Eneaotil

Dos presentes de 10 anos

Quando você é mãe solteira de um moleque, é bem provável que você tenha que fazer as vezes do pai em algumas situações. Mesmo que o pai seja um cara presente, como no caso do Lucas: eles se amam, moramos no mesmo prédio e a convivência é ótima e frequente. Mas não é igual estar ali todos os dias, então é contigo que o moleque vai ter confiança pra perguntar como nascem os bebês, contar das namoradinhas de escola e, mais pra frente, querer saber tudo (tudinho mesmo) sobre sexo. É contigo que ele vai querer discutir os lances do futebol e pedir pra bater uma bolinha no fim do dia. Talvez ele te pergunte como é que faz uma pipa, como se joga bolinha de gude, como se brinca de bafo, ao invés de querer brincar de barbie. É preciso estar preparada.

No meu caso, deu muito certo ser mãe solteira de um moleque porque a vida me preparou pra isso. Eu cresci com meu irmão e meu primo jogando bola na rua, eu aprendi a fazer pipa com um ex-namorado da minha prima mais velha, meu tio me levou ainda pequenina aos estádios e nunca mais parei de ir, eu conheço as regras do futebol. E eu sou mulher, ou seja, não há conselho sobre mulheres que um homem possa dar melhor do que eu porque eu me conheço, pô! Sei o que é TPM, quais filmes de mulherzinha assistir, o que a gente gosta de ganhar de presente, o que a gente quer ouvir.

Ainda, sei beber cerveja igual a um menino, jogo sinuca e meus amigos às vezes me mandam fotos de mulheres peladas por engano, de tão mano que eu sou deles. Não foi nem uma nem foram duas vezes que eu era a única mulher da mesa com mais de 20 caras ouvindo que nós somos loucas, que nós não sabemos o que queremos, que mulheres são bipolares. Enfim, prefiro os filmes sanguinolentos aos filmes com a Meg Ryan, entendo mais da política do Corinthians do que do movimento feminista, no kung fu eu dava uma surra em uma penca de caras e preferiria trabalhar na construção civil do que fazer faculdade de moda.

E antes que vocês achem que eu sou uma hermafrodita e comecem a me chamar de Buba, digo que, apesar de tudo isso, sou 100% mulherzinha. 100%.

Então, talvez por me conhecer quase melhor do que ninguém, o Lucas sempre me perguntou tudo o que quis saber e para o pai reservou mais respostas do que dúvidas.

**

Já faz algum tempo que o Lucas me pediu uma revista Playboy. Antes de ter 10 anos, acho que antes de ter nove e talvez antes mesmo de ter oito. Não é nenhuma taradice: é uma curiosidade por saber que existem outros peitos que não os da mãe. Amém! Lucas é um menino curioso e quando se esgotaram as perguntas infantis, ele passou a me perguntar coisas um pouco mais sérias que eu não costumo levar tão a sério assim.

Por ter meu blog dentro da Revista TPM, de vez em quando recebo as Trips, com algumas mulheres peladas entre as suas reportagens super legais. As revistas sempre ficaram escancaradas em casa, mesmo quando eu morava com meus pais: mulher pelada nunca foi algo guardado a sete chaves. E Luquinhas, curioso, descobriu as revistas e viu todas, como eu já contei por aqui.

Um dia, ele chegou pra mim e perguntou:

– Qual é a diferença entre uma Trip e uma Playboy?

Eu disse a ele que a Trip era uma revista com muitas reportagens e pouca mulher pelada e a Playboy era o contrário: mais mulher pelada do que reportagem. É claro que ele preferiria uma Playboy, então, porque entendo a curiosidade para ver mulheres peladas, mas não entenderia se ele quisesse ler artigos extensos sobre preconceito, desigualdade social, higiene íntima e outras coisas. Lucas prefere ver as figurinhas e começou a me pedir uma Playboy incansavelmente.

– Quando eu vou poder ter uma?

– Ah, Lucas. Acho que na Copa – em casa, como bons amantes do futebol, contamos tudo “até a Copa” ou “a partir da Copa”, mesmo sabendo que a possibilidade de irmos aos jogos com meu salário de jornalista é quase nula.

– Meu Deus, só em 2014?  Só quando eu tiver 12 anos?

