Gentileza gera gente lesa

-Senta aqui no meu lugar…

Na hora não entendi bem o porquê daquilo.

-Não precisa, obrigada.
-Senta aqui que já vou descer.
-Tudo bem, então, obrigada de novo.

Ela pegou as sacolas que estavam acomodadas entre as pernas e saiu do assento cambaleando, com dificuldade.

Me sorriu e eu sorri de volta, grata pela gentileza. Peguei o celular e troquei umas mensagens, li duas ou três notícias, passei os olhos por alguns tweets. Uns 10 minutos depois, fui arrumar os cabelos e de lado enxerguei o vulto da mulher com as sacolas, parada perto da porta.

“Que caralho essa mulher ainda não desceu?”, pensei.

Passei rapidamente da satisfação de estar sentada em um busão lotado a um incômodo tremendo. Arregalei os olhos e coloquei as mãos na barriga para sentir se estava grande.

“Será que achou que eu estava grávida?”

“Ela deve ter calculado errado, achou que o ponto que tinha que descer era mais perto…”

“Segunda-feira começo uma dieta.”

“Ela vai descer já já, certeza.”

“Amanhã me inscrevo na academia.”

“Olha lá, agora ela vai descer!”

E não descia. E nunca que descia. Um gesto que foi acabando com a minha autoestima ponto a ponto.

Pronto, desceu! Um ponto antes de mim. Trinta e cinco minutos depois do “senta aqui que já vou descer”. Desceu e andou segura na rua, tinha certeza de onde estava. Eu olhando-a caminhar sem entendê-la. Onde foi que eu errei para receber essa gentileza?

Nomes

Meu filho se chama Lucas porque sim. Não há nenhum motivo para eu ter escolhido esse nome, a não ser o fato de que eu gostava, achava bonito, sonoro, descomplicado. Como alguém que entra em um estúdio de tatuagem e marca para sempre na pele um barquinho sem ser marinheiro ou uma faca fincada em uma caveira sem nunca ter matado nem uma mosca.

Duas sílabas simples, cinco letras, cabem nos dedos de uma só mão. E não tem como errar, ninguém vai chamá-lo de Elucas, Lucassio, Louquis, nada. No máximo uma grafia incorreta, um Lucca aqui, um Lukas acolá. É um nome que fica ali no G15 da chamada escolar para não ter que responder tão rápido a ponto de não aprender a esperar nem ser o último a gritar “PRESENTE!”, tempo suficiente para pensar em todas as agruras da vida.

Nos Martin de Macedo, ele é uma exceção. Quase todo nome nessa família carrega uma longa história. Letrinhas miúdas que às vezes tomam boa parte de minhas interações com quem acabo de conhecer, mas que estou aprendendo a contar na velocidade de uma advertência ao consumidor do tipo “ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado”.

Meu avô espanhol, por exemplo, se chamava Abdon Porras e, depois de uma longa viagem de navio, descobriu que isso era um palavrão por aqui. Não teve dúvidas: falsificou seus documentos ao desembarcar em terras tupiniquins, mudando por conta própria o sobrenome para Parras. Resolvido, foda-se se um dia os netos terão problema para tirar uma cidadania espanhola. Quem vai querer isso em um Brasil de Bolsonaro?

Minha avó paterna tinha nome artístico e eu descobri isso depois de adulta. Se chamava Maria Stella, normal, mas se apresentava como Marina. Então demorei praticamente uma vida para saber que Marina nunca existiu, Marina era uma ilusão.

Meu pai se chama Fausto Macedo porque meu avô se chamava Fausto Macedo e sobre isso não há muito o que dizer, a não ser que ambos tinham um homônimo, jornalista investigativo. Trabalhava (e ainda trabalha) com polícia e política – e na época que ainda existia lista telefônica, muitas vezes o telefone lá de casa tocou e eram ameaças para o Fausto errado.

Mas na ausência de uma história melhor para o nome do meu pai, eu fui atrás de uma. Há alguns anos, tive um teretetê com um cara chamado Fausto, filho de uma Fausta. E pensamos em casar apenas pelo convite:

Os Faustos convidam…

Seria a piada a ir mais longe, certamente.

Ainda assim, ninguém jamais vai passar pelo que eu passei me chamando Leonor. Talvez a minha avó materna, a quem homenageio, mas ela viveu em uma época em que Leonor ainda estava na crista da onda. Quando as pessoas entendiam que é um nome feminino e que, apesar de terminado em OR, não é da mesma laia do Agenor, do Antenor nem do Adenor.

Antes que a minha mãe comece a chorar ao ler esse texto, eu gosto do meu nome. Odiava quando pequena porque não queria me sentir diferente do resto do mundo e a única Leonor que eu conhecia era a tia Loló, uma velha lá da escola que arrancava os dentes moles das crianças. Ela era boazinha, mas tinha uns 100 anos, o que fazia todo mundo rir de mim. Depois cresci e aprendi a me sentir especial justamente por ser a única. Da rua, da escola, da torcida, dos amigos. E conheci a história por trás do meu nome.

O ano era 1982 e eu me chamaria Juliana (nadavê). Se pronunciaria Ruliana, porque seria um Juliana espanhol, o que também me faria enfrentar problemas. Mas eu acabaria atendendo por Juliana mesmo, como todas as centenas de milhares de Julianas brasileiras.

Mamãe estava grávida sem saber se era menino ou menina ainda. Naquela época, os exames ultrassom não eram tão corriqueiros como são hoje, as gestantes eram como Kinder ovos gigantes carregando suas surpresas.

Em maio, a avó paterna de minha mãe, a bisa Dolores, completou 100 anos. A família foi toda para a festinha no interior, eu na barriga. Minha bisa vira para a minha mãe e diz:

– Você está grávida de uma menina e não vou conhecê-la, vou morrer antes…
– Pare de besteira, vó, não sei se é menina e é claro que você vai conhecer. Você tá ótima.

A bem da verdade, a bisa estava esfarelando, mas sem nenhum problema de saúde.

– Sim, mas vou morrer antes de ela nascer e por isso tenho um pedido. Gostaria que ela tivesse o nome de sua falecida mãe, minha nora Leonor.
– Vovó, se for menina vai ser Juliana, se for menino Eduardo e você vai conhecer…

Em julho, a bisa morreu. Bruxona mesmo, mamãe ficou bem impressionada com aquilo, se ela era capaz de prever a própria morte, seria melhor acatar o pedido. Ficou decidido que se eu nascesse menina, me chamaria Leonor e minha mãe foi comunicar a decisão ao meu avô Abdon, o viúvo.

– Não quero. Toda vez que eu olhar para a minha neta vou me lembrar da minha falecida mulher e vou ficar triste. Então coloca um nome duplo. Maria. Leonor Maria. Assim vou chamá-la só de Mariazinha.

Nasci Leonor Maria.

Não existe nada mais inútil do que o Maria do meu nome. Nem o Maria da minha avó Marina foi tão inútil. Ninguém nunca me chamou por ele, muito menos o meu avô. Era Leonorzinha pra cá, Leonorzinha pra lá. Porras, vô.