Eneaotil

Sobre os outros

Passei de carro hoje bem cedo por um morador de rua e tento sempre prestar atenção para que eles não sejam tão invisíveis na cidade. Faz uns anos tive uma conversa com uma amiga sobre as pessoas do século retrasado que conviviam com negros sendo açoitados e capturados no meio da rua.

Como aquilo podia ser algo corriqueiro, apenas um elemento a mais na vida daquelas pessoas? Será que daqui a 100 anos as pessoas acharão um absurdo que a nossa geração passe por milhares de pessoas vivendo na miséria nas ruas e nem sequer se incomode?

Aquela conversa nunca me saiu da cabeça.

Acontece que o morador de rua de hoje tinha menos do que a maioria dos moradores de rua. Até entre eles há desigualdade e esse tinha apenas um pano fazendo as vezes da cueca. Uma calça larga, rasgada, que tinha virado só um pano sem cavalo, sem acomodação para o pênis. Um pano que cairia a qualquer momento e ele segurava com as duas mãos porque, ainda que parecesse o mais fodido dos mendigos, sabia que não podia sair nu por aí.

Eu estacionei o carro, subi para o apartamento e separei uma camiseta do meu irmão, uma calça de moletom e um chinelo velho do Lucas, e uma cueca samba-canção que uso de vez em quando para dormir. Fui até a cozinha, peguei dois pães que estavam de bobeira por lá e desci. O morador de rua não estava mais lá, mas decidi procurá-lo.

Com a cueca improvisada caindo, ele não tinha ido muito longe. Virou uma rua à esquerda e estava parado na frente de um salão de beleza. Eu cheguei perto e estendi as roupas. Ele pegou e não trocamos uma palavra. Voltei para a casa com o sentimento de que não tinha feito nada mais que a minha obrigação, que a nossa geração deve sempre fazer o exercício de lembrar que aquelas pessoas existem e coexistem conosco.

Depois de algumas horas, vim para o trabalho e virei na mesma rua em que estava o mendigo quando nos encontramos. Atravessei e do outro lado da calçada havia uma pilha de roupas: entre calças jeans em bom estado e camisetas, reconheci as peças que eu tinha dado a ele. Ainda dobradas, intactas, limpas. Aquele não era o armário do mendigo, era simplesmente o que ele tinha ganhado de uma porção de misericordiosos da classe média e não queria. Porque o exercício de não fazê-los invisíveis está não só em enxergá-los, mas entender que cada um deles tem também as suas histórias, os seus gostos e as suas preferências.

E aquele homem, bem, aquele homem preferia andar quase nu.

5 comentários em “Sobre os outros

  1. André Nogueira
    26 fevereiro, 2015

    Leonor,
    Quando morei na Rua Pirineus (Santa Cecília) e trabalhava no Centro costumava caminhar nos trajetos de casa pro trabalho por baixo do minhocão. Nessas caminhadas acabei conhecendo muitos tipos de mendigos, do esquizofrênico ao evangélico, do pai extremamente carinhoso ao negligente (nada diferente de nós). Muitas famílias, poucos solitários, muitos casais com e sem filhos, com ou sem cachorros de estimação. Observava o comportamento, hábitos e até tomei algumas dezenas de cervejas e pingas com eles.
    Uma das conclusões a que cheguei é que o abismo que os mantém na indigência estimula a criação de sistemas de defesa, proteção e captação de doações. Eles são extremamente caridosos entre si.
    Pode ser que ele seja apenas sistemático e não tenha gostado da sua samba-canção, ou esquizofrênico e não consiga avaliar suas vestes ou ter senso crítico sobre a própria imagem.Também pode ser uma estratégia para sensibilizar mais pessoas e captar mais e mais roupas, comida, dinheiro para si e para outros.
    Se esse mendigo estivesse vestido com roupas limpas parecidas com as que você deu pra ele quando o avistou pela primeira vez, qual seria sua reação? Doaria algo?
    O que importa é respeitá-los exatamente como fez, sem aquele ranço crítico tão comum ao paulistano que adora falar de “varas de pescar” mas não quebram um bambuzinho sequer por caridade a ninguém.

  2. André Nogueira
    26 fevereiro, 2015

    Leonor,
    Quando morei na Rua Pirineus (Santa Cecília) e trabalhava no Centro costumava caminhar nos trajetos de casa pro trabalho por baixo do minhocão. Nessas caminhadas acabei conhecendo muitos tipos de mendigos, do esquizofrênico ao evangélico, do pai extremamente carinhoso ao negligente (nada diferente de nós). Muitas famílias, poucos solitários, muitos casais com e sem filhos, com ou sem cachorros de estimação. Observava o comportamento, hábitos e até tomei algumas dezenas de cervejas e pingas com eles.
    Uma das conclusões a que cheguei é que o abismo que os mantém na indigência estimula a criação de sistemas de defesa, proteção e captação de doações. Eles são extremamente caridosos entre si.
    Pode ser que ele seja apenas sistemático e não tenha gostado da sua samba-canção, ou esquizofrênico e não consiga avaliar suas vestes ou ter senso crítico sobre a própria imagem.Também pode ser uma estratégia para sensibilizar mais pessoas e captar mais e mais roupas, comida, dinheiro para si e para outros.
    Se esse mendigo estivesse vestido com roupas limpas parecidas com as que você deu pra ele quando o avistou pela primeira vez, qual seria sua reação? Doaria algo?
    O que importa é respeitá-los exatamente como fez, sem aquele ranço crítico tão comum ao paulistano que adora falar de “varas de pescar” mas não quebram um bambuzinho sequer por caridade a ninguém.

  3. Margareth
    27 fevereiro, 2015

    Trabalhei na Av. Ipiranga (Centro de SP) e durante muitos anos caminhei pelas ruas e passei por vários mendigos por ali. Infelizmente, eles passam a fazer parte da paisagem. Um deles chamava a atenção de todos: ele estava muito sujo, barba e cabelos grandes, e se vestia com uma saco de lixo preto. Um dia, uma moça que trabalhava comigo foi até ele e entregou roupas limpas. Ele recusou e agradeceu mas disse que aquele saco de lixo fazia parte da sua vida e assim ele sentia-se melhor. A nossa parte é ajudar da melhor forma possível, com roupas, comida ou o que puder, se eles aceitam ou não, isso não pode nos deixar engessados, passando pelo próximo sem ajudar e podendo fazer isso. A bondade e a compaixão não estão na moda, neste mundo tão corrido, no qual só pensamos em nós mesmos, no compromisso, na aula, no trabalho. É uma triste realidade.

  4. Valéria
    2 março, 2015

    Lembrei de uma história parecida…Uma vez organizamos uma feira de trocas embaixo do Minhocão e acabamos por doar as roupas para quem quisesse. Chegou um morador de rua que olhou tudo e não gostou de nada e se justificou por isso: “Desculpem, mas é que eu sou bem enjoado para escolher roupas”.
    OK, aprendemos a lição de que, ao contrários do que imaginamos às vezes, as circunstâncias nem sempre tiram as preferências das pessoas.

  5. Ana
    16 abril, 2015

    Oi, eu converso com um mendigo na República. Ele gosta de caça palavras.
    Eu comprei para ele um cortador de unhas, uns band aids, umas cartelinhas de aspirina e sempre, sempre, sempre pergunto se ele quer, se ele se ofende, se ele pode falar.

    A propósito, acho que ele não estreou o cortador de unhas, mas quem sou eu pra perguntar, né?

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Publicado em 26 fevereiro, 2015 por em Na cidade.
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