Eneaotil

Onze

Filho,

não sei bem qual foi o momento em que eu me tornei uma mãe de pré-adolescente, mais pra adolescente do que pra pré. Sei que não foi no dia em que você me pediu uma Playboy, por pura curiosidade e sem a mínima ideia do que fazer com aquelas páginas. Ali, você ainda era criança.

Também não foi no momento em que você deixou de me pedir brinquedos de aniversário e passou a me pedir aparelhos eletrônicos caríssimos que fazem sangrar o bolso de qualquer mãe jornalista. Ali, era o você de sempre, ágil com botões, jogos e lógica.

Certamente, não foi naquele Dia das Crianças em que você quis os CDs dos Beatles porque, filho, você sempre gostou de Beatles. E basta o dia estar ruim para eu me lembrar de você cantarolando “All my loving” para tudo melhorar.

Muito menos foi aquela vez em que você saiu do banho sem toalha e eu vi (você vai querer me matar!) pêlos e mais pêlos, por todos os lugares, e fiquei absolutamente aterrorizada porque para ser mãe de adolescente é preciso estar preparada. A natureza te prepara para isso, Lucas, da seguinte forma: primeiro, nascem os nenéns fofinhos que só choram, cagam e dormem, mas são tão bonitinhos que não tem como não amá-los. E aí o amor só aumenta porque eles passam a andar e a falar coisas engraçadinhas, e quando já não cabe tanto amor dentro do peito, eles se tornaram adolescentes.

Então, não tem devolução, você já não consegue mais mandar para um orfanato porque, mesmo que o seu filho tenha se tornado um monstrinho (no seu caso, um pré-monstrinho), você já resolveu amá-lo incondicionalmente. Mesmo com todas as respostas atravessadas, e as portas batidas em dias de mau humor, e discussões infindáveis por besteira pura. Mesmo quando vem um três em Geografia na escola, e uma reclamação da professora de matemática por péssimo comportamento.

Filho, a cada dia em que você acorda um pouco mais adolescente, eu vejo como o meu amor é verdadeiro e me sinto preparada. Preparada para enfrentar o que eu fui para os meus pais e o que você tem me ensinado todos os dias desde que ganhou esse bigodinho ralo na cara é me colocar no lugar do outro. No seu lugar. E me lembrar de como eu era, e do que eu gostava, e do que minha mãe fazia e que me dava vontade de morrer.

Eu sei, filho, que, ainda que não tenhamos tanta diferença de idade assim, por muitas vezes eu farei coisas que te darão vontade de morrer. Falarei algo na frente dos seus amigos que te fará sentir vergonha, contarei alguma história para uma namoradinha que te deixará a fim de arrumar uma trouxa de roupa e sumir.

Lu, por muitas e muitas vezes você vai achar que gosta menos de mim, é inevitável. Você pode ler isso e ficar indignado, gritar e espernear que “isso nunca vai acontecer!” e me fazer aquele carinho desajeitado na cabeça com um olhar complacente que eu ganho sempre que me faço de vítima.  Mas nesse caso, filho, eu sei.

Eu me lembro de todas às vezes que culpei meus pais pela minha infelicidade na adolescência e pelos males do mundo. De todas às vezes que tive a certeza de que meus pais não tinham a menor ideia do que estavam fazendo quando me negavam ou me proibiam de algo. Como assim eu não podia ficar até às 4h da manhã na casa do fulano que eles sequer conheciam? Me lembro de todas às vezes em que senti raiva deles, quis fugir, quis xingá-los, e bati portas, bati o pé, gritei, chorei até desidratar, até dormir. “Isso não pode ser amor”, eu pensava. Nem de lá, nem de cá.

E aí veio você, Lu, no meio de tudo isso. No meio mesmo, porque, como você já sabe, eu ainda era uma adolescente quando engravidei. Eu pensei que meus pais fossem me escalpelar, me expulsar de casa. Se eu era proibida de passar as madrugadas na rua, rindo e falando besteiras sem sentido com meus amigos, tocando um violão desafinado debaixo da janela de algum azarado, que dirá engravidar?

Quando eu contei a eles, foi difícil, filho (e você já ouviu essa história). Mais gritos, mais choro, mais vontade de morrer, de sumir, de fugir. Depois, vieram um cafuné desajeitado e um sorriso complacente (você tem a quem puxar), um travesseirinho de presente, a companhia no seu pré-natal, o choro na maternidade, o apoio diário, o cuidado contigo nas madrugadas em que estava doente, todas as vezes em que te buscaram na escola, as merendas com as suas guloseimas preferidas. Porque o amor, Luquinhas, mesmo que a gente não consiga enxergá-lo, está lá.

