Eneaotil

Influência musical

ozzy

Quando você se torna mãe (ou pai), você recebe a incumbência de criar alguém. Mais do que instinto e estatutos legais, isso significa que tudo passa a ser sua responsabilidade: se o pequenino vai tomar as vacinas, se vai comer alimentos saudáveis, se vai frequentar a escola, se vai ser respeitoso com os mais velhos, se não vai se tornar um dedo-duro com os amiguinhos, se vai amar os avós e os animais, se não vai dar valor somente aos brinquedos caros, se vai ser um sujeito gente fina no presente e no futuro.

De todos esses e de tantos outros desafios de formar alguém, talvez um dos mais difíceis seja referente ao gosto musical de um pequenino. Mais até do que fazer o seu filho torcer pelo mesmo time que você, experimente influenciar uma criança no meio de tantos gêneros musicais e de tanta porcaria para saber do que eu estou falando.

Não se trata aqui de existir um gosto musical certo ou errado, cada um gosta daquilo que quer ou daquilo que é. Mas é um tremendo desgosto para um pai ou uma mãe metaleiros que o seu filho chegue em casa usando uma bandana do Chiclete com Banana, por exemplo. Ou que um filho metaleiro mande a mãe abaixar o pagodinho que está escutando porque aquilo é uma tremenda bosta. Por mais que a gente crie os filhos para o mundo, é bacana que o mundo deles seja compatível com o seu, pelo menos no gosto musical.

Quando eu era criança, minha casa era cheia de música. Em dias alegres ou tristes, sempre tinha alguma trilha sonora: se meus pais brigavam, minha mãe chorava ao lado da vitrola ouvindo Chico Buarque e encharcava os encartes dos álbuns. Nos dias mais inspirados do meu pai, ele colocava no último volume Genesis, Alan Parsons Project, Temptations, Joe Cocker, até chegar a época do Lucio Dalla. Por vezes, minha mãe cozinhava ao som de Beatles e dançava sua dancinha desengonçada entre uma mexidinha e outra no arroz mole. Nos dias mais apaixonados, tocava Louis Armstrong, Ray Charles, Ella Fitzgerald ou outra diva estalava na agulha. Nos mais revoltados, um Gonzaguinha, um Taiguara. Nos ensolarados, Cartola e Paulinho da Viola.

Aprendi a apreciar uma boa letra e um som em harmonia, embora nunca tenha me tornado uma expert da música. E é claro que não fiquei só nisso. Ninguém passa do Fofão pro Slayer sem manchar o seu currículo e geralmente a culpa é dos amigos. Eu ouvi New Kids On The Block e no ginásio me divertia com uns pagodinhos antes de, definitivamente, escolher o lado do rock.

Quando o Lucas nasceu, já se ouvia menos música em casa, mas todas as noites meu pai cantarolava até o meu filho dormir, ao lado do seu berço. E cantarolava Cartola, Adoniran, Elis Regina, Chico Buarque, Sueli Costa, Roberto Carlos. Lucas também aprendeu de pequeno a apreciar uma boa letra e um som harmonioso, embora não tenha tido um bom cantor. De vez em quando, eu também me arriscava a cantarolar para ele e Lucas gostava tanto daquilo que me pedia para gravar um CD (é amor de filho, gente).

Mas como eu disse logo ali no começo, a gente cria os filhos para o mundo e um dia eles saem de casa para a escola ou para a casa do pai e voltam cantarolando Victor e Léo. E é triste, de partir o coração que tantos anos de empenho e vexame ao lado do berço sejam jogados fora por 5 minutos de influência externa.

É na infância que muitas coisas são decididas e o bom gosto musical do Lucas também era a minha responsabilidade, eu não podia desistir desse menino, não podia entregá-lo ao mundo Chicleteiro. Passei a encher a minha casa de música novamente. E o meu carro. E os nossos dias. Da minha música, da música da minha família. Meus pais deram a ele um MP3 Player e lá estavam as boas músicas. “Coloca um Victor e Léo também”, ele pediu uma vez. Eu respirei fundo, coloquei e esperei. Porque eu sabia que era uma questão de tempo.

Não demorou muito para que o Lucas começasse a notar a diferença. Até que um dia um amigo me contou que trabalharia em um show do Ozzy e eu pedi que ele levasse um CD para assinar para o meu filho. Ele não conseguiu isso, mas me trouxe uma palheta usada no show.

