Eneaotil

Coração fora do corpo

sogra

Um dia teu filho é pequeno e nem alcança a maçaneta, muito menos o botão do 5º andar no elevador. Ele fica na ponta do pé, ele se esforça, ele tenta, mas não vai a lugar algum sem você. No outro dia ele já faz o bigode, dá um tapa na tua bunda e diz que está saindo com os amigos.

Tua vontade é dizer E-NE-A-O-TIL. Não, não e não. Na-na-ni-na-não. Que história é essa de sair sozinho? Quantos anos você acha que tem? Trinta?

Mas você sorri, diz que tudo bem, pede pra ele dar notícias e não dar mais tapa na sua bunda. Implora pra ele dar notícias, na verdade. E quando ele abre a porta, aperta o botão do elevador e cumprimenta os amigos na rua com aqueles soquinhos idiotas (você está vendo tudo da janela), só te resta torcer pra ele voltar logo.

**

Quando eu tinha lá meus 12 anos, eu já ia sozinha para a escola, já andava de ônibus pela cidade, já ficava até tarde brincando na rua ou conversando com meus amigos na calçada. Já ia à padaria, ao shopping e ao cinema sozinha. Quando eu tinha 12 anos, minha mãe me liberou para viajar com a família de uma amiga, de carro, pelo interior do Paraná.

E eu queria mais! Aos 12 anos, eu já pedia para ficar até mais tarde nas festinhas. Já achava que meus pais não precisavam mais me buscar nos lugares (olha o mico!) e já fazia planos para ir a shows de rock do outro lado da cidade.

Não pensava em corações apertados e unhas roídas de preocupação, só pensava em ser cada dia mais livre. Crescer significava liberdade (só anos depois eu percebi que crescer significava contas pra pagar).

Também não pensava em ser mãe, mas me lembro de que meus primeiros pensamentos em relação a isso foram que eu daria toda a liberdade do mundo aos meus filhos.

– Eles vão poder ficar até tarde nas festinhas!
– Eles vão poder ir a shows de rock sozinhos com 7 anos!
– Eles vão poder voltar pra casa sozinhos de madrugada!
– Eles vão poder viajar pela América do Sul aos 5 anos e sozinhos se eles quiserem!!!

Aí eu pari.

**

Nunca passou pela minha cabeça ser uma mãe neurótica e ainda não acho que eu seja. Meu filho não é proibido de ir aos lugares sozinho e aos 12 vai poder pegar ônibus pra ir pra escola e ficar até mais tarde nas festinhas tentando dar o primeiro beijo. Mas não é “sussa” passar por esse momento de deixá-lo ir.

Quando ele foi sozinho pela primeira vez ao mercado, no ano passado, fiquei com aquela sensação de que o André Marques tinha sentado em cima do meu peito e acho que só consegui respirar quando ele voltou.

Dia desses nós estávamos chegando da escola e ele me perguntou:

– Aos 15, vou poder chegar em casa umas 2h, 3h da manhã né?

Me imaginei completamente careca, cheia de olheiras e alcoólatra. Respirei fundo e disse:

– Vamos ver…

Ser mãe é isso mesmo: é uma briga constante entre emoção e razão, a vontade egoísta de não deixá-lo ir e a lembrança da vida que você queria ter quando tinha a idade dele. Então, provavelmente eu deixe e finja que estou dormindo (depois de tomar umas e outras) quando ele chegar às 2h (às 3h, nem pensar!). 

12 comentários em “Coração fora do corpo

  1. Dona Rose, a avó
    11 setembro, 2013

    “Se não tê los, como saber?”, Agora começa a sua fase, minha filha!Já já vc se acostuma.Mas a verdade é q nossa vontade de mãe é q eles nunca cresçam,ou então q depois dos 10/12 anos, a gente tranque eles no armário e tire só depois da maioridade. <3

  2. Fernando Amaral
    11 setembro, 2013

    Puxa… pra que isso….? (pra variar, obrigado).