Ele pareceu meio desesperado e isso me fez pensar porque é que eu não deveria dar uma Playboy a ele aos 10 anos. E não encontrei nenhum motivo. Acho que é mais nocivo tratar a nudez como algo proibido do que matar a sua curiosidade. Tem o outro lado também: o contraponto é criar o Lucas como um cara preparado para lidar com as mulheres, para saber o que dizer na hora certa, fazer o cafuné que a gente gosta de receber, respeitar chororô na TPM e assistir o filme da Meg Ryan quando é essa a vontade.

**

Perguntei no Twitter se a tal da Cacau, a capa da Playboy do mês de aniversário do Lucas, era uma boa mulher pra ser a primeira do Lucas, mesmo que fosse impressa. Me responderam que sim e lá fui eu, junto com a minha mãe (sim, a avó do Lucas!), na Livraria Cultura comprar uma. Claro que quando eu cheguei lá, não achava a Playboy de jeito nenhum e tive que perguntar:

– Por favor, onde ficam as revistas masculinas?

Eram duas meninas no caixa que me olharam com cara de “Uééééééééééé”, enquanto um outro atendente corria pra me tirar daquela situação embaraçosa. Logo ele me entregou uma Playboy e eu disse:

– É para o meu filho.

E as duas me olharam ainda mais aterrorizadas. Fui mandar embrulhar a revista e passei pelo mesmo estranhamento de outra atendente:

– É pro meu filho! – me expliquei de novo, um pouco constrangida.

– O que me espanta é você ter um filho de 18 anos que já possa ler essa revista – ela me disse.

– O que me espanta é você não saber que se meu filho tivesse 18 anos, ele poderia vir comprar essa revista sozinho e eu não teria que passar por isso – respondi.

– É verdade.

E encerramos aí as explicações.

**

Na manhã de aniversário do Lucas, ele pulou na minha cabeça cedinho, como faz todas as manhãs. A Playboy não era o único presente, é claro. Entreguei alguns CDs (Elvis, The Baseballs), um quadrinho do Hobbit e o último pacote foi o que ele não esperava. E ele ficou mais feliz com a revista do que quando ganhou a primeira bicicleta.

Mas demorou alguns minutos pra abrir, ficou ali olhando a capa por um tempo. Eu fui pra sala, pensando que ele queria ficar um tempo sozinho com a Cacau, mas não deu dois minutos e ele veio atrás:

– Posso ler aqui contigo?

“Ai, meu Deus, respeite os limites de uma mãe”, eu pensei.

– É claro que pode.

Logo no índice, tinha uma foto do Jô Soares e ele arremessou a revista longe:

– MEU DEUS, MÃE!!! NÃO ME DIGA QUE O JÔ SOARES ESTÁ PELADO NESSA REVISTA.

Expliquei pra ele sobre as famosas entrevistas da Playboy e, depois que ele parou de tremer, ele avançou página por página. Até chegar na tal da Cacau e, em uma das fotos, ela encheu a periquita de granulado:

– O QUE QUE É ISSO, MÃE? É BICHO????

**

Contei no Twitter que tinha dado a Playboy ao Lucas e um cara veio me dizer que eu tirei dele o gostinho de fazer isso escondido. Talvez fosse, se ele não tivesse me pedido isso. E foi simbólico eu ter dado. Significa um: “você não me contará tudo, mas estou aqui pra tudo”. Sem limites.

**

No domingo, Luquinhas foi ao estádio comigo ver o Corinthians ganhar do Atlético Paranaense e ficar mais perto do título do Brasileiro. Em famílias antigas, o gosto pelo futebol até podia ser passado de pai pra filho, mas em casa isso também foi diferente. O corinthianismo e o gosto pelo futebol Luquinhas herdou da mãe. Graças a Deus.

Fui eu quem deu a primeira camisa e o levou pela primeira vez no estádio e explicou a ele o que significa impedimento. Fui eu quem mostrou a ele o que é uma torcida apaixonada, como é ficar debaixo do bandeirão, que gosto tem um sorvete de limão no estádio. Fui eu quem o apresentou os encantos e os desencantos do futebol e é assim que será sempre, daqui até o fim da vida dele. Graças a Deus.

Por isso, outro presente que o Luquinhas ganhou foi entrar no campo com os jogadores do Corinthians antes da partida e ver a torcida por outro ângulo. Eu sempre quis conseguir isso pra ele, mas ele sempre morreu de vergonha. Até que, há menos de um ano, ele começou a me pedir para entrar e eu disse a ele que conseguiria perto de seu aniversário.