O Lucas devia ter uns 8 anos nessa época e chamei-o na sala. Ele já estava pendendo mais pra cá do que pra lá na música e bastava um pouquinho para que eu lhe trouxesse em definitivo ao meu lado.

– Lucas, essa é uma palheta usada no show do Ozzy.

– Jura??? Que legal!

– Ela pode ser sua…

– Pode? Como?

– Basta que você escolha um lado.

– Lado? Que lado?

– Afinal, você gosta de Ozzy ou de Victor e Léo?

– Credo, mãe! Eu não escuto Victor e Léo desde que eu era criança!

Ali eu vi que tinha feito o meu trabalho. E hoje quando escuto o Lucas cantarolando Beatles e pedindo o CD do AC/DC de Dia das Crianças, eu respiro aliviada. O ecletismo é importante, desde que ele mantenha a casa em harmonia. A minha está e meus ouvidos agradecem.

13 comentários em “Influência musical

  1. Aline Dexheimer
    8 novembro, 2012

    Adorei! Aqui tenho trs que foram para o lado do Ozzy e cia…ahah mais trs almas salvas! Beijos

    Enviado pelo meu Windows Phone ________________________________ De: Eneaotil Enviada em: 08/11/2012 12:10 Para: Aline Dexheimer Assunto: [Novo post] Influncia musical

    L. publicou: “Quando voc se torna me (ou pai), voc recebe a incumbncia de criar algum. Mais do que instinto e estatutos legais, isso significa que tudo passa a ser sua responsabilidade: se o pequenino vai tomar as vacinas, se vai comer alimentos saudveis, s”

  2. Fabíola
    8 novembro, 2012

    Até hj amo New Kids On the Block , claro que a vida segue né ,mas eles foram o meu primeiro amor.Putz , fiquei nostalgica de repente.

  3. Fabíola
    8 novembro, 2012

    Só complementando este ano eles vieram ao Brasil, e adivinha quem tava lá enlouquecida , cantando todas as musicas a plenos pulmões?Eu! Morri ! voltei no tunel do tempo , Putz fiquei nostalgica de novo .Bjs

  4. Luiz Benevides
    8 novembro, 2012

    Leonor Macedo, you’re our hero.

  5. Luciana Carneiro Aguera
    8 novembro, 2012

    Nossa, que saudades eu estava sentindo dos seus textos! Onde mais vc está escrevendo, lindona, pra eu poder acompanhar? Um beijo grande!

  6. Aline Cortes
    8 novembro, 2012

    Tudo indica que Luna seguirá pelo mesmo caminho. Amém!

  7. Bel
    8 novembro, 2012

    Minha filha compartilhou esse texto no facebook. Isso significa algo bom, né não??? \o/

  8. Sabrina
    8 novembro, 2012

    Não te conheço nem lembro como cheguei até o seu blog, mas depois que comecei a acompanhar sempre fico esperando o próximo post. Adoro o seu amor pelo Corinthians (apesar de eu ser uma Avaiana de Floripa haha), os posts sobre o Lucas e seus pensamentos de mãe. E espero ser tão bacana como você quando chegar a minha vez ;)

  9. Adriana
    8 novembro, 2012

    Mais uma lição do Manual da Boa Mãe! E do Manual do Bom Filho! Amei!

  10. Mariana MSDias
    10 novembro, 2012

    Ah, nada como a democracia caseira! hahahaha

  11. fielescudeiro
    19 novembro, 2014

    Ok, após ler alguns posts do seu blog e ficar emotivo, cheguei ao post sobre gostos musicais HAHAHA

    Como você disse que aprendeu a apreciar boa letra e boa harmonia, e como seu filho se chama Lucas, e mais diversos “e”, imaginei que seria legal compartilhar este álbum contigo (apesar de tudo, ele não possui “letra” alguma; é todo instrumental).

    Abaixo segue uma resenha sobre o álbum, retirado do blog “Esquina do Rock”, disponível em

    http://esquinadorock.blogspot.com.br/2011/04/marco-antonio-araujo-lucas-1984-brazil.html

    <>

    Enfim, espero que leia & aprecie.
    Um abraço!

    Fernando

  12. eneaotil
    5 janeiro, 2015

    Que demais, Fernando. Obrigada por isso! :)

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Publicado em 8 novembro, 2012 por em Sem categoria.
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