  3. Eduardo Cruz
    11 setembro, 2013

    Leonor, você judiou… eu fingindo acreditar que esse tempo nunca chegaria, que quem fizera os pais arrancar os cabelos era só eu e isso nunca aconteceria comigo, vem você e me dá esse choque de realidade. Puta crueldade, vou perder o sono sofrendo com isso… Belíssimo texto.

  4. Patrícia Peixoto Rocha
    11 setembro, 2013

    Tava com saudades de ler seus textos fodas. Que bom que voltou a escrever <3

  5. Marcos Bonilha
    11 setembro, 2013

    Falava a mesma coisa. Hoje, nem filhos tenho ainda e já penso nessa agonia.

    Preciso tomar algo para ansiedade. Urgente.

    Belo texto, para variar, Lele!

  6. maraí
    11 setembro, 2013

    Delícia de texto pra encher o coração de humor e amor!

  7. @Diandra Arbia
    11 setembro, 2013

    Me vejo todinha nessa descrição. Não tenho nem filho e já fico neurótica pensando em como vai ser quando eles crescerem! Minha mãe fez de tudo pra eu não andar por aí sozinha, será que vou fazer o mesmo? oh god.

  8. Maria Olivia Correa Perini
    11 setembro, 2013

    Lelê, como me lembrei de vcs! Parece que foi outro dia que eu estava nessa situação e, veja, a Flavinha com 30 e eu ainda roendo as unhas de preocupação quando ela demora um “pouquinho” mais. Pensamos que vamos ser diferentes, mas no fundo, acaba sendo tudo igual. Ainda deve demorar um pouquinho para o Davi chegar aí, mas, tenho certeza que a Flavia não será diferente de vc., de mim., de Maria, da Fernanda, da Patricia, da…. da…. e da….. afinal, somos MÃES!! Consciente e lindo seu texto.

  9. Blog do Óbvio - Manoel
    11 setembro, 2013

    Leonor, kkk! Muito bem escrito. É uma boa puxada de orelhas na gente que lutava por liberdade total aos 12 anos e agora…posição invertida.
    É a vida, não é? Ainda bem que temos as lembranças da Lelê para tentarmos ser mais compreensivos com a criançada.
    Grande abraço,
    Manoel.

  10. Glauce Ferrari
    12 setembro, 2013

    Sinceramente, nao espero ansiosamente por essa faixa etaria e nenhum dos seus dilemas :P

    Ja sofro e choro so de deixar o Enrico na escolinha e quase tive um ataque quando percebi, agora na volta as aulas, que ele e’ da “turma dos grandes” na escolinha (que vai ate 3 anos). Ja tava querendo e’ congelar ele nessa idade mesmo!

  11. Cris Campos
    12 setembro, 2013

    Somos assim mesmo, jogamos eles pra fora do ninho porque esse é o caminho para que eles aprendam a voar, mas em seguida mergulhamos num rasante para estar logo abaixo deles, de asas abertas a espera de um sinal de que eles ainda precisam da gente por perto. Adorei o texto Leonor! Forte abraço!

  12. Carol Mancini
    13 setembro, 2013

    Com 12 anos eu queria muito ficar até 22h na rua, mas meu pai não deixava de jeito nenhum, mas pegava ônibus sozinha pra voltar do “treino” de vôlei.

    Mas sabe o que é mais bacana? Eu leio seu blog desde que conheci a Gabi Bianco, em 2008. Nesse tempo (vixi, quanto tempo né) eu acompanhei (e chorei e ri e chorei e ri) vendo suas histórias com o Lucas, desde as 15 namoradas da infância até agora, que ele já anda sozinho com os amigos e entrou na adolescência. E, olha, a sua relação com ele é a de mãe e filho que eu mais admiro. Vocês são uma família muito linda, mesmo. E você vai se descabelar porque ele é adolescente, mas vocês tem um vínculo muito legal então acho que não vai ser tão difícil assim.

    Parabéns, de coração.

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Publicado em 11 setembro, 2013 por em Na família.
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