Ele está lá não só quando você deita no colo e até o Globo Repórter de sexta à noite fica divertido. Não só quando você diz que me ama sem motivo, no meio do meu expediente por mensagem instantânea. Não só quando você canta comigo no caminho da escola e me surpreende por saber uma letra inteira do Cartola. O amor está lá também entre palavras malditas, entre tons exagerados, entre uma lágrima e outra. Está lá do seu lado no meio de um castigo, de um não intransigente, das exigências por dedicação aos estudos, e até no confisco da sua mesada quando você não me ajuda em nada. E sempre estará lá.

No seu aniversário de 11 anos, filho, o que eu desejo é que você passe exatamente por tudo o que eu passei (não tudo, por favor, use camisinha!). Nessa fase que já começou sem a gente nem se dar conta de quando, eu espero que você ria por qualquer besteira, sem nenhum motivo aparente. Que você conheça os melhores amigos para a vida toda, mesmo que perca o contato com eles no dia seguinte. Que você mate umas aulas sem o meu consentimento para ir até algum lugar absolutamente sem graça, só pelo prazer de me enfrentar. Que você vá para a praia com os amigos e ache que viveu a melhor viagem da sua vida. Que tome uns goles escondido e ache que fez a sua maior contravenção (mas para isso espera um pouquinho mais, ok?! Vamos evitar brigas). Que você passe da meia noite em uma festa, quando marcamos de você voltar às onze. Que você se apaixone todos os dias por uma menina diferente e que elas esmaguem o seu coração, para você achar que a vida vai acabar, mas só até amanhã, quando conhecer uma nova. Que você continue sendo feliz.

E, no meio de tudo isso, que você se lembre que te amo, mesmo você sendo um adolescente. E que se lembre de me amar um pouquinho mesmo quando achar que eu não mereça.

Feliz aniversário.

Sua mãe, incondicionalmente.

35 comentários em “Onze

  1. Danielle
    12 novembro, 2012

    Te falei: “so falta ficar rica, pque aplausos vc ja tem!” Tem o dom!

  2. Muito gostoso ler seus textos. =) Sai quando um livro?! Já tem?! rs

  3. Kriscia
    12 novembro, 2012

    Quem é mãe chora um pouco mais ao ler isso.

  4. Denise
    12 novembro, 2012

    Ai, amo essa dupla e estou passando vergonha no trabalho pq tô chorando! :’) Parabéns, Lucas!

  5. .milam.
    12 novembro, 2012

    Luquinhas, com certeza o seu melhor presente é essa mãe incrível que você tem! Muita saúde, muito Beatles, muito tudo de maravilhoso! <3

  6. Kaira
    12 novembro, 2012

    Cara, vc me deixou mais uma vez sem palavras… =´( =´) #amo #amo #amo

  7. Paulaq
    12 novembro, 2012

    PQP que menino lindo, heim?

  8. jackcosta
    12 novembro, 2012

    Lucas, você está cada dia mais LINDO!!
    Um verdadeiro príncipe!!!
    Acho até que sua mãe pega pesado quando diz um “pré-monstrinho”. Não dá pra visualizar. Hahahahaha

    Meus parabéns, desejo muitas alegrias e felicidades, das mais verdadeiras!!

    Parabéns, Leonor! Você exerce a função com absoluta maestria. Sou muito fã!

    Aniversário do Lucas e o presente é sempre nosso. Muita emoção!

    Beijão pra vocês!!

  9. fauzehmc21
    12 novembro, 2012

    Meu amor, ou meus amores, são onze anos, já, de felicidade e o tempo passou tão rápido. Luquinhas você está mais arredio que há um tempo mas eu continuo te amando sempre. Você vai ser sempre o meu menino de ouro que tem a minha admiração em tudo o que faz. Siga bem nos estudos e na vida voce será como sua mãe e seu tio gente de bem. Felicidades no seu dia. E para você também minha querida leonorzinha.

  10. Erika Lima
    12 novembro, 2012

    Como mãe eu me sinto tão descrita em teus textos que chego a ficar embaraçada. Sentimos todos um grande carinho pelo Lucas e um grande orgulho pela mãe que você, Leonor. Parabéns aos dois.

  11. colchaderemendos
    12 novembro, 2012

    Que amor.

  12. Daniel Santos
    12 novembro, 2012

    Perfeito! Essa é a palavra certa pra definir esse texto.

  13. Ana Clara Putrick
    12 novembro, 2012

    Parabeens pro Luquinhas, quanto amor! E parabens a você pela linda homenagem!

