevador com o Luquinhas pela manhã para irmos à escola e encontramos a menina com sua mãe. Ela também estava com o mesmo uniforme do Lu, mas de cor branca.

Na hora, percebi que meu filho ficou laranja e emudeceu. Nem cumprimentou ninguém no elevador e se escondeu atrás de mim, como se tivesse dois anos. Quando estávamos sozinhos de novo, subindo a Avenida até a escola, ele me contou:

– Lembra daquelas três adolescentes que queriam me namorar? Nossa vizinha é uma delas.

É por isso que eu sempre digo: não se pode foder ninguém nessa vida porque ela realmente dá muitas voltas. Graças a Deus, ninguém fodeu ninguém nesse caso e a situação era mais simples do que parecia.

**

A vergonha era tanta que o Lucas passou dias se escondendo da menina, querendo sair mais cedo ou mais tarde de casa para não calhar de irmos à escola no mesmo horário do que ela. Só que eu e a mãe dela ficamos amigas e ela me ofereceu carona para eu não ter que subir nove quarteirões a pé até o colégio do Lu.

Quando eu contei a ele sobre isso, ele nem cogitou a possibilidade de aceitar a carona e quase se ajoelhou pedindo PELO AMOR DE DEUS para não irmos.

– Lucas, você tá com medo de ser estuprado? O que tá rolando?

Ele tinha tanta certeza que elas eram apaixonadas por ele, mas na hora, peidou na tanga.

Até que, em um dia de chuva, nós tivemos que aceitar a carona. Lucas parecia uma pedra dentro do carro e cheguei a pensar que ele estava sem pulsação e batimentos cardíacos. Quando estacionamos na frente da escola, ele desceu correndo e nem ao menos me deu tchau. Tive que justificar para a mãe da menina dizendo que ele era uma criança muito tímida. MUITO.

**

Aceitamos a carona mais algumas vezes e o Lucas, aos poucos, foi se soltando. Até que ontem ele já estava soltinho da silva. Fomos os quatro conversando no carro e a menina contou que tinha ido a um show no domingo.

– E a minha mãe que foi ao show do Ozzy no sábado porque ganhou ingresso de R$ 600???? – Luquinhas completou.

Vi que ele não estava normal: era uma mistura de ansiedade com contar vantagem, tudo isso aos gritos dentro do carro. Falou mil vezes que ia para a Disney com o pai em julho e que teria que faltar na escola para tirar um passaporte francês, porque ele tinha direito a cidadania francesa. O problema é que era tudo de uma forma descontextualizada.

Não sei quem voltou para o assunto dos shows e o Luquinhas, que nunca foi em nenhum, emendou:

– E eu que já fui na casa de Santos Dumont?
– MEU DEUS, Lucas? O que tem a ver o cu com as calças? – não agüentei.
– Ué, são passeios culturais.

Quando chegamos na porta da escola, ele me disse:

– E aí? Se ligou?
– No que, Lu?
– Já ganhei um sorrisinho dela, mãe.
– Como assim?
– Você não viu o sorrisinho que ela me deu na garagem?

Aí tudo fez sentido: a auto-estima do Lucas continua inabalável e ele, com a certeza de que ela o ama, queria só se aparecer. Só que é ruim demais no xaveco.

**

Ontem, quando eu estava pensando em escrever esse texto, lá pelas 22h, tocaram a campainha lá de casa. Olhei pelo olho mágico e vi a menina na porta de casa, de pantufas e pijama.

– Oi, você pode me emprestar a sexta temporada de Friends?

Mandei ela entrar e esperar um pouquinho, enquanto eu procurava os DVDs. O Luquinhas já estava dormindo. Na saída, ela agradeceu e me chamou de Gabi.

Hoje de manhã, contei para o Lucas:

– Adivinha quem veio ontem de noite aqui em casa?

Ele não acreditou.

– Ainda bem que você estava dormindo, porque senão você iria infartar achando que ela veio em casa de pijaminha atrás de você.

– Ia ter uma parada cardíaca, mãe – ele me sorriu um sorriso sacana.

Contei que o pijama não era nada sensual, que era um conjunto de algodão com algum bichinho estampado na frente, como toda menina de 15 anos deve usar.