E assim foi feito: comprei pra ele o calção e o meião que faltavam para Luquinhas ter o uniforme completo e poder entrar no campo. Marquei com a assessoria do Corinthians, contei com a ajuda de uma amiga querida (obrigada pra sempre, Maricota) e lá fomos nós ao portão 23.

Eu parecia mãe de miss, só que ao contrário: mãe de um maloqueirinho nato que entrou em campo com o Ralf (“Ele é raçudo, mãe!”), saudou a torcida do Corinthians, apareceu na TV e voltou correndo pra me contar como foi com os olhos cheios de lágrimas:

– A torcida, mãe! A torcida é a coisa mais bonita que eu já vi!

Eu ali, com um nó na garganta de me fazer perder o fôlego, agradeci demais por esse menino. E agradeço todos os dias.

Luquinhas com Ralf em 1m28s

35 comentários em “Dos presentes de 10 anos

  1. Marcus Pessoa
    17 novembro, 2011

    Lindo relato.

  2. Anderson Canale Garcia
    17 novembro, 2011

    Bem Corinthiano mesmo. Entra em campo, de mãos dadas com um jogador de seleção (que é, é, se deveria é outra coisa), aparece na TV, e a coisa que mais impressiona é a torcida.

    Definitivamente, é Corinthiano!

    Adoro seu jeito com ele… :)

  3. Flávia Eloá
    17 novembro, 2011

    Perfeito!!!! *.*

  4. Antonio
    17 novembro, 2011

    Adorei!

  5. .mila
    17 novembro, 2011

    Vocês … vocês são das coisas mais bonitas que já vi. <3

  6. Flavio Maka Mello
    17 novembro, 2011

    “A torcida , mãe !”

    Perfeito .

  7. Teu pai Fausto José de Macedo
    17 novembro, 2011

    Meus dois amores. De verdade. Não sei qwuem eu amo mais. E ainda tem o Rodrigo e a Rosemari. Decidi. De uma vez por todas amor toda a minha família. Meu coração está bom e cabem todos e todas dentro dele. Mesmo que estivesse cambaio, caindo pelas tabelas eles estariam aqui, bem dentro dele. Pulando e cheinho com essas belas figuras que Deus me deu. Sim foi presente de Deus, meu presentes de 27 aos 61 anos. E ainda vem mais por ai se Deus quiser!

  8. Teu pai Fausto José de Macedo
    17 novembro, 2011

    Meus dois amores. De verdade. Não sei quem eu amo mais! E ainda tem o Rodrigo e a Rosemari! Decidi:de uma vez por todas amo toda a minha família! Meu coração está bom e cabem todos e todas dentro dele! Mesmo que estivesse cambaio, caindo pelas tabelas eles estariam aqui, bem dentro dele. Pulando e cheinho com essas belas figuras que Deus me deu. Sim foi presente de Deus, meu presentes de 27 aos 61 anos. E ainda vem mais por ai se Deus quiser!

  9. Nádia
    17 novembro, 2011

    Lindo relato mesmo… mas só um detalhezinho bobo: a Copa é em 2014! ;)

  10. Enzo Bertolini
    17 novembro, 2011

    Leonor, o relacionamento de vcs sempre me impressionou positivamente. Parabéns por ser a mãe que é e pelo garoto cada vez mais surpreendente. Parabéns ao Lucas tb!!!! Bj

  11. Bruno Gallo
    17 novembro, 2011

    SENSACIONAL !!!!! Sem palavras… Parabéns pelo ótimo texto.

  12. Juju
    17 novembro, 2011

    Hahaha, que lindo!!!

  13. Marcos Akamine
    17 novembro, 2011

    Como sempre …otimo texto!Beijao!

  14. Marta Sangirardi Lima
    17 novembro, 2011

    Adorei. Do fundo do meu coração de mãe corinthiana.

  15. eu não tenho um filho, não sou corinthiana, não conheço missa a metade e mesmo assim sempre choro nos seus posts.

  16. Luana
    18 novembro, 2011

    Ai que lindo! Que lindo!!!!

    Meu tio foi jogador do timão (Ditao, dos anos 60/70) e meu pai começou a carreira dela pelo Corinthians (no basquete, depois foram 13 anos de seleção Brasileira, olimpíadas….).
    Torcer para o Corinthians eh algo tao profundo na minha pele que eu nem sei explicar… Amar esse time, quando ganha e quando perde…

    Acho que teria desmoronado quando visse meu filho entrando com os jogadores… Acho não, teria! Porque só de ler seu post eu estou me acabando em lagrimas….

    Feliz aniversario para o Lucas e parabéns por você ser essa mãe maravilhosa!

