A torta

Eu já apareci na televisão algumas vezes, primeiro como plateia e depois dando algumas entrevistas. Quando eu tinha uns dois anos, meu pai trabalhava na TV Cultura e levava a mim e ao meu irmão para assistir ao programa infantil Bambalalão. Ou ficávamos nos bastidores, olhando as gravações de Rá-Tim-Bum, Glub-glub e X-Tudo.

Já era adolescente e meu pai foi trabalhar na Bandeirantes, onde me levou para ver algumas filmagens do Cine Trash com o Zé do Caixão, de quem eu era muito, muito fã. E acho que a minha vida de plateia se encerrou em grande estilo, no Programa H, do Luciano Huck. Naquele dia, o Suicidal Tendencies se apresentou para dezenas de patricinhas, para o Thierry Figueira e sua monocelha, e para mim – que abri uma grande roda sozinha. Sempre procurei esse programa no Youtube desejando não encontrá-lo.

Até que veio a fase em que eu tinha algo a dizer e o microfone me procurava. Teve uma vez que fui encontrar com a minha mãe no supermercado e caiu um toró no caminho. Cheguei encharcada, de blusa branca, faróis acesos. Assim que pus os pés no estabelecimento, uma repórter me perguntou:

– O que você faria se tivesse mais tempo livre?

– Hmm… é… hmm… eu viajaria mais para ver o Corinthians.

Esse depoimento encerrou uma reportagem no Fantástico que relacionava o aumento da cesta básica com o fato de que trabalharíamos mais para comprá-la e nos sobraria menos tempo para viver – e ver o Coringão.

Passei dias recebendo telefonemas de parabéns, o orgulho da família. E essa não foi a única aparição no Fantástico. Em um dia de recorde de gente na 25 de março, no fim de semana anterior ao Natal, adivinha quem estava lá? Euzinha, junto com a minha mãe. Fui abordada pelo repórter segurando um travesseirinho do Bob Esponja que eu tinha acabado de comprar para mim mesma, mas não tive coragem de admitir a todo o Brasil.

Depois, virei personagem de basicamente dois tipos de matéria: gravidez na adolescência, e mulher e futebol. Assuntos que eu dominava, não dá para negar.

Em uma dessas, há um 10 anos, fui convidada para falar sobre a minha experiência em arquibancadas ao vivo na Record, no matinal Hoje Em Dia. O programa começava às 9h, o que quer dizer que às 7h eu já deveria estar por lá com a camisa do Corinthians para escovar os cabelos e me maquiar. Uma tríade que nunca mais se repetiu.

No último bloco do programa, eu ainda não tinha sido chamada porque a audiência ia bem com uma história da festa de debutante de sei lá quem. Já estava desmaiando de fome, com a maquiagem meio derretida, suada e fedida (quem gosta de futebol sabe que as camisas mais antigas te deixam com um cheiro bem peculiar) quando fui chamada para me sentar no sofá com os três apresentadores.

Imaginei o rebuliço na família. Estavam todos há horas diante da televisão, o noroeste paulista em peso dando audiência, os bairros de Perdizes e Pompeia ligadinhos na telinha. Meu irmão no Rio de Janeiro nem trabalhou naquele dia. Compraram cerveja, salgadinho Torcida, era uma terça-feira de festa nos Martin de Macedo.

Na segunda pergunta, a audiência já tinha caído drasticamente. Afinal, quem é que queria saber como aquela desconhecida começou a frequentar estádios e se gostar de futebol era abrir mão de sua feminilidade? A quem importava se eu seguia passando batom para ver o Corinthians ou se sabia o que é impedimento?

A salvação do programa foi parar nas mãos de Edu Guedes, que aproveitaria a hora do almoço para fazer uma torta. Fomos convidadas a seguir no sofá e acompanhar o preparo, mas a essa altura do campeonato eu já não raciocinava mais. Desde às 6h acordada, com um café com leite no estômago, eu só queria aquela torta.

Prestei atenção no começo da receita: “é uma torta de banana com chocolate”…

… e não me ouvi quando ele falou: “mas o pulo do gato é transformar a sobremesa em almoço, trocando o chocolate pela carne moída”. Eu estava reparando na decoração, em como a Gianne Albertoni era altíssima, tentando me lembrar se o Edu Guedes ainda namorava a Eliana.

A torta veio e eu salivei. Estava bonita, então eu peguei um grande pedaço para colocar na boca. A vida é isso: te dá carne moída com banana enquanto você está esperando um chocolate.

O resto ficou debaixo de uma mesinha de centro, ao vivo mesmo. Nesse dia eu aprendi, definitivamente, que a televisão não era para mim.

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