Daqui de onde eu vejo

No começo da pandemia, eu comprei uma luneta. Seria mais bonito dizer que foi para observar, daqui do meu lugar, céu, lua e estrelas. Ainda que presa a um espaço restrito por sei lá quantos meses, ver que o mundo é muito maior do que esses 80 m² e que, apesar dos pesares, ele segue lá fora, iluminado e imenso, girando e ditando o tempo. Mas, não: eu comprei a luneta para espionar os meus vizinhos.

A ideia era conseguir suprir uma espécie de tara que eu tenho em escutar diálogos alheios. Gosto de sentar perto de casais e amigos em restaurantes para prestar atenção – de um jeito sutil – naquilo que está sendo dito. Tento traçar em minha cabeça como chegaram ali, onde aquela história vai dar, acompanho o drama, por vezes me emociono, torço por eles e passo dias imaginando desfechos. Durante um período, andei com um caderninho para anotar as melhores frases de desconhecidos.

Também tento, desde criança, adivinhar quem são essas pessoas que passam pela gente todos os dias. Quem é essa senhora que sentou na minha frente no metrô? Da onde vem? No que trabalha? É feliz? O que sentiu pela primeira vez que viu o mar? Tem medo de avião? Encontrou o amor da vida? Teve a sorte de ser correspondida? Por que não sorri? Será que conhece alguém que eu conheço?

Para mim, tudo isso evaporou com a pandemia. A vida acontece, mas agora fechada em caixinhas.

Da janela do meu quarto, vejo 14 prédios. Uns de esquina, outros bem de frente, uns de longe, outros mais de perto. Em uma conta rápida de padaria, cerca de 420 apartamentos. Eu precisava daquela luneta. Escolhi uma pela internet com o amadorismo de quem só usou o binóculo bosta do primo na infância, quando brincávamos de Comandos em Ação na chácara dos meus tios. Nos sentíamos em pleno Vietnã entre as poucas árvores do pomar – e eu, caçulinha, tentava disfarçar minha fobia de aranhas para não parecer medrosa entre os mais velhos.

Quanto de zoom será que eu precisaria para enxergar aquela janelinha lááááááá longe, a umas quatro quadras daqui? Acho que isso tá bom. Nossa, que caro. Mas vale, é um investimento. Finalizar compra.

É claro que deu errado e que a luneta era uma bosta, o zoom imprestável, que um bom equipamento custaria pelo menos 10 vezes mais do que eu paguei e que, quando coloquei-a no olho direito, senti pela primeira vez uma catarata avançada. Era eu ou ela o problema?

Meu campo de visão, então, ficou restrito aos dois prédios a meio quarteirão de distância do meu. Ainda eram cerca de 60 apartamentos, entretenimento para toda a quarentena. Como as coisas aqui no Brasil começaram algum tempo depois da Ásia e da Europa, vimos pela televisão as notícias de como eles estavam lidando com tudo isso. Vizinhos que tinham se apaixonado a partir de suas sacadas, tenores que faziam serenatas das janelas, professores de ginástica que incentivaram todo um condomínio a se exercitar da varanda. Talvez nenhum tenor more por ali, mas as expectativas eram grandes. Quem sabe até, lá pela terceira ou quarta semana, eu fosse peça-chave para desvendar um assassinato perfeito, calculado e planejado durante anos, mas que não contava com uma testemunha e sua lunetinha do outro lado da rua?

Há dois meses, não toco na luneta. Depois de quase 120 dias de tentativas, em que o ápice da agitação foi quando aquele homem do 13º andar fez 15 minutos de polichinelos ininterruptos, posso garantir que meus vizinhos são as pessoas mais ordinárias do mundo. Exatamente como eu.

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