  17. Bruninha
    18 novembro, 2011

    Que delícia que é ler e ter acompanhado um poquitinho desse processo da Playboy! hahahahaha… E também de ver o relato do seu pai aqui! =)
    <3

  18. waleska
    18 novembro, 2011

    meu maridogato!

  19. nanamelon
    18 novembro, 2011

    Mesmo sendo do Corinthians, quase chorei com “a torcida é a coisa mais linda que eu já vi”. E o orgulho que dá ver um filho em campo com o nosso time do coração é algo inexplicável mesmo :)

    Lindo texto, como sempre.

  20. Luiz com Z
    18 novembro, 2011

    Encheu a periquita de granulado?

  21. Luiz com Z
    18 novembro, 2011

    Eu amei o texto pra variar, ri pra cacete, mas granulado, porra? Fico imaginando se o Lucas conhecer essa mulher ao vivo daqui a uns dez anos…

  22. Renata Granja
    18 novembro, 2011

    Lindo e meus olhos encheram de lágrimas.

  23. Eduardo Nunes
    18 novembro, 2011

    Prá variar, passou o meu stress do trabalho aqui hoje. :D

    Granulado? Que nojinhooo! kkkkkkk

    Adoro essa sua convivência com seu filho! ;)

  24. MarianaMSDias
    18 novembro, 2011

    Ai, Lelê… Vc me mata, toda vez! ;o)

    De dessa vez, é tudo o que eu consigo dizer!

  25. Fabio Fleury
    18 novembro, 2011

    Espetacular, Lelê. Dei muita risada com a reação dele ao Jô e quase chorei com o que ele falou da torcida. Vcs são phoda. Beijão.

  26. Roberta Nina
    18 novembro, 2011

    Você é a mãe corintiana mais linda de todas!

    Um beijo de uma São Paulina que amou seu texto.

    Nina :)

  27. Leidi U.
    18 novembro, 2011

    Ainda não tinha lido o relato sobre os presente do Lucas!
    Me identifiquei na parte de jogar futebol na rua..e saber fazer pipas!
    Saber dar nós de rabiola é uma arte! rsrsrs..
    E se tiver um filho, farei questão de levá-lo ao estádio..eu fui a primeira vez com 16 anos com um amigo do trabalho, carona do meu primo e a cara feia do meu pai em casa…mas tudo bem! rs
    Bjs, parabéns pelo filho lindo q vc tem!!!

  28. marilia
    19 novembro, 2011

    Que lindo. E ainda teve comentário lindo do seu pai. Ah, é de aquecer o coração! :)

  29. SuH Rocha
    29 novembro, 2011

    Cada texto seu que leio posso comprovar sua competência e como conseguir colocar sentimentos tão verdadeiros em formas de palavras.

    Parabéns por mais um belo texto, e a experiencia na compra da Playboy o máximo!

  30. Pandora
    2 dezembro, 2011

    Eu detesto ter vontade de chorar simplemente por ler um texto.
    E é exatamente isso que me faz adoarar tudo que vc escreve!
    Post lindo como todos, redondo como a ocasião.
    Parabéns, felicidades à tua família!

  31. erissant
    5 dezembro, 2011

    Dei risada à beça com a reação ao Jô, chorei com a constatação que a torcida é a coisa mais linda e quando achei que já podia “consertar” meu rímel borrado, vem o Seu Fausto e deixa uma declaração dessa!!!
    Pô, dificil vocês hein? Amo <3

  32. Bel
    10 dezembro, 2011

    Só pra dizer que eu nunnnca comentei aqui, mas hoje eu me enchi de coragem porque me emocionei demais. Parabéns por ser essa mãezona que todas deveriam ser.
    Beijo!

  33. Suuu
    26 janeiro, 2012

    AMEI SEU POST.

    Espero algum dia ser uma mãe tão foda quanto você…
    beijo

  34. Jack Costa
    7 fevereiro, 2012

    Eu vou dos olhos marejados à intensas gargalhadas em questão de segundos.

    Obrigada!

    Beijos pra vcs!!

  35. Lica Maria
    16 fevereiro, 2012

    Lindo texto, Lelê.
    Acompanhar as peripécias do Lucas desde o tempo da Miréula, é uma diversão e encantamento que você divide com seus leitores.
    Obrigada, hoje vou contar para o pessoal de casa a nova do Lucas.
    bjo

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Publicado às 17 novembro, 2011 por em Sem categoria e marcado , .
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