  14. Roger Henrique
    12 novembro, 2012

    que texto lindo !

  15. Carol
    12 novembro, 2012

    Isso aó Lelê, ser mãe nao tem preço, mesmo que seja considerável o aumento de cabelos brancos!!! Parabens e muitas felicidades ao Lucas!!

  16. Gabi Bianco
    12 novembro, 2012

    <3

  17. lusinha
    12 novembro, 2012

    Lindo texto… Lindo amor!!

  18. Ana Roberta
    12 novembro, 2012

    Lindo texto. Vi teu filho em mim e em tudo que meus pais disseram a mim em alguns momentos.
    Parabéns a ele! Felicidades!

  19. Yuna Ribeiro
    12 novembro, 2012

    que lindo texto e que bela história!!! fico feliz e aliviada porque também estou me preparando pra tudo isso e mesmo sabendo que nunca estamos totalmente preparados, cada fase é uma chance de viver tudo de novo, se colocar no lugar da pessoa que mais amamos no mundo, lembrar de como fomos um dia e tocar adiante… pra viver a nossa felicidade mais a deles, porque nunca imaginamos, que mesmo sendo tão difícil, poderia ser tão bom!!! parabéns para os dois, mãe e filho lindos!

  20. Bonilha
    12 novembro, 2012

    Sem palavras. Parabéns para todos!

  21. Ivan De Falchi Júnior
    12 novembro, 2012

    Mais uma vez, muito, muito, muito bonito e emocionante…
    Parabéns ao Lucas…
    E a você.

  22. Marcela
    12 novembro, 2012

    Todo ano eu choro. Não acostumo mesmo… Parabéns pro Lucas! E para vc, claro!

  23. Luiz com Z
    12 novembro, 2012

    Você se supera a cada ano, Leonor. Tenho certeza que é reflexo do Lucas, que supera cada etapa cada vez de forma mais super. Façamos o possível pra guardar todos ou quase todos seus conselhos e aprendermos a ser pais equilibrados, independentemente das circunstâncias em que formos pais. :)

  24. Rayse
    12 novembro, 2012

    Que texto mais lindo! Parabéns, emocionante!

  25. Ike Galli
    12 novembro, 2012

    Parabéns para o Lucas e para você, Leonor! Se eu chorei, imagine ele.

  26. Fabrício Madureira
    12 novembro, 2012

    Parabéns realmente é de emocionar. Você arrepia com as palavras. E muitas felicidades ao meu idolo Luquinhas. NQT

  27. Tatabohm
    12 novembro, 2012

    Eu não sou sua leitora habitual, mas uma vez por ano passo por aqui pra me emocionar e me surpreender de como você, Leonor, tão menina, mas já tão gigante na sabedoria de como ser mãe. Lucky Lucas!

  28. Mari
    12 novembro, 2012

    Ahhhhhhhhh, Lelê… ♡

  29. Pingback: O aniversário de onze anos de Lucas | Pavablog

  30. Fernando Amaral
    13 novembro, 2012

    Bonito. Esse menino terá um diário de reminiscências lindão… Nós, já temos estes teus.

  31. siamopalestra
    27 novembro, 2012

    Vira e mexe, lembro de voltar aqui. E nunca, jamais, me arrependo. Outro texto incrível, de fazer chorar um rapagão de 27 anos, ainda sem filho =)

  32. Lucia Freitas
    8 dezembro, 2012

    Ai, mulé!!!
    O Lucas faz aniversário e quem ganha presente somos nós!
    E para variar a Joaninha começa rindo e termina emocionada, com o rosto lavado!
    Vai Lelê que o mundo é teu, sua LINDA!!!

  33. Leticia Maurici
    1 agosto, 2013

    Baitaaaaaaaaaa texto!! amei de coração!!!

  34. Blog do Óbvio - Manoel
    25 agosto, 2013

    Lelê, que lindo! Nem vou comentar sua postagem. Vou receitá-la como remédio ao coração das muitas adolescentes grávidas que inconscientemente pensam em não permitir o nascimento de seus rebentos.
    Maravilhosa a sua postagem e o Lucas só pode se orgulhar muito de você.
    Bjoss
    Manoel – Blog do Óbvio

  35. cynthia souza ribeiro
    19 setembro, 2013

    Menina…voce é uma poetiza…. Parabéns p/ Lucas….meu neto também vai fazer 11
    anos….eu me orgulho muito dessas mães maravilhosas e seus filhos surpreendentes….Parabéns prá voces…..!!!!

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Publicado em 12 novembro, 2012 por em Sem categoria.
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