– Ela até deu uma bizoiada no teu quarto, Lu. Sorte que você não tava com a cueca de elefantinho!

– Pára, eu nem tenho uma dessas! – ele riu.

Não tem mesmo. Mas estava usando uma do Bob Esponja.

**

Vou é deixar rolar. Não sou eu que vou dizer para o Lucas que ele não atrai meninas de 15 anos ainda, nem que o futebol dele é ruim demais, por isso não dá para ele ser jogador. A vida vai mostrar. Porque lá na frente, o tempo vai passar e todos, no fim das contas, terão a mesma idade novamente. Como eu, que sou quatro anos mais velha do que o Rafa. Quando eu o conheci, ele era um menino de 16 anos, cheio de espinhas e um aparelho nos dentes, andando pela quadra dos Gaviões da Fiel. E eu já tinha um filho pequeno nos braços. O tempo passou e cá estamos. O importante nisso tudo foi termos alimentado boas histórias enquanto os anos fizeram seu trabalho. Pra gente não ter que viver o resto da vida se escondendo no elevador quando o destino morar bem no apartamento da frente.

31 comentários em “Capítulo 17 – Mulheres mais velhas

  1. George
    5 abril, 2011

    um sonho: ler um comentário do lucas aqui

  2. L.
    5 abril, 2011

    hahaha ele sabe do blog, George. Tá nem aí.

  3. Enzo Bertolini
    5 abril, 2011

    Leonor, lendo a história do Luquinhas, me lembrei das minhas de infância e a paixão por vizinhas mais velhas. E lembrei que o meu primeiro beijo foi com uma vizinha mais velha do que eu (não lembro quantos anos, mas o suficiente para contar vantagem rs).

  4. Expedito Paz
    5 abril, 2011

    Fazia tempo que não lia um texto tão delicioso. Não passei pela experiência de me apaixonar por alguma garota mais velha na adolescência, mas imagino a quantas andam os hormônios do Lucas…

  5. Gra Capetta
    5 abril, 2011

    Sensacional kkkkkkkkkkkk é bem assim mesmo mais grata por te parado de trabalhar um pouco pra ter uma boa leitura

  6. Leidi
    5 abril, 2011

    Sensacionaaal seu texto!!!
    E eu tbm nunca me apaixoneei por professores..mas tive amigas que deram até ovo de pascoa em formato de coração pro nosso de Educação Fisica, hahaha

    =)

    Bjs e saudações corinthianas!!!

    obs.: acho q vc conhece meu primo, Kzu (André) lá da Gaviões…rsrs

  7. Makamello
    5 abril, 2011

    Inveja boa do seu jeito de escrever .

    Texto e personagem sensacionais .

  8. Ândi
    5 abril, 2011

    Caramba, eu quase entrei nessa questão de sedução no meu último texto, que era justamente sobre professores…

    Eu tive professoras BOAS, mas quando criança não me lembro de ter me apaixonado por nenhuma. No máximo coisa de moleque mesmo.

    Foda foi o ano do cursinho…

  9. .mila.
    5 abril, 2011

    Seus textos sobre o Luquinhas me deixar feliz, Lê! :)

    Valeus pelas risadas …

  10. Julio
    5 abril, 2011

    Hahahahahaha, lembro que uma vez, na sétima série, uma menina do primeiro ano disse que eu era bonito. Fiz o terceiro ano com ela e a infeliz nunca olhou na minha cara.

    Ela só melhorou. Eu não, hahahahahahahaha.

  11. Paulo Holanda
    5 abril, 2011

    Muito Bom! Tenho um filho bem novinho, me imaginei passando por algo parecido futuramente. Gostei muito do final e sua opnião sobre “deixar rolar”, isso é importante para o amadurecimento!
    Estarei lhe acompanhando em futuros textos!
    Abraço!

  12. Uilson Souza
    5 abril, 2011

    Sensacional!!!!

  13. Débora
    5 abril, 2011

    “Peidou na tanga” é gênio.
    A gente adora demais o pequeno!

