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Para um coração aliviado

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Quantos anos de história estão por trás de uma aposentadoria? De salários e holerites? De broncas de chefe, de ver o sol nascer e se pôr no escritório? De objetos de desejo que não puderam ser comprados, do presente inesperado que se pôde dar por estar trabalhando? De colegas de trabalho que se tornaram amigos e inimigos? De almoço com a galera na firma, de parabéns pra você no fim do expediente? De zoeira no escritório porque seu time perdeu no fim de semana? De ficar amassado no ônibus para chegar no trabalho ou mofar no trânsito? Quantos planos de um recém-formado e quantas realidades de um desempregado estão por trás de uma aposentadoria?

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Lembro-me que quando eu era criança, vi meu pai dar parabéns diversas vezes para amigos que tinham conseguido se aposentar. Naquela época, se aposentar era comum, mas era motivo de festa, apesar da pouca grana que a pessoa teria dali para frente. Ainda que pouca, era grana. Era certa, estava ali e não era dada, era um direito conquistado, era o reconhecimento por tantos anos de contribuição, tanta cacetada tomada, de tanta gravata apertada.

Era, sim, motivo de parabéns.

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Ali, na minha infância, eu ainda não entendia o porquê. Parabéns, pra mim, era em aniversário. Foi só depois de começar a trabalhar que eu percebi a importância que aquilo teria para o meu pai. E foi mais ou menos assim:

Quando eu estava na 5ª série e meu irmão na 6ª, meu pai foi demitido de um trabalho que tinha há quase 15 anos. Ele tinha sido recentemente promovido a chefe do departamento e foi determinado a ele que demitisse toda a equipe, uma das tarefas que ele deveria cumprir como novo chefe do setor. Jamais ele faria isso com a turma com quem trabalhou por quase 15 anos. Nem se tivesse trabalhado 15 meses ou 15 dias, na verdade. Por não demitir ninguém, o demitido foi ele.

O desemprego bateu na nossa porta pela primeira vez de maneira assustadora e, para garantir uns trocados em casa, eu e meu irmão fomos vender empada que a minha mãe fazia na escola. Foi esse o nosso primeiro trabalho que nos ensinaria mais coisas do que imaginávamos aprender naquele momento (inclusive fazer empadas!).

Logo meu pai conseguiu outro trabalho (mas continuamos a vender empadas porque a grana era até que legal. E expandimos o negócio para chocolates, chicletes e lanches naturais). Assim como nós, ele é jornalista. Só que ele se especializou em algo que morreu com a internet: meu pai é jornalista arquivista. Quem é das antigas (ou quem tem um pai das antigas) sabe que em uma redação não saía nenhuma matéria sem que se solicitasse uma pesquisa prévia sobre o tema no arquivo do jornal/TV/rádio. Meu pai era esse pesquisador, esse cara que perdeu para o Google.

E foi difícil quando a internet chegou porque não demorou muito para que ele ficasse desempregado de novo. Daí em diante, meu pai se viu com 50 e poucos anos tendo que reaprender tudo na profissão que tinha escolhido. Ser repórter? Ser pauteiro? Ser locutor? Ser o que?

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Com 30 e poucos anos de contribuição e sem ainda ter conseguido se aposentar, ser sustentado pelos filhos foi o que restou a um jornalista que não servia mais para esse novo mercado. Ser desempregado. E lá dentro da casa a gente presenciou um homem que lutava pra sair dessa condição: tentou trabalhar com pesquisa de mercado. Tentou trabalhar com telemarketing. Tentou trabalhar como fiscal de caixa de mercado. Tentou trabalhar, enfim.

Nós sempre dizíamos a ele:

– Pai, deixa conosco! Vá respirar aliviado e tentar curtir um pouco.

Mas nesse nosso mundo um homem só é um homem completo com dinheiro no bolso, ainda que seja uns trocados.

**

Até que esse dia chegou! Quase 36 anos de contribuição depois, quase 36 anos de empregos e desempregos, quase 65 anos de idade, meu pai conseguiu. Se aposentou para desafrouxar a gravata imaginária, dependurar essa corda do pescoço, sentar no sofá e sentir que cumpriu essa missão. E, embora poucos deem os parabéns hoje em dia para tal feito, ninguém merece mais os parabéns de todas as pessoas que eu já conheci nessa vida do que ele.

Vá curtir, pai, vá respirar aliviado. Porque toda essa história foi para dizer que tudo, absolutamente tudo, sempre acaba bem.

7 comentários em “Para um coração aliviado

  1. Natan Mestrinelli
    6 novembro, 2013

    Me impressiono com a sua eficácia em colocar sentimento em seus textos. Parabens a seu pai, por ter se aposentado e por ter criado muito bem seus filhos.

  2. Rozz
    6 novembro, 2013

    Vc escreve de um jeito…quero ser assim quando crescer.
    Transmita meus parabéns ao seu Fausto!

  3. Fabiana
    6 novembro, 2013

    Uma coisa é certa, sempre termino seus textos com lágrimas nos olhos. Lindo o amor que você tem pela sua família.

  4. Milla Pupo
    7 novembro, 2013

    Parabéns ao seu pai, com certeza é merecido. :)

  5. Uli
    7 novembro, 2013

    Ô, Lelê… sempre derrubando a galera com suas palavras…
    Creio que pra geração que tá ocupando as vagas do mercado, falar em aposentadoria é meio como falar em ditadura pra gente. Existiu, nossos pais viveram, mas pra gente não é algo visceral e palpável, é algo sem sentido. Bem interessante alguém jovem e com bom senso tocar no assunto. Dessa parte, o significado profundo que isso tem na terceira parte da vida.
    Um beijo no seu Fausto, outro em você.

  6. fnerc
    11 novembro, 2013

    Republicou isso em Frederico Nercessian.

  7. Elaine
    12 dezembro, 2013

    O amor e o apoio daqueles que amamos sempre nos ajuda a permitir e aceitar que tudo termine bem! Belo texto Fredico, sucesso! =*

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Informação

Publicado em 6 novembro, 2013 por em Na família.
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