  14. Dona Lô
    5 abril, 2011

    Eu me apaixonei por professor. Eu tambem fiquei com professor!
    Eu adoro homens mais novos, de verdade.
    E o Luquinha… Uma delícia, não?

  15. Aline
    6 abril, 2011

    Lendo este texto na quase-madruga de quarta-feira, enquanto minha filha de 3 meses dorme no carrinho. Lendo e acumulando experiências para os anos incríveis que se seguem. =o)

  16. Guilherme
    6 abril, 2011

    Gostei muito do texto. Parabéns.
    O meu sentimento com minha filha é que só ela cresce. Me esqueço que o tempo também passa pra mim. Sei lá, como se eu esperasse um tempo em que ela me alcançasse para podermos fazer todas “as coisas legais” juntos. A vida é bela.

  17. Amanda
    6 abril, 2011

    Rí demais Lelê. Sua noção de tempo/espaço me pôs pra pensar tb. Lindo texto, como sempre!! Beijosss

  18. Raul Souza Lima
    6 abril, 2011

    Cá estou eu 5:25 lendo este post e como sempre rindo bastante.
    Muito bom, gosto pra caramba do seu blog!
    Vai Corinthians!!!!
    Bjs

  19. Ingrid Weber
    6 abril, 2011

    Leonor, li teu blog inteiro e é muito bom, ri em todos teus posts, chorei um bocado em um tanto também. Parabéns pelo blog e principalmente pela família maravilhosa que você tem.
    abs

  20. Nine
    6 abril, 2011

    Adoro, adoro, adoro seus textos!

    Agora pijama de bichos fofos eu AINDA uso aos 32…mimata?

    Beijos,
    Nine

  21. Thais Ferreira
    6 abril, 2011

    Um menino tímido…MUITO TÍMIDO!!!!

    Quero ter mais notícias dessa história!!!

    Bejus…

  22. fátima
    6 abril, 2011

    adorei!!

    bj

  23. naosaia
    6 abril, 2011

    Muito bom, adorei!
    Eu já dispensei um garoto maravilhoso, quase perfeito, só que era um ano mais novo que eu :( juro que não tive coragem.

  24. Flávia
    7 abril, 2011

    Adorei o texto!
    Adoro o jeito que vc escreve.. as histórias que conta e sua irreverência.
    Parabéns! E parabéns pelo filho maravilhoso que você tem! =D

  25. Raul
    7 abril, 2011

    Ahahahaha.
    Lembrei como eu era ruim de xaveco, também. Sempre ficava cantando vantagem.

  26. Jorge
    7 abril, 2011

    Boa história, haha, primeira leitura aqui no Blog

    comecei o texto me identificando quando você disse que nunca gostou de professor nenhum, meu sonho no colégio era ter uma professora “boa”, encontrar uma Silvana nessa época seria uma realização pra mim (uma professora gata que dava pros alunos?), nunca tive e consequentemente, nunca ouví falar de nenhum amigo apaixonado por professora nenhuma

    me lembrou também a minha fissura em garotas mais velhas, quando eu tinha 12,13 anos era sempre apaixonado pelas garotinhas da oitava, que na época pra mim eram mega mulherões semi-adultas, hahaha

    no mais,

    Inveja boa do seu jeito de escrever .

    Texto e personagem sensacionais .[2]

  27. Tatiana (UPE ;-)
    8 abril, 2011

    Lelê, adoro seus textos. Esse foi especialmente bom!

  28. Bel
    9 abril, 2011

    Só não entendi por que ela te chamou de Gabi… Sou eu que tô perdida, ou é ela mesmo???

  29. Williampogos
    12 abril, 2011

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk esse garoto é um barato

  30. Stephania Abreu
    13 abril, 2011

    Pode ser que hoje ele não ligue, mas o Lucas, quando tiver naquela fase chaaata adolescente, ainda vai querer te matar!ahahahaha
    No mais, seu blog é infinitamente um dos melhores que eu já li, e olha que nem gosto de Corinthianos (apesar de namorar um)!

  31. brunaruffo
    18 abril, 2011

    Caramba!que blog delicioso de ler,adorei!!

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Publicado às 5 abril, 2011 por em Sem categoria e